Países asiáticos protestam contra submarino nuclear da Austrália

Países asiáticos protestam contra submarino nuclear da Austrália

18:36 - Indonésia e Malásia temem que novo pacto de segurança possa provocar outras potências, como a China, a agirem de forma mais agressiva

A França não é o único país preocupado com o novo pacto de segurança entre os Estados Unidos, o Reino Unido e a Austrália: alguns países do Sudeste Asiático também temem que a parceria possa provocar a China e estimular uma corrida armamentista na região.

Anunciado na última quarta-feira, o pacto prevê o desenvolvimento de ao menos oito submarinos a propulsão nuclear para os australianos. A iniciativa, chamada de Aukus — uma junção das siglas em inglês dos três países — dá continuidade aos esforços de Washington para frear o avanço militar de Pequim na região do Pacífico.

Na semana passada, o anúncio da parceria levou a China a alertar sobre uma corrida armamentista em uma região dividida por disputas marítimas. Desde então, dois membros importantes da Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean) — Indonésia e Malásia — expressaram preocupações semelhantes.

A cautela na Asean é significativa, especialmente porque o presidente americano, Joe Biden, e o líder australiano, Scott Morrison, na semana passada elogiaram o acordo como necessário para a estabilidade na região Indo-Pacífica e mencionaram o desejo de trabalhar com o bloco de dez nações do Sudeste Asiático. A Indonésia e a Malásia já tiveram desentendimentos com navios chineses no Mar do Sul da China, uma área extensa onde Pequim fez grandes reivindicações de hidrocarbonetos e recursos pesqueiros.

A Asean tem procurado equilibrar os laços entre as maiores economias do mundo, contando com o poder de fogo dos EUA para impedir que Pequim estabeleça uma hegemonia regional, ao mesmo tempo que seus países se tornam mais dependentes da China na economia. A nova iniciativa corre o risco de alterar essa equação, aumentando as chances de um confronto entre EUA e China que poderia ter consequências econômicas e de segurança nacional.

— Para evitar o resultado da hegemonia regional chinesa, é necessário que os países tomem ações diplomáticas e militares, o que inevitavelmente levará a maiores tensões e confrontos militares — disse Bonnie Glaser, diretora do Programa para a Ásia do Fundo Marshall da Alemanha. — Os países do Sudeste Asiático podem ter que escolher: qual é a maior ameaça?

À medida que as relações entre EUA e China se desestruturaram nos últimos anos, as nações do Pacífico encontraram cada vez mais dificuldade para navegar entre as duas superpotências. O governo de Donald Trump procurou forçar os países a evitar o uso de equipamentos da Huawei em redes 5G, enquanto a China usou represálias comerciais — principalmente contra a Austrália — para alertar as nações contra quem desafiasse seus interesses.

Países como Cingapura, Indonésia, Vietnã e Filipinas, em particular, podem achar “menos sustentável” ter laços de segurança com os EUA e também administrar relações com Pequim, de acordo com Natasha Kassam, ex-diplomata australiana na China, que agora é diretora do programa de política externa e opinião pública do Lowy Institute.

— Há um significativo risco de que o anúncio da Aukus acrescente instabilidade à região — disse Kassam. — A Austrália aposta que o aumento da capacidade nuclear e da dissuasão garantirá uma ordem regional favorável aos seus interesses, mas não pode descartar a possibilidade de uma corrida armamentista ou de alienar parceiros na região.

“A Aukus nos permitirá compartilhar melhor tecnologia e capacidade”, disse o comunicado. “Não é uma aliança ou pacto de defesa.”

A Indonésia foi o primeiro país da região a criticar o acordo, dizendo que estava “profundamente preocupada com a contínua corrida armamentista e projeção de poder na região”. O primeiro-ministro da Malásia, Ismail Sabri Yaakob, afirmou, mais tarde, que temia que a Aukus pudesse provocar outras potências a agirem de forma mais agressiva, especialmente no Mar do Sul da China.

Cingapura apenas disse que esperava que o acordo “contribuísse de forma construtiva para a paz e estabilidade da região e complementasse a arquitetura regional”, enquanto o secretário de Defesa das Filipinas, Delfin Lorenzana, afirmou ao seu homólogo australiano em uma ligação que reconhece o direito de Camberra de adquirir os novos submarinos, mas enfatizou que Manila queria boas relações de defesa “com todos os países da região”.

A Coreia do Norte também se pronunciou alertando que a iniciativa desencadearia uma “corrida armamentista nuclear”, apesar de sua própria busca por armas atômicas, que há anos ameaça a estabilidade na região.

Rory Medcalf, ex-diplomata australiano que escreveu o livro “Império Indo-Pacífico”, disse acreditar que o acordo era “algo com que a Asean poderia conviver”.

— Acho que descobriremos que grandes países como Japão, Índia e Coreia do Sul são bem-vindos à Aukus — disse Medcalf, que é professor da Universidade Nacional da Austrália. — Críticas hipócritas da China e da Coreia do Norte, além de preocupações previsíveis sobre a estabilidade da Indonésia e da Malásia, não significam uma reação regional.

As declarações mais negativas dos países do Sudeste Asiático podem ser uma forma de “expressar preocupação sobre a Aukus” para enfatizar uma política externa independente, ao mesmo tempo em que buscam se beneficiar da cooperação de segurança com a Austrália e o Ocidente, disse Shahriman Lockman, analista sênior do Instituto de Estudos Estratégicos e Internacionais na Malásia. Ele disse que altos funcionários do país lhe disseram que uma Marinha australiana mais forte beneficiaria o país.

A reação da Indonésia representa preocupações mais amplas sobre as políticas das grandes potências que a deixaram se sentindo impotente, de acordo com Evan Laksmana, pesquisador sênior da Escola de Políticas Públicas Lee Kuan Yew.

— Quanto mais esses tipos de movimentos acontecem na região, que ficam à margem da Asean ou à margem da Indonésia, mais essa impressão de que a Indonésia é um espectador estratégico é reforçada — disse. — E essa não é uma sensação agradável de se ter, mas também sabemos que não podemos oferecer mais nada.”

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