'O chanceler brasileiro não entendeu a questão', responde Zizek após Araújo falar em 'comunavírus'

'O chanceler brasileiro não entendeu a questão', responde Zizek após Araújo falar em 'comunavírus'

21:32 - Filósofo foi citado por ministro das Relações Exteriores, que disse que pandemia é 'o primeiro passo em direção ao comunismo' no mundo

O filósofo Slavoj Zizek afirmou que o chanceler Ernesto Araújo "não entendeu a questão", ao dizer que o pensador esloveno estaria tentando promover o comunismo às custas da pandemina do novo coronavírus no mundo. Zizek respondeu às críticas que recebeu do ministro das Relações Exteriores em postagem do brasileiro em seu blog pessoal, na madrugada desta quarta-feira.

"O cancheler brasileiro me acusou de usar a epidemia do coronavírus como uma desculpa para introduzir outro vírus, o 'comunavírus'. Infelizmente, ele não entendeu a questão", disse.

Zizek foi procurado pela reportagem de O GLOBO para se posicionar a respeito do texto de Ernesto Amorim. Nele, o ministro cita um livro recém-publicado pelo autor, um dos mais conhecidos neomarxistas da atualidade. No livro, que está sendo publicado no Brasil pela editora Boitempo com o título “Pandemia - Covid-19 e a reinvenção do comunismo”, o filósofo aponta que o coronavírus escancarou a insustentabilidade do atual modelo capitalista, exigindo um pensamento para além do mercado financeiro e do lucro.

O chanceler, por sua vez, afirma que Zizek deixa claro no livro que o "globalismo substitui o socialismo como estágio preparatório ao comunismo” e que há um “jogo comunista-globalista” para “subverter a democracia liberal e a economia de mercado, escravizar o ser humano e transformá-lo em um autômato desprovido de dimensão espiritual, facilmente controlável”.

Confira na íntegra a resposta de Zizek a Ernesto Araújo:

"O cancheler brasileiro me acusou de usar a epidemia do coronavírus como uma desculpa para introduzir outro vírus, o 'comunavírus'. Infelizmente, ele não entendeu a questão.

Não quero impor nada, apenas observo que até governos conservadores estão lidando com a crise sanitária e econômica provocada pela epidemia. Estão introduzindo medida que, seis meses atrás, seriam inimagináveis e vistas como um sonho comunista.

Esses governos estão violando as regras básicas do mercado, distribuindo gratuitamente bilhões para que os novos desempregados sobrevivam. Estão ordenando o que a indústria deve produzir (equipamentos de saúde) e admitindo que precisamos não apenas de um serviço universal de saúde como também de um serviço global de saúde. Estão pensando em como prever fome maciça como uma consequência da pandemia...

Em que outra época se viu conservadores se sentindo compelidos a agirem como comunistas, dando preferência ao bem comum em vez dos mecanismos do mercado?"

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