O duelo entre Macri e Cristina

O duelo entre Macri e Cristina

Corrida eleitoral polarizada numa Argentina mergulhada em crise econômica revela disputa pelo centro e a força do peronismo.

A seis meses do fim cie seu mandato, o presidente da Argentina, Maurício Macri, coleciona uma série de indicadores econômicos e sociais negativos. Mas, no governo, há otimismo: dizem não só que o pior já passou como Macri será reeleito. Afirmam que os argentinos acabarão elegendo a `transparência` e `o caminho para a prosperidade` em vez `do passado e da corrupção`, num claro recado ao kirchnerismo que governou o país entre 2003 e 2015, antes cie o presidente ir para a Casa Rosada.

Diante da realidade econômica, entretanto, a perspectiva governista não é tão clara. A candidatura cios peronistas Alberto Fernández (presidente) e Cristina Kirchner (vice) se mostra muito competitiva. O ex-chefe de gabinete presidencial e a ex-presiclente, que compõem a chapa Frente cie Toclos, lideram a pesquisa cie opinião cio instituto Isonomia divulgada nesta semana, com 45% das intenções cie voto no primeiro turno, em 27 cie outubro. Com 43%, o presidente está em empate técnico.

Liberal, Macri segue firme em campanha. Na semana passada enviou áudio a um grupo cie WhatsApp que reúne 256 empresários, dizendo que seu governo `empreendeu uma mudança profunda para que toclos os argentinos tenham oportunidades`. Nas ruas, no início do ano, ele ouviu outro parecer diretamente de um eleitor. Ao inaugurar uma obra, um dos operários clisse ao presidente: `Maurício, por favor, faça algo. Estamos pior do que antes`. O vícleo viralizou nas recles sociais.

Com cabelos muito mais grisalhos do que quando assumiu há quase quatro anos, Macri, de 60 anos, é o primeiro presidente não peronista a terminar seu mandato e governa sem maioria no Congresso Nacional. Mas suas promessas da campanha de 2015, como a pobreza zero, não saíram do papel.

A pobreza aumentou, o desemprego também e a inflação disparou a partir cia crise cambial cie abril do ano passado. Nesta semana, o dólar foi cotado a cerca de 43 pesos. A cotação cia moeda americana recuou em torno de 4% neste mês, clesde que Macri anunciou que o senador peronista Miguel Ángel Pichetto, de 68 anos, será seu vice na chapa à reeleição, pela coalizão Juntos pela Mudança. O mercado financeiro interpretou que, com Pichetto, se Macri for reeleito, terá apoio no Congresso para realizar reformas pendentes, como a tributária, e terá governabilidade.

Além de a cotação do dólar ter contido sua espiral de alta, a taxa de risco-país também caiu: passou de cerca de mil pontos básicos para em torno de 800 pontos. A moeda americana é importante na economia argentina, costuma ser o termômetro para os preços, já que, quando ela sobe, as remarcações são quase imediatas.

O país vive há mais de um ano, clescle a crise cambial, uma combinação severa entre inflação recorde (em 2018 foi a mais alta em 27 anos) e recessão (o PIB caiu 2,5% no ano passado e neste ano deve ter quecla cie 1,5%). Em 2018, a inflação chegou a 47,6%. Nos primeiros cinco meses de 2019, já acumula incremento cie 19,2%, segundo ciados do Instituto Nacional cie Estatísticas e Censos (Indec, equivalente ao IBGE). Apesar da desaceleração cio índice, que em maio registrou 3,1% e ficou abaixo cios meses imediatamente anteriores (4,7% em março e 3,4% em abril), consultorias econômicas concordam que a inflação de 2019 deverá ficar na casa dos 40%. A expectativa é de que o índice de junho fique em torno dos 2%, mas, aincla assim, a inflação registrou 57% em 12 meses, até maio. Na região, segundo organismos internacionais, a inflação argentina perde apenas para a Venezuela.

No governo e entre alguns empresários, no entanto, afirma-se que existe a esperança de que possa surgir um novo cenário econômico. Eduardo Costantini, empresário do setor imobiliário e da construção e criador do Museu cie Arte Latino-americano de Buenos Aires (Malba), diz que as bases da economia argentina estão mais sólidas e que o cenário parece melhor, mas faz uma ressalva: `É preciso ver quando a população perceberá esses efeitos`.

