O PIB afunda, o agro avança

O PIB afunda, o agro avança

Desastres anunciados com antecedência não deixam de ser traumáticos apenas porque passaram a ser esperados. Assim é também com o desempenho do setor produtivo do Brasil.

O índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), criado em 2010 para funcionar como uma espécie de prévia do PIB pelo ângulo da oferta, apontou para um tombo inédito no mês terminado em abril: como mostra o gráfico, a queda foi de 9,7% em relação ao mês anterior. Para o ano inteiro, as projeções disponíveis, embora precárias, também indicam uma queda brutal da renda nacional.

O Banco Central aponta para um número irrealista: crescimento zero. Mas reconhece que os cálculos estão desatualizados. Os mais de cem analistas consultados pelo Boletim Focus, do Banco Central, vinham trabalhando com um recuo de 6,5%. Mas pode ser maior, a depender de muita coisa: do fim ou da flexibilização do isolamento causado pelo novo coronavírus, da velocidade da recuperação, da questão fiscal, da capacidade que tiver ogovernode operar uma agenda positiva, do nível de confiança, dojogo político - e por aí vai.

Quem tiver certeza sobre qualquer um desses itens está mal informado ou está sendo leviano em suas afirmações. Oúnico setor daeconomiaqueopera para cima, descolado dessa desolação, é o agro. Os últimos levantamentos da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) são de que, neste ano, a produção de grãos baterá novo recorde e chegará a 250 milhões de toneladas, 3,5% mais alta do que na safra anterior (veja o gráfico). Mas esse show se concentra na área dos grãos. Alguns subsetores do agronegócio também passam por séria crise, caso da cana-de-açúcar, das flores e plantas ornamentais e, em alguma proporção, da proteína animal. Este é o momento em que o agricultor começa a pensar na próxima temporada, cuja semeadura no Centro-Sul se inicia lá por setembro ou outubro, dependendo de como se comportar a estação chuvosa.

Apesar da crise e da alta dos insumos importados (como fertilizantes e defensivos), as perspectivas são promissoras. Carlos Cogo, consultor do setor, é curto e claro: `O agronegócio vai novamente levar o País nas costas`. Só não é tudo isso porque, em que pese a favor seus excelentes resultados, a agricultura ainda pesa pouco no PIB, apenas 5,2%. Cogo lembra que, em meio àcrise e à desaceleração da economia nos últimos anos, o agro manteve excelente desempenho e, em alguns dos seus subsetores, chegou a crescer, aumentar a produtividade e as exportações.

Em abril, o despacho de soja para outros países cresceu 73%, o maior volume da história do agro brasileiro. Cogo observa que a desvalorização do real e o novo patamar do câmbio compensaram a queda na demandaglobal pelas commodities, causada em parte pela pandemia de covid-19 e, também, pela disputa entre Arábia Saudita e Rússia no campo do petróleo, que derrubou os preços da cana-de-açúcar e do milho, as matérias-primas do etanol. Outro ponto a favor é o de que, a despeito da pandemia e das crises que vieram junto com ela, o Brasil não enfrentou problemas graves de escoamento das commodities em direção aos portos, ao contrário do que aconteceu em outros países exportadores.

Aquelas filas de quilômetros e quilômetros de caminhões carregados à espera de embarque ficaram para trás. Para Ana Luiza Lodi, consultora da INTL FCStone, o principal desafio agora é o comportamento do mercado interno. O consumo está sendo fortemente prejudicado pelo desemprego e pela quebra de renda do brasileiro. Por serem mais caras, as carnes são mais atingidas. Com o fechamento das escolas, caiu também a merenda escolar, de que a carne de frango tem grande participação. Mas, mesmo assim, o quadro geral do setor continua altamente encorajador

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