Pandemia faz Brasil pedir 20 vezes mais dinheiro a agências internacionais

Pandemia faz Brasil pedir 20 vezes mais dinheiro a agências internacionais

Tesouro busca ao menos US$ 4,1 bilhões após equipe econômica concluir que crise vai impactar nível disponível de recursos

A crise do novo coronavírus e a piora nas condições do mercado brasileiro fizeram disparar o volume de dinheiro soÈeit ado p elo governo a agências internacionais. 0 valor negociado nes te ano já representa-20 vezes o registrado em 2019. O principal destino dos recursos são medidaspara mitigai- a crise gerada pela pandemia e a paralisação das atividades.

O Tesouro Nacional busca um financiamento de ao menos US$ 4,1 bilhões, o equivalente a R$ 2,3 bilhões, em órgãos como o NDB (Novo Banco de Desenvolvimento, o banco dos Brics), o BID (Banco Lnteramericano de Desenvolvimento), o CAF (Corporação Andina de Fomento) e até a instituição de fomento alemã KfW. A medida foi tomada após a equipe econômica chegar ao diagnóstico de que a pandemia vai impactar o nível de recursos disponíveis no caixa do Tesouro. Ao mesmo tempo, o governo observa uma elevação do custo do financiamento da dívida no mercado doméstico. D e -2 a 17 a 2019, os valores de financiamentos obtidos diretamente pelo governo federal não passavam de US$ 250 milhões po r ano e eram e onsiderados pontuais. O uso das agências ganhou impulso por ser considerado vantajoso ao proporcionar recursos volumosos, de longo prazo, a taxas mais atraentes do que as observadas atualmente no mercado doméstico.

`Voltamosa ser tomadores relevantes das agências`, afirma José Franco de Medeiros Morais, subsecretário de Dívida Pública do Tesouro. Ele diz que o instrumento é uma estratégia na política de administração da dívida pública do Tesouro, que tem como missão buscar condições favoráveisde financiamento. `Do ponto de vista da dívida, são empréstimos baratos`, afirma. A busca por esse tipo de financiamento só não é maior principalmente por causa da limitação das próprias agências, afirma Morais. De qualquer forma, as negociações são feitas enquanto os técnicos veem uma necessidade significativa de recursos para mitigar a crise no momento em que o Brasil já registra déficits anuais sucessivos. O pais tem necessidade de se endividar até mesmo para pagai- despesas correntes, como salários de servidores e aposentadorias.

A preocupação com a situação fiscal do pais, somada à aversão global de investidores ao risco durante a pandemia, criou no mercado brasileiro de títulos públicos um ambiente de perda de referência de preços e falta de liquidez nos últimosmeses. O mercado também reage às tensões políticas no país. O CDS (Credit Default Swap, indicador que mede o riscopaís) do Brasil apresentou alta de 109% em março, para 275 pontos, conforme os dados acompanhados pelo Tesouro. Em abril, houve alta de 35% (para 374 pontos).

Apesar de o Tesouro mencionar que as condições de outras economias também se deterioraram, o risco-país brasileiro é superior ao de pares i nterna cionai s como M éxi co (299 pontos registrados ao fim de abril), Colômbia (27a pontos), Peru (121 pontos) e Chilefi-iopontosJ.Esteúltimojá mostra melhora no CDS. O cenário fezo Tesouro observar um forte fluxo vendedorno Brasil. Os estrangeiros, por exemplo, registraram uma saída líquida de It$ 54 bilhões em março, e os fundos de in vestimento, de R$ 76 bilhões, Além disso, o Tesouro teve de cancelar leilões em ações coordenadas com o Banco Central pela falta de apetite no mercado.

Os técnicos lembram, por outro lado, que há flexibílídade nas emissões por haver seis meses de folga como chamado colchão de liquidez. isso significa que, em um caso extremo de a demanda por títulospublicos ir a zero, ainda haveria recursos suficientes para seis meses de vencimentos. Outros indicadores amenizam as preocupações do governo na administração da dívida, como os juros em patamares historicamente bai xose a baixa exposição cambial, correspondente a pouco mais de 5% do total da dívida pública. Os técnicos ainda dizem que indicadores mais recentes, em maio, sinalizam um retorno de liquidez. Os dados consolidados devem sair nos próximos dias. Apesar das preocupações, o Tesouro entende que o momento é de dificuldade em todo o mundo. `Não é algo específico do Brasil, a dívida de todos os países vai aumentar. Dada a magnitude da crise, é o governo que deve dar um passo à frente e fazer as transferências necessárias porque o setor privado não vai poder operar`, afirma Morais.

O secretário do Tesouro Nacional, Mansueto Almeida, reforçou nos últimos dias as dificuldades na administração da dívida. `Essas ultimas semanas foram mais turbulentas aqui, isso aumenta o risco-país.` Ele lembrouque a retração da ec onomia e a crise vão elevar o índice de endividamento brasileiro. Em sua visão, no entanto, a trajetóriada divida nospróximos anos é mais importante do que os números de 2020 0U2G2L Porisso, Mansueto defende o compromisso no pós-crise com a retomada da agenda de reformas estruturantes, com o ajuste fiscal e com a manutenção do teto de gastos

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