Novo chanceler terá que mostrar que é diferente de Ernesto sobre meio ambiente e na resposta à pandemia

Novo chanceler terá que mostrar que é diferente de Ernesto sobre meio ambiente e na resposta à pandemia

21:50 - Apesar das demonstrações recentes de preocupação com o meio ambiente, ainda há desconfiança de parte da comunidade internacional em relação ao que pensa o Brasil

O substituto de Ernesto Araújo na chefia do Itamaraty,Carlos Alberto França, terá como principal desafio marcar alguma diferença entre ele e o antecessor, para convencer o Congresso e a comunidade internacional que a troca foi positiva. Os campos para isso já estão definidos pela urgência dos temas: internamente, a expectativa é por mudanças na atuação do Itamaraty no enfrentamento à pandemia de Covid-19; fora do país, lideranças estarão de olho na resposta do novo chanceler para problemas relacionados ao meio ambiente, com destaque para as mudanças climáticas.

Pessoas próximas ao novo ministro das Relações Exteriores, que desde outubro servia como assessor do presidente Jair Bolsonaro no Planalto, apontam essas como prioridades de curtíssimo prazo, mas também citam a importância da recomposição das relações políticas com a China, os Estados Unidos, a Europa e os vizinhos da América do Sul.

A pauta ambiental está movimentada neste ano. Estão previstas três grandes reuniões de chefes de Estado: uma, convocada pelo presidente dos EUA, Joe Biden, em abril; outra em maio, a 15ª Conferência das Partes (COP 15) da Convenção da Diversidade Biológica, na China; e em novembro, no Reino Unido, a 26ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP-26).

O presidente americano Joe Biden, em carta ao presidente Jair Bolsonaro, em 26 de fevereiro, cobrou um compromisso maior do governo brasileiro com a proteção do meio ambiente. As mudanças climáticas também foram discutidas, há algumas semanas, em reunião entre Ernesto Araújo e o enviado especial para o clima dos EUA, John Kerry.

Apesar das demonstrações recentes de preocupação com o meio ambiente, ainda há desconfiança de parte da comunidade internacional em relação ao que pensa o Brasil. Em 2019, em meio à crise causada pelo desmatamento e as queimadas na Amazônia, Ernesto Araújo questionou a noção de aquecimento global e afirmou que foi criada uma "ditadura climática" no mundo.

Por sua vez, as dificuldades na obtenção de vacinas e insumos para a fabricação dos imunizantes ajudaram a derrubar Ernesto Araújo. Sua cabeça foi pedida pela maioria dos senadores que assistiam a uma exposição do chanceler sobre a pandemia, na semana passada. Descontentes, os parlamentares se mostraram dispostos a travar pautas encaminhadas à Casa pelo Itamaraty, como a indicação de embaixadores e acordos internacionais, se Araújo não fosse substituído.

França terá de dar respostas ao público interno, como quando o Brasil poderá receber parte das vacinas solicitadas ao governo dos EUA. Apesar dos apelos do governo brasileiro e do próprio Congresso, não há respostas definitivas. O novo chanceler também terá de trabalhar para evitar novos atrasos no envio de doses fabricadas na Índia e conseguir flexibilizar o burocrático sistema chinês para a liberação de insumos utilizados na fabricação dos imunizantes.

Ainda sobre a pandemia, França decidirá se o Brasil manterá ou não posição contrária à proposta da Índia e da África do Sul, em discussão na Organização Mundial do Comércio (OMC), para a quebra temporária de patentes de produtos usados no combate à Covid-19. O governo brasileiro defende uma terceira via, por considerar que as normas em vigor já permitem que a quebra seja possível.

Quem conhece bem o novo chanceler afirma que a política externa brasileira não vai mudar com a troca de ministro, mas o estilo será diferente. Segundo um experiente embaixador, França é homem do governo Bolsonaro e, portanto, é preciso ver se ele vai superar os erros de seu antecessor e no que pode avançar.

França não tem perfil ideológico nem é olavista – definição para quem é adepto do escritor Olavo de Carvalho, guru do bolsonarismo. Amigos e colegas ouvidos pelo GLOBO o consideram muito habilidoso e isso contará a seu favor nas relações com o Congresso e parceiros internacionais, como a China – cujo embaixador, Yang Wanming, desentendeu-se publicamente com Ernesto por causa de declarações do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente da República.

A expectativa é que França faça poucas mudanças na equipe. Deve manter boa parte dos secretários, como Pedro Miguel da Costa e Silva (Negociações Bilaterais e Regionais nas Américas), Kenneth da Nóbrega (Negociações Bilaterais no Oriente Médio, Europa e África) e Sarquis Buainain Sarquis (Comércio Exterior e Assuntos Econômicos). Há quem aposte que o novo chanceler continue com o secretário-geral, Otávio Brandelli.

Para a grande maioria dos congressistas, França é um desconhecido. Mas não enfrenta resistência.

—Tenho uma ótima impressão do embaixador. Muito educado, atencioso e muito organizado! Deverá surpreender positivamente— disse o líder do governo na Casa, Fernando Bezerra (MDB-PE).

Na Câmara, a Comissão de Relações Exteriores votará nesta quinta-feira um requerimento para que França explique o que pretende fazer no Itamaraty.

— Depois de um período de grandes turbulências em nossa política externa, espero que possamos restabelecer os preceitos que marcaram por décadas a nossa política externa: respeito, tolerância e equilíbrio, sem qualquer alinhamento automático ou preconceitos de ordem ideológica — disse o presidente da comissão, deputado Aécio Neves (PSDB-MG).

Indagada sobre a escolha do novo ministro, a presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, Katia Abreu (Progressistas-TO) – com quem Ernesto trocou farpas na véspera de sua demissão– afirmou que não conhece. O senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), por sua vez, disse que quer resultados.

— Espero que ele mude o rumo da política externa. De nada adianta a mudança de um Ernesto por outro.

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