O consenso possível

O consenso possível

A cúpula do G-20 mostrou que o multilateralismo é o melhor caminho,

Havia grande apreensão de que a cúpula do H G-20, reunião dos chefes de Estado e de governo das 20 maiores economias do mundo, realizada em Buenos Aires no fim de semana passado, fosse um fiasco. Não era um temor infundado, especialmente tendo-se em vista a recente escalada de hostilidades comerciais entre Estados Unidos e China. Mas não só por isso. A própria idéia de multilateralismo, segundo a qual problemas e oportunidades globais requerem ações igualmente globais, tem sido repelida por nações onde grassa uma onda nacionalista, incluindo a mais poderosa de todas.

No entanto, o comunicado final da cúpula reverteu as expectativas mais negativas. O que se pode extrair do documento é que a importância do sistema multilateral não deve ser menosprezada. Prova maior disso foi a defesa de um conjunto de reformas na Organização Mundial do Comércio (OMC). Não se busca empreender esforços para revitalizar algo que não tem mais importância.

`Nós assim apoiamos uma necessária reforma da OMC para melhorar seu funcionamento`, diz o comunicado. É verdade que o texto não deixa claro que reformas seriam estas, mas indiscutivelmente se trata de um bom sinal.

`Foi o consenso possível`, disse o ministro da Fazenda da Argentina, Nicolás Dujovne. Para o secretário de Relações Internacionais do Ministério da Fazenda do Brasil, Marcello Estevão, `o comunicado é uma vitória do multilateralismo`. `Se vai ser bom ou ruim para o Brasil, vai depender do que acontecer nessa revisão das regras da OMC`, disse.

Na seqüência da cúpula, os presidentes dos EUA, Donald Trump, e da China, Xi Jinping, anunciaram uma `trégua tarifária` de 90 dias, a valer a partir de i,° de janeiro de 2019. Foi o primeiro encontro entre os dois desde que a guerra comercial entre os dois países foi deflagrada, há cerca de três meses. Pelo acordo, nem os EUA nem a China imporão novas tarifas adicionais sobre os produtos dos dois países e vão continuar as rodadas de negociação a partir do ano que vem.

Trata-se de uma evidente distensão nas relações comerciais entre as duas mais fortes economias do mundo. Para o Brasil, no entanto, a trégua comercial entre americanos e chineses poderá implicar alguma perda nas exportações, sobretudo de soja, produto em que o Brasil concorre com os EUA. A questão deve ser vista com particular atenção pelo futuro governo brasileiro. A simples menção a um eventual alinhamento automático do Brasil com os interesses dos EUA já provocou uma reação enfática do governo chinês, alertando para possíveis retaliações.

Outro importante consenso obtido na cúpula do G-20 foi a defesa irrestrita do Acordo de Paris, que prevê uma série de ações para conter mudanças climáticas. O texto reafirma o compromisso dos países subscritores com a `implementação completa e irreversível` dos termos do acordo firmado em 2015 pelas 195 nações que compõem a ONU - o Brasil o assinou oficialmente no dia 22 de abril de 2016. `Vamos lidar com a mudança climática enquanto promovemos o desenvolvimento sustentável`, diz trecho do comunicado.

O presidente eleito Jair Bolsonaro já indicou que retiraria o Brasil do Acordo de Paris, tal como fez Donald Trump em junho de 2017, por não ver no acordo `condições justas`, e, em sua visão, uma vez implementado, custaria `milhares de empregos americanos`.

São duas importantíssimas questões que estarão sobre a mesa de Bolsonaro a partir do mês que vem, quando tomará posse. Tanto a questão comercial como o posicionamento em relação ao acordo do clima, à luz do que se viu na cúpula do G-20, vão exigir do presidente, no mínimo, uma abordagem mais cautelosa do que suas recentes declarações, e de colaboradores mais próximos, deram a entender. Disso dependerá o grau de relevância que o País terá na discussão dos grandes temas globais.

Ao final, a cúpula do G-20 mostrou que o multilateralismo é o caminho para o crescimento global e a estabilidade, ainda que demande revisões de suas organizações.

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