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A nova direita vai mudar o jogo político ou fará mais do mesmo?

A nova direita vai mudar o jogo político ou fará mais do mesmo?

A onda conservadora deu uma votação expressiva a Jair Bolsonaro e ampliou a força no Congresso. Resta saber que rumo ela tomará depois da eleição O resultado do primeiro turno em Santa Catarina é um claro exemplo da guinada radical à direita que a política brasileira está dando nesta eleição.

A onda conservadora deu uma votação expressiva a Jair Bolsonaro e ampliou a força no Congresso. Resta saber que rumo ela tomará depois da eleição O resultado do primeiro turno em Santa Catarina é um claro exemplo da guinada radical à direita que a política brasileira está dando nesta eleição. Os 5 milhões de eleitores catarinenses deram a Jair Bolsonaro a maior votação proporcional do Brasil: 66% do total. Das dez maiores cidades catarinenses, que concentram a riqueza e a população mais escolarizada do estado, em apenas quatro o militar reformado teve menos de 70% dos votos.

A onda conservadora aglutinada na campanha de Bolsonaro quebrou todos os padrões eleitorais locais, até então dominado por dois grandes grupos que remontam à divisão política do regime militar num lado, o Movimento Democrático Brasileiro (MDB); no outro, partidos derivados da antiga Arena, como Partido Social Democrata (PSD) e Partido Progressista (PP). O Partido Social Liberal (PSL), de Bolsonaro, até 7 de outubro era um nanico. Agