O risco (real) de déficit na oferta de energia

O risco (real) de déficit na oferta de energia

Cenário dos reservatórios de hiderelétricas para 2022 é mais dramático que o deste ano, se não houver chuvas mais intensas que o normal

As simulações para a operação do sistema elétrico brasileiro são feitas com base em um modelo computacional - conhecido como Newave que contempla 2 mil diferentes cenários hidrológicos. Um risco de déficit igual ou inferior a 5%, no atendimento à demanda por energia, é considerado aceitável pelas autoridades. Zerá-lo seria tecnicamente possível, mas absolutamente antieconômico, porque faria os consumidores pagarem demais por um evento com baixa probabilidade de ocorrência. Seria como usar fios de ouro e não de cobre nas red de distribuição porque dá mais segurança às operações.

Ultrapassar o risco de déficit de até 5% não significa que o país necessariamente enfrentará blecautes ou racionamento, mas representa um flerte com o perigo. O governo, que criou uma câmara de crise contra apagões sem a palavra “crise” nem “apagão”, garante que não há chance de racionamento. O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) prevê o uso de todas as usinas térmicas disponíveis no parque gerador para evitar problemas neste ano. Então podemos ficar sossegados?

A travessia de 2021 leva a mais um ano cheio de incertezas

Basta mexer em algumas premissas para demonstrar como se está caminhando no fio da navalha com a queda dos reservatórios para níve historicamente baixos na região Sudeste/Centro-Oeste, que é um único subsistema para fins de operação. Quando se projeta crescimento 5,3% do PIB em 2021, além da geração de fontes renováveis (como eólica e solar) dentro do padrão, o risco de déficit no abastecimento sa normalmente aceitável, mas ainda não é muito alarmante.

A consultoria e plataforma de informações para o setor elétrico MegaWhat aponta que em novembro, mês de virada do período seco para o úmido e quando os reservatórios estão no pior momento do ano, 480 cenários dos 2 mil simulados no Newave (24% do total) resultam em algum déficit de potência para o atendimento da demanda.

Aí entra uma premissa crucial na análise e cuja simples mexida põe o tabuleiro de cabeça para baixo. O parque termelétrico soma 22,5 mil MW de potência instalada, considerando até as usinas mais caras a óleo diesel, apelidadas no mercado de “Chanel nº 5”, em referência ao perfume francês. No exercício acima, a MegaWhat estima uma indisponibilidade de 28% das térmicas para o restante deste ano. Foi a méd verificada entre janeiro e agosto. Usa-se, portanto, o mesmo dado para prever o quanto essas usinas - por algum problema como falta de combustível ou manutenção das turbinas - ficarão impedidas de atender às chamadas de acionamento do ONS. Na prática, o quanto serão acionadas e não vão ligar.

A presidente da consultoria, Ana Carla Petti, fez então um pequeno ajuste. Ela calculou uma indisponibilidade levemente maior, de 30% do tempo, algo “mais próximo” da realidade e “menos otimista” do que no primeiro exercício. É quando o calo aperta: o risco de déficit aparece 1.918 dos 2 mil cenários do Newave em novembro e 1.481 das 2 mil simulações para dezembro.

Há boas e más notícias nesse cálculo, em tese, mais aderente à realidade. Começando pelas boas: quando se fala em déficit, trata-se de qualquer coisa acima de 1 MW. Em outras palavras, há risco de faltar energia - mas não muita energia, e provavelmente apenas nos horário de ponta.

Algumas ações devem facilitar essa travessia. O pico do inverno na Argentina já ficou para trás e o Brasil voltou a importar do vizinho nos últimos dias. As autoridades do setor elétrico procuram geração adicional e temporária, a biomassa ou a diesel, para complementar a oferta Ministério de Minas e Energia está prestes a introduzir um programa de redução voluntária da demanda para grandes consumidores, que d passar por mudanças em relação à proposta lançada numa consulta pública, mas vai finalmente sair da gaveta.

“Essas medidas todas devem fazer a gente passar o ano de 2021 sem racionamento, mas vão ficar dúvidas para 2022”, resume Ana Carla

Sigamos agora para as más notícias.

Primeira: o peso para os consumidores. A Aneel já elevou em 52% - de R$ 6,24 para R$ 9,49 por cada 100 kWh de consumo - o valor da bandeira vermelha patamar 2 e abriu discussões para um novo aumento. Mesmo assim, haverá um buraco de pelo menos R$ 8 bilhões ent a arrecadação com bandeiras tarifárias e o custo de operação do sistema, segundo as projeções da MegaWhat.

É uma conta muito, muito salgada com encargos (por causa do acionamento das térmicas mais caras), com a importação de energia, com risco hidrológico. Boa parte do prejuízo das geradoras com usinas hidrelétricas produzindo menos que o contratualmente previsto vai parar tarifas residenciais. A própria Aneel falou, na segunda-feira, em reajuste médio de 16,7% para as distribuidoras em 2022. É mais de quatro vezes o IPCA previsto.

Segunda notícia ruim: desde o racionamento de 2001, é verdade, o Brasil diminuiu sensivelmente sua dependência de hidrelétricas. Elas er 83% da matriz e hoje são 65%. Mas, convenhamos, ainda têm um papel predominante. Com a seca persistente, os reservatórios do Sudeste/Centro-Oeste guardam um volume de água inferior ao volume armazenado duas décadas atrás. Devem terminar o período de estiagem em torno de 10%. Engana-se quem acha que o problema estaria bem encaminhado com a volta da temporada de chuvas no verã

A não ser que ocorra um fenômeno climático bem fora da curva nos próximos meses, Ana Carla estima que o nível dos reservatórios vai chegar a fevereiro de 2022 com 19% da capacidade máxima (cenário base) ou 15% (cenário mais pessimista). Em fevereiro de 2021, o volume estava em 23% do total. Ou seja, mais um ano de drama já foi contratado.

Ao governo cabe absoluta transparência na gestão da crise e comunicação em linguagem simples com a sociedade. Aos pequenos consumidores vale identificar onde há “excessos” - o aparelho de ar condicionado com força máxima e a 18ºC é, hoje em dia, o freezer de 2001.

Aos grandes consumidores industriais, o recado é dado por Stefano Angioletti, diretor da Grid Energia, consultoria sediada em Belo Horizon “As empresas precisarão de grande domínio dos seus processos de produtivos, com uma gestão mais refinada e forte planejamento operacional, com boas decisões sobre estocar produtos ou alternar turnos de trabalho. E contar com preços altos de energia em 2022”.

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