Novo ‘superciclo de commodities’ pode ajudar Brasil a sair da crise

Novo ‘superciclo de commodities’ pode ajudar Brasil a sair da crise

Recuperação de China e EUA no pós-pandemia promete acelerar apetite global por produtos primários nesta década e abrir janela de oportunidade para países produtores

Uma forte recuperação dos Estados Unidos e da China promete turbinar o apetite global por produtos primários nesta década. Isso deve beneficiar o Brasil no momento em que enfrenta o desafio de superar a tragédia humanitária da pandemia, que provocou forte impacto na economia.

Economistas já apontam um novo ‘superciclo de commodities’, uma janela de oportunidade que pode ajudar o país sair da crise.

As duas maiores economias do planeta devem crescer entre 6% e 7% neste ano, iniciando uma conjuntura pós-pandemia que pode perdurar por alguns anos. Essa expectativa impulsiona, segundo analistas, a valorização de produtos como minério de ferro, soja, açúcar, petróleo e outras commodities que têm forte peso na balança exportadora brasileira.

Ainda que a nova bonança seja mais modesta que a dos anos 2000, será uma ajuda na retomada pós-pandemia.

Nos últimos 12 meses, a alta dos preços do petróleo, do minério de ferro e da soja, por exemplo, superou 100%. Todo esse ganho deverá se refletir também no valor das ações das empresas exportadoras por aqui e atrair investimentos.

As commodities respondem por mais de 60% de tudo o que é vendido pelo país lá fora. Com a valorização do dólar frente ao real, a balança comercial tende a apresentar um saldo recorde, dizem especialistas.

— Temos tudo para ter um novo superciclo de commodities na próxima década, e o Brasil tem a chance de se beneficiar disso. Há liquidez mundial e disposição dos investidores em aplicar em empresas tradicionais, da economia real — diz Matheus Spiess, especialista em investimentos da Empiricus Research.

O economista observa que o pacote de US$ 3 trilhões de renovação da infraestrutura dos EUA, anunciado pelo presidente Joe Biden, é outro catalisador da procura por produtos como minério de ferro e aço.

Maior importadora de grãos no mundo, a China quer reduzir a dependência da soja brasileira e americana. Em seu plano quinquenal, anunciado em março, determinou que cada província terá que produzir anualmente ao menos 650 milhões de toneladas. Ainda assim, analistas acreditam que o gigante asiático continuará um importante importador.

Os preços das matérias-primas já começam a dar sinais do início desse ciclo positivo. A tonelada de ferro dobrou, o petróleo volta à casa de US$ 60 por barril, depois de ter sido negociado a preços baixos e até em campo negativo em 2020.

Esse movimento de alta já caracteriza a nova onda positiva para as matérias-primas, diz Claudio Frischtak, da consultoria Inter.B.

Reflexo na bolsa
Para ele, esse ciclo começou ainda em 2020 com a China terminando o ano da pandemia com crescimento. Frischtak acredita que, em 2022 e 2023, a expansão da economia americana deve continuar forte, com juros baixos mantidos pelo banco central americano e os recursos liberados pelo governo Biden no pacote de estímulos econômicos:

— A estimativa é de crescimento de 4% nos EUA em 2022 para uma economia que tem potencial de 2,5%. E em 2023 também haverá crescimento, o que deve sustentar o preço das commodities.

O economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale, observa que os preços das matérias-primas têm respondido positivamente à abundância de recursos no mundo, promovida pelos bancos centrais para estimular a retomada da atividade após o tombo provocado pela pandemia nos países.

Vale lembra que há algumas dificuldades de oferta em alguns países, como menor produção de soja nos EUA e na Argentina, além do recrudescimento da peste suína em algumas províncias da China. Nas commodities metálicas, o economista observa que já há alta na demanda no mundo.

— Essa combinação, de certa forma indireta, de alta do preço das commodities e o dólar pressionado no Brasil pela situação fiscal ruim tem o papel de elevar ainda mais a balança comercial este ano. Nossa estimativa, é que o saldo seja positivo acima de US$ 76 bilhões, um nível recorde — diz.

Pelas projeções da MB Associados haverá forte expansão tanto da agropecuária, a mais intensa desde a crise global de 2008, quanto da indústria extrativa, que deve ter o maior pico de exportações desde 2011. Já a exportação de manufaturados deve ficar estagnada em 2021 e crescer apenas 1%.

A expectativa da MB associados é de expansão de 59% na exportação agropecuária e de 34% na indústria extrativa este ano. O saldo das contas externas como um todo ficará positivo em US$ 12,4 bilhões, ou 0,9% do PIB, o que não era visto desde 2007.

Para Spiess, da Empiricus, num cenário em que o Brasil avance o processo de vacinação contra a Covid-19 nos próximos meses e implemente medidas fiscais mais efetivas, as empresas brasileiras vão se beneficiar da nova onda de valorização das commodities.

Ele avalia que o Ibovespa, principal índice da Bolsa, pode terminar o ano entre 140 mil e 150 mil pontos. Atualmente está na casa de 118 mil:

— Esse contexto tende a atrair investidores estrangeiros tradicionais para a Bolsa brasileira, em busca das principais blue chips (ações mais negociadas). Entre elas, a Vale, que está com papéis baratos em dólar e com preço descontado depois dos problemas em Brumadinho. Mas ações da (siderúrgica) Gerdau e da Petrobras também são vistas com bons olhos.

João Frota, economista da Senso Corretora, observa que, na Bolsa, além dos papéis das gigantes, ações de muitas empresas ligadas ao agronegócio e à logística vão refletir o bom momento das commodities agrícolas.

Frota destaca, por exemplo, a Kepler Weber, que atua na armazenagem de produtos agrícolas, e a SLC Agrícola, entre as maiores produtoras de algodão, milho e soja:

— A safra 2021/2022 de soja que será colhida no Brasil já está toda vendida para a China. O país vai continuar sendo um dos maiores importadores de alimentos do mundo por anos.

Riscos à frente
Claudio Frischtak, entretanto, vê riscos para o potencial do superciclo de commodities a partir de 2023. O especialista lembra que haverá aceleração da inflação, provocada pela própria alta do preço das matérias-primas, além de uma elevação de juros. Se isso de fato ocorrer, o potencial do superciclo pode ser abortado a partir de 2024.

— Será um “mini superciclo” por conta do aumento da inflação e dos juros nos próximos anos — diz Frischtak.

Quase uma década depois do último superciclo de commodities, que começou em meados dos anos 2000 e durou até 2008, ano da crise financeira mundial, Walter de Vitto, analista de commodities da consultoria Tendências, avalia que a nova onda não terá a mesma magnitude daquela que impulsionou os governos Lula, com crescimento médio anual de 4%.

Para ele, as condições são diferentes. Primeiro, os preços subiram depois de uma queda acentuada por causa da pandemia. E, para Vitto, não será possível sustentá-los de forma tão forte nos próximos anos.

— As incertezas da Covid-19 ainda devem impactar a demanda e trazer solavancos aos preços — diz. — O Brasil se beneficia dessa alta de preços, especialmente no setor agrícola, mas não será tanto como no último superciclo quando os preços eram muito favoráveis.

www.prensa.cancilleria.gob.ar es un sitio web oficial del Gobierno Argentino