O ouro de Pequim

O ouro de Pequim

O mundo deve muito à China US$ 5 trilhões, ou 6% do PIB mundial, em créditos e títulos soberanos.

Somados todos os tipos de empréstimos, investimentos diretos, aplicações em ações e títulos soberanos ao redor do mundo, possuía algo como 8% de toda a riqueza planetária (dado de 2017).

O financiamento é uma arma importante da diplomacia chinesa e a metade dele voa abaixo dos rase dares dos bancos centrais e instituições multilaterais não passaram pelas estatísticas do Banco Mundial e do BIS , especialmente o destinado a clientes problemáticos ou encrenqueiros, como Venezuela e Irã. O dinheiro de Pequim não é barato, não tanto pelos vínfoi culos políticos que eventualmente implica, e mais pelas duras condiem ções de mercado que exige.

Esses dados foram coletados com paciência de Jó por três economistas experientes Sebastian Horn e Cristoph Trebech (Instituto Kiel) e Carmen M. Reinhart (Harvard) e formam o mais completo e rigoroso apanhado da movimentação financeira chinesa ao redor do mundo (`China´s overseas lending`). O estudo foi apresentado em seminário do FMI neste mês. `O aumento dramático dos empréstimos oficiais chineses é quase sem precedentes em tempos de paz e só é comparável ao da ascensão dos créditos fornecidos pelos EUA às vésperas da Primeira e Segunda Guerra Mundial`, dizem os autores.

Por sua potência financeira, a China poderia desempenhar um papel tào relevante quanto o FMI e o Banco Mundial ela tem mais recursos emprestados que os dois juntos, em mais de 100 países. Os números acompanham ogigantismo do país: um quarto dos empréstimos totais para os países emergentes são provenientes de Pequim. A relevância chinesa não se esgota nos empréstimos comerciais, a primeira fonte de recursos bancados pela China, nem pelos empréstimos diretos ou pelos investimentos externos.

O passivo mundial de US$ 5 trilhões com a China, ou 6% do PIB mundial, é dez vezes maior do que foi registrado em 2000. Nos países desenvolvidos, ao contrário dos em desenvolvimento, a estratégia chinesa é a aquisição de bônus soberanos pelo Banco Central. Já em 2011 o Estado chinês detinha USS 1,6 trilhão em títulos do Tesouro americano, ou 10% do PIB da maior economia do mundo. Como os burocratas também seguem a regra saudável da diversificação, colecionam hoje USS 3 trilhões em títulos dos mais seguros os bunds do governo alemão, os americanos, os gilts do Reino Unido e outros de países da zona do eu ro.

O total desses investimentos em `portfólio` em 2018 era quatro vezes superior aos dos empréstimos diretos do país, que não eram desprezíveis, algo como USS 710 bilhões. Em magnitude, Xi Jinping tem ã sua disposição em papéis 10% do PIB alemão (USS 370 bilhões), 7% do americano (USS 1,4 trilhão), 1% do Reino Unido (USS 190 bilhões) e idêntica fatia da zona do euro (USS 850 bilhões).

Há outros laços financeiros que podem se tornar, em momentos de crise, tábuas de salvação para credores. O Banco Popular da China tem acordos de oferta de swaps com 40 países, mais do que qualquer banco central do mundo, incluindo o Federal Reserve americano: USS 550 bilhões. O caso mais recente de extensão dessa proteção foi feito com a Argentina, cujo montante saltou de US$ 10 bilhões para USS 18,7 bilhões.

Os burocratas chineses são mais cautelosos (e avaros) que alguns governos ocidentais. Estes emprestaram recursos nos últimos anos para países em desenvolvimento a prazos longos e taxas de juros abaixo das de mercado. As características dos empréstimos chineses são afins às dos empréstimos comerciais. São em dólares, com fração ínfima cm yuans, com prêmio de risco, prazos menores e providencia! exigência de colaterais, para suprir as carências do paísem caso de problemas de caixa, o pagamento exigido é em commodities, em especial, petróleo. Para países de baixa renda, os juros são de 2% a 3%, ao contrário do juro zero e das doações de agências bilaterais ou multilaterais. Para emergentes, taxas de mercado. A China emprestou mais recursos que FMI e Banco Mundial juntos, e têm US$ 550 bi em swaps com 40 países

Ninguém gosta de defaults, muito menos os chineses. Uma das formas cie empréstimo, que por isso não aparecem nas estatísticas, é a de não transferir dinheiro para governos potencialmente arriscados. Ele é desembolsado diretamente para as empresas chinesas responsáveis pelos projetos externos nesses casos.

No entanto, pela magnitude da expansão financeira, Pequim passou a ter de lidar com as chateações comuns a banqueiros e FMI. Pelo estudo, desde 2000 os chineses estiveram engajados em 140 reestruturações de dívidas externas e `write offs` de seus empréstimos.

Mais de 24 países devem quantias superiores a 10% de seus PIBs ao governo chinês. Na média dos 50 maiores destinatários de empréstimos diretos, a dívida com a China cresceu a mais de 16% do PIB (2017). Como resultado, países emergentes e os que não chegaram nesse estágio estão hoje muito mais endividados com a China do que com todos os outros credores oficiais somados. Pelas estimativas do estudo, países em desenvolvimento e emergentes têm USS 380 bilhões de seus títulos em mãos chinesas, ante USS 246 bilhões dos 22 países do Clube de Paris.

A expansão chinesa na África foi longe, assim como o comprometimento dos governos da região, 0 Djibouti, por exemplo, deve 100% de seu PIB;Tonga, 50%; a República do Congo, 35%; Niger e Zâmbia, 30%. Na América Latina, Nicolás Maduro deve 20% do PIB venezuelano, só u m pouco menos do que o Equador tem de pagar aos bancos oficiais da China.

Diferentemente do `ouro de Moscou`, usado pelos conservadores como exemplo da ameaça soviética, o ouro de Pequim não busca comprar apoio ideológico, mas simplesmente comprar tudo o que a China precisa no presente e precisará no futuro. O apoio político não passa de um colateral pouco importante.

José Roberto Cani pos é editor executivo do Valor.

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