Para Dante Sica, ministro da Produção e do Trabalho, a eleição definirá o rumo do país. Considera que uma recondução de Macri implicaria a continuidade da abertura da economia e o respeito às regras institucionais e jurídicas. `A outra opção [Fernández-Cristina Kirchner] significa caminhar de novo para práticas pouco democráticas do passado`, afirma.

O ministro reconhece que a Argentina vive `uma recessão tão profunda como a de 2009, porém mais longa`. Na sua visão, o país `já está entrando em um ciclo de recuperação`. A melhoria é mais lenta porque é feita por meio de políticas fiscais e monetárias mais restritivas. `Significa uma recuperação mais firme e sustentável, de longo prazo`, cliz.

A Argentina é o terceiro parceiro comercial do Brasil. E o Brasil, por sua vez, é o primeiro sócio comercial cia Argentina. Para Sica, a recessão argentina e a falta de crescimento econômico brasileiro acabam influenciando as duas economias mutuamente, em maior ou menor medida, já que a relação comercial é baseada principalmente na demanda cerca cie 40% é ligada ao setor automotivo. `São economias que estão interligadas. Quando o Brasil cresce, a Argentina cresce porque suas exportações aumentam para o mercado brasileiro. E quando nossa economia não cresce, compramos menos do Brasil`, afirma.

Segundo Raul Ochoa, professor de economia da Universidade de Buenos Aires (UBA), o efeito cia recessão argentina no Brasil não tem mais o peso que poderia ter tido anos atrás. `A participação da economia argentina diminuiu, ao longo cios anos, e seu impacto na economia brasileira também`, afirma.

Para ele, na mão inversa, a Argentina acompanha o fato cie a economia brasileira não estar danclo sinais de crescimento nos primeiros meses cio governo de Jair Bolsonaro (PSL). `É claro que um país acaba influenciando o outro. O Brasil não tem, no entanto, os problemas que temos, inflação alta, uma economia que funciona em pesos e em dólares e um histórico cie mudanças nas regras do jogo, nas regras institucionais, o que gera desconfiança cios investidores`, cliz Ochoa.

Na Argentina, hábitos históricos, como a compra e venda cie imóveis em dólares, continuam em vigor. Basta olhar os preços cios imóveis dispostos nas vitrines das imobiliárias de Buenos Aires. Na visão de Ochoa, os males econômicos e seus efeitos nos indicadores sociais podem acabar beneficiando a chapa opositora Frente de Todos. Para analistas, será Cristina Kirchner, 66 anos, e não Fernández, 60 anos, quem mandará, caso cheguem à Casa Rosada.

`Alberto Fernández é visto como um político de diálogo, assim como Pichetto, e isso pode levá-los a atrair o apoio de peronistas e de outros setores insatisfeitos com o anclar da economia na era Macri`, afirma Ochoa.

A economista Marina dal Poggetto, cia consultoria EcoGo, cie Buenos Aires, entende que a Argentina enfrenta a pior crise descle a histórica hecatombe de 2001, quando o país viu a queda sucessiva cie presidentes e a revolta nas ruas, e, se alinha a Sica, ao clizer que há semelhanças com a de 2009. `Aquela crise começou em outubro de 2008, e em 2009 a economia já se recuperava. Agora já levamos mais de um ano de crise, desde a crise cambial de abril do ano passado. Estamos vivendo agora uma estabilidade do dólar, mas precisamos ver se é de longo prazo.`

A crise está nas ruas. Em um café na avenida Córdoba, próximo ao shopping Galerias Pacífico, ponto turístico da cidade, dois jovens de cerca de 20 e 25 anos intercompem a conversa de duas clientes para pedir `algo para comer`. `Vejo tanta pobreza que não sei por que não estamos vivendo aquela reação de 2001`, diz uma professora da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), quando os dois se afastam. Existem algumas diferenças, segundo economistas, entre os dois momentos: não há corrida bancária como a daquele ano e, além disso, o governo ampliou o alcance de beneficiados pelos planos sociais, como reconheceu a opositora Cristina Iürchner, e buscou compensar as perdas dos benefícios pela inflação.

Nos últimos tempos, apesar dos indicadores sociais negativos, a Argentina registrou apenas panelaços eventuais, protestos liderados pelos movimentos sociais que costumam ser parte da agenda de manifestações no país, e cinco greves convocadas pelas centrais sindicais contra o governo Macri. Além de uma noite de panelaços, em Buenos Aires, em maio, que surpreenderam por não terem sido contra os males da economia, mas contra uma iniciativa da Corte Suprema que poderia acabar adiando a presença de Cristina Kirchner no banco dos réus. A manifestação levou os magistrados a mudarem de idéia.

`Vocês agora batem panelas?`, disse um solitário eleitor para um grupo de não mais de 20 pessoas reunidas nas esquinas das avenidas Santa Fe e Scalabrini Ortiz, em março, quando o governo anunciou mais ajustes nas tarifas dos serviços públicos. Logo depois, diante da gravidade dos indicadores sociais, Macri congelou os aumentos previstos para as tarifas de serviços públicos e buscou estimular o consumo com a retomada e a ampliação de programas cia era kirchnerista, como o Ahora 12 (compras a prazos sem juros ou com juros baixos) e combinou com o Fundo Monetário Internacional (FMI) que poderia intervir no mercado, caso a moeda americana disparasse (em abril de 2018, ela valia cerca de 20 pesos e agora vale cerca de 43 pesos).

Para a economista Dal Poggetto, a ajuda recorde do FMI de US$ 57 bilhões, no ano passado, afastou o país `do precipício`, mas implicou um processo recessivo. `Além clisso, o Fundo projetava inflação de 20% para todo o ano e temos inflação de quase 20% nos primeiros cinco meses de 2019`, afirma.

Dal Poggetto e o economista Matías Rajnerman, da consultoria Ecolatina, também de Buenos Aires, observam que a Argentina deverá praticamente cumprir a meta de déficit primário zero combinada com o FMI para este ano.

Os dois economistas estimam que o déficit fiscal ficaria em torno cie 1% ou 1,5% do PIB neste ano. Para Rajnerman, neste mês o país passou a viver um `veranito eleitoral`, com a tendência de recuo da inflação e um freio na queda da perda salarial, que superou os 10%, durante todo o ano de 2018. A Ecolatina estima que depois de cair 2,5% em 2018, o recuo do PIB ficaria em 1,7% em 2019.

Mas por que a Argentina está nesta situação? `A herança era complicada, o governo a minimizou ou não a entendeu de cara e administrou os problemas de forma separada, não com um plano amplo e consistente. Macri não fez as reformas necessárias assim que assumiu e estabeleceu medidas difíceis de cumprir, como foi o caso das metas de inflação, que acabaram durando pouco tempo`, responde Dal Poggetto.

Quando assumiu, em dezembro de 2015, Macri prometeu pobreza zero e repetiu, até desistir, que a economia cresceria `no próximo semestre`. Como o semestre prometido não chegava, ele mesmo anunciou, no ano passado, que não faria mais previsões.

Em 2016, no primeiro ano de governo, as estatísticas oficiais voltaram a ter credibilidade e os controles cambiais, aplicados durante o kirchnerismo, foram eliminados. Macri também acabou com o congelamento das tarifas dos serviços públicos, que eram subsidiadas na gestão anterior. Hoje economistas clizem que o fim do controle de câmbio e do congelamento das tarifas eram medidas necessárias, mas que não foram bem planejadas e acabaram alimentando a inflação.

Já em 2017, quase todos os setores da economia mostravam expansão ou, pelo menos, recuperação. Mas a economia argentina não recebeu o esperado, como clizem aqui, `aluvión` cie investimentos e não decolou.

No ano passado, foram sentidos os efeitos da pior seca em 45 anos, o fim do sistema cie metas de inflação, que clurou poucos meses, e a crise cambial, que, além cie alimentar as remarcaçòes de preços, gerou clúviclas sobre a capacidade cie pagamento do país e levou o governo Macri a peclir socorro ao FMI para afastar a possibilidade de moratória. Na seqüência, o Banco Central aumentou a taxa básica cie juros, que chegou a 74%, em abril, e recuou para cerca cie 68% nos últimos clias. Uma forma de tentar conter a inflação e manter o interesse pelo peso e colocar um freio na compra cie dólares.

`Desde que os juros dispararam, o consumo caiu e tive que rever meus planos de negócios. É uma situação muito difícil. Não esperávamos esse quadro quando apoiamos e torcemos pela eleição de Macri. Estávamos cansados das interferências, até brutas, que incluíam telefonemas dos governos larchneristas [Néstor e Cristina], com ameaças se aumentássemos algum preço ou se importássemos o que eles não queriam. Agora, sinceramente, está complicado`, diz um dos principais empresários do varejo na Argentina, sob a condição do anonimato.

A Argentina está em recessão, com quatro trimestres seguidos de crescimento negativo, como informa a consultoria econômica ACM, de Buenos Aires. O PIB encolheu 5,8% no primeiro trimestre em comparação com o mesmo período de 2018, segundo ciados do Inclec. Além clisso, as importações de bens e cie serviços também registraram retração cie 24,6% no período analisado. O investimento privado caiu cerca de 24% e o consumo, 10,5%, ainda cie acordo com daclos oficiais.

Na radiografia realizada pelo Inclec e divulgada na semana passada, os setores de comércio, da indústria e da construção registraram quedas. A exceção ficou para o setor agrícola, com alta de 7,7%, e para a pesca, com 5,5%, em termos interanual.

O segmento de agronegócios tem gerado divisas bilionárias para o país, e é comum ouvir que, apesar da recessão, Macri teria o apoio de alguns dos setores porque viram suas exportações (carnes e grãos) crescerem. Outra área que o governo costuma apontar como positivo é o complexo energético de Vaca Muerta (gás de xisto, visto por analistas como o pré-salbrasileiro), que fica na província de Neuquén, na Patagônia.

Além disso, há fatos novos, como a retomada das exportações de gás ao Chile, que havia sido suspenso durante o kirchnerismo. Mas um apagão histórico, no dia 16, que deixou quase a Argentina inteira sem luz, afetando ainda o Chile, o Uruguai e o Sul do Brasil, gerou preocupação.

No mesmo clia que saiu o dado sobre a queda do PIB, o Indec informou que o desemprego chegou aos dois dígitos, pela primeira vez em 13 anos. Em 12 meses, o índice passou de 9,1% para 10,1%, com quase 2 milhões de pessoas desempregadas. Em março, o instituto informou que a pobreza atinge 32% da população (cerca de 14 milhões de argentinos). Em março de 2018, Macri anunciava que a pobreza estava caindo, e tinha chegado a 25,7% (cerca de 10 milhões de pessoas). Era uma boa notícia: em março de 2017 o indicador era cie aproximadamente 30%. O próximo dado oficial sobre a pobreza deverá ser divulgado em setembro, um mês antes do primeiro turno presidencial.

A palavra herança é uma das mais lembradas na campanha eleitoral. É citada por Macri e pelos seus principais opositores, Fernández e Cristina Kirchner, e pelo também candidato a presidente Roberto Lavagna, ministro da Economia entre 2002 e 2005, na primeira etapa do kirchnerismo, logo após a histórica crise de 2001 no país. Com a Argentina em recessão, o presidente continua apontando suas criticasagora talvez com mais ênfase para o legado deixado pela gestão anterior, o kirchnerismo. Sua antecessora na Casa Rosada, a senadora Cristina Kirchner, e Alberto Fernández responsabilizam o governo Macri pela queda na economia. Por sua vez, Lavagna ataca as heranças das duas gestões, a de Cristina (2007-2015) e a de Macri.

O ex-ministro propõe, por exemplo, que Macri renegocie com o FMI, ainda neste ano, os prazos para o pagamento cia dívida assinada em 2018 com o organismo internacional. `Já que Macri tem boa relação com o FMI, ele deveria fazer isso logo, antes de passar a faixa para o sucessor`, cliz Lavagna. Como lembrou a economista Dal Poggetto, a Argentina deverá começar a pagar a bolada do empréstimo no último trimestre cie 2021, em 2022 e em 2023. `Nenhum governo consegue pagar tanto dinheiro em tão pouco tempo`, cliz ela.

Lavagna, cie 77 anos, também costuma criticar, por exemplo, o que chama de falsificação nas estatísticas oficiais durante o kirchnerismo. O espólio é um tema recorrente nas campanhas eleitorais em qualquer país, mas na Argentina pode significar a justificativa para bruscas e contínuas reviravoltas econômicas.

`O erro do presidente foi não ter enfatizado, logo de cara, a grave situação que encontrou quando assumiu a Casa Rosada, depois do governo de Cristina. Mas aceitei ser seu vice porque a outra candidatura [cie Cristina] tem viés autoritário e controlou tuclo o que pôde, deixando a Argentina fora cias regras do capitalismo`, cliz o senador Pichetto.

Alberto Fernández, que também é peronista, afirmou que os argentinos `estão sofrendo` porque Macri `gerou pobreza e desemprego` no país e deixará `uma herança complicada`. Lavagna e seu vice, o governador da província cie Salta, Juan Manuel Urtubey, também são peronistas.

Pesquisas de opinião indicam altos índices cie indecisos (cerca de 40%) nas eleições e, ao mesmo tempo, de rejeição tanto a Macri quanto a Cristina o que a teria levado a optar por ser candidata a vice e ainda pouco conhecimento, principalmente entre os jovens, do nome cie Lavagna e de seu vice, que compõem a chapa Consenso Federal 2030.

Com esse cenário, a polarização poderia ser crescente, segundo analistas, entre as candidaturas de Macri e Pichetto versus de Fernández e Cristina. `O governo vai insistir tanto que representa a honestidade e o kirchnerismo, a corrupção, que o eleitor pode acabar optando pela continuidade do macrismo`, diz um empresário que confessa que ele mesmo ainda não sabe em quem votará.

A pouco mais de um mês das eleições Primárias Abertas, Simultâneas e Obrigatórias (Paso), que na prática acabam funcionando como uma espécie de teste para o primeiro turno, aliados da ex-presidente acham que a economia terá papel fundamental na hora do voto. O deputado federal e sociólogo Daniel Filmus, ministro da Educação no governo de Néstor Kirchner (2003-2007), acha que o kirchnerismo voltará à Casa Rosada. `Está claro que vamos ganhar. Os argentinos tiveram muitas perdas sociais com o macrismo. Quem vai querer continuar com pobreza e desemprego?`, diz Filmus.

Tanto a campanha de Macri como a de Cristina têm enfatizado como são lados radicalmente opostos. No seu governo, a ex-presidente colocou o foco no consumo interno, com estímulos às vendas a crédito, sem juros, nas lojas de eletrodomésticos, por exemplo, e com preços congelados, chamados de `precios cuidados`, nos supermercados.

Cristina também mirou o controle cambial era comum a polícia bater nas casas de câmbio, e era difícil para uma empresa enviar ou trazer divisas. Também houve controle às exportações. Empresários reclamavam das dificuldades para produzir (não tinham acesso a componentes importados) e para exportar. Era freqüente ouvir também do setor agropecuário que o governo dava `um tiro no pé` ao impor barreiras à exportação cie carne (`O Brasil, o Uruguai e o Paraguai não têm essas travas e vão ganhando terreno enquanto nós estamos encolhendo`) e de grãos, com as chamadas `retenciones` (taxas às exportações).

Macri, por sua vez, acabou com o controle de câmbio, deu ênfase ao setor de obra pública e amenizou as barreiras às exportações. Levou a Argentina a participar ativamente da política externa e contou com apoio explícito do presidente cios EUA, Donald Trump, para conseguir o empréstimo bilionário do FMI. Mesmo com a economia mergulhada na recessão, autoridades do governo Trump clizem publicamente que ela `vai muito bem`. Recentemente, Macri surpreendeu ao anunciar o congelamento cie preços de uma lista de cerca de 60 produtos, contrariando a expectativa em torno de sua abertura econômica.

O economista Marco Lavagna, filho de Roberto e um de seus principais assessores, cliz que, se eleito, o ex-ministro vai ciar prioridade ao consumo interno e ao fortalecimento cias pequenas e médias empresas, `principais motores cia economia argentina`, e `não em atrair o capital financeiro`, como, em sua visão, tenta fazer o macrismo com taxas cie juros altas que incluem as aplicações financeiras.

As diferenças de projetos de governo entre Macri, Cristina e Lavagna confirmam uma das características argentinas. Cacla presidente que chega parece ter uma receita própria. Num seminário recente realizado em Buenos Aires, o ex-presiclente do Chile Ricardo Lagos sugeriu, em plena campanha eleitoral, que a Argentina precisa resolver a idiossincrasia do zigue-zague. `Cada governo que chega pensa que é mais inteligente do que o anterior. A construção parte sobre o que deixou o antecessor. Aceitemos que o antecessor também teve icleias brilhantes. É assim que criamos instituições com resultados de longo prazo`, diz Lagos.

No Chile, a Concertación, aliança de centro-esquerda que surgiu com o fim da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990), durou 20 anos. No Brasil, o Plano Real completa 25 anos. Na Argentina, o movimento político peronismo tem mais de 70 anos e voltou a estar presente. A chapa Fernánclez-Cristina se define como peronista, Macri escolheu Pichetto para ser seu vice. E Lavagna e Urtubey são peronistas.

O peronismo é formado por diferentes linhas da esquerda à direita , e aqui costumam lembrar uma cias frases de seu fundador, o presidente Juan Domingo Perón (1895-1974): `Os peronistas são como gatos, quando pensam que eles estão brigando, eles estão se reproduzindo`.

Nos últimos 30 anos, o ex-presiclente peronista Carlos Menem (1989-1999) realizou privatizações. E os ex-presidentes peronistas Néstor Kirchner e Cristina Kirchner voltaram a estatizar empresas que haviam siclo privatizadas (Aerolíneas Argentinas e a petrolífera YPF, entre outras).

A cientista política Elsa Llenderrozas, diretora da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Buenos Aires (UBA), afirma que o peronismo tem a `capacidade de sobreviver porque se transforma permanentemente`. Ou seja, não existe um só peronismo, mas muitos. `O peronismo foi Menem, [Eduardo] Duhalde e os Kirchner. Não têm muitos pontos em comum, salvo o de ser um projeto de poder e de liderar`, diz.

Quando perguntada se a decisão cie Macri de chamar o senador peronista Pichetto para ser seu vice poderia ajudá-lo a ser reeleito, Elsa responde: `Vai depender da estabilidade cambial, que a inflação caia, que o consumo e a atividade econômica voltem a crescer. Em termos políticos, para vencer, Macri precisa que o peronismo se mantenha dividido. Ou seja, que não toclo o peronismo apoie a candidatura cie Alberto Femández e de Cristina Kirchner`.

País com cerca de 40 milhões de habitantes e com PIB cie aproximadamente US$ 637 bilhões, a Argentina tem uma das maiores rendas per capita da América Latina, segundo organismos internacionais. Mas principalmente a partir da grave crise cie 2001, o país, que já foi um cios mais ricos do mundo e que ainda hoje mantém a atitude cie classe méclia (mesmo quando a pessoa passa a ser mais pobre cliz que é de classe méclia), passou a conhecer a desigualdade social.

E as sucessivas mudanças nas suas regras e perfil econômico geraram desconfiança entre os investidores. O zigue-zague que gera insegurança jurídica, concordam analistas, e parece ser parte do DNA argentino, que inclui o histórico cie inflação. `Quando a gente fala sobre o Plano Real, mostrando que poderia ser um exemplo para eles, a resposta é sempre a mesma: ´Ah, a Argentina é diferente´. Mas não vejo essa diferença`, cliz um influente negociador brasileiro que há anos acompanha a economia cio país e fala sob a condição cio anonimato.

Para o economista Ochoa, professor da UBA, as mudanças de regra, como o calote da clívicla de 2001 e a reestatização da petrolífera YPF, por exemplo, geraram uma insegurança jurídica e uma desconfiança dos investidores no país. `Com essa inconstância nas regras, vira e mexe aparece um processo na Justiça internacional contra a Argentina. Isso não é nada bom`, cliz Ochoa.

O ministro das Relações Exteriores, Jorge Faurie, considera que a continuidade das regras atuais é a chave para o apoio internacional a Macri. Num discurso para seu eleitorado, a ex-presidente Cristina Kirchner disse que Macri `é o caos` e que é preciso dizer `chega`. O resultado dessa polarização ficará claro nas urnas.

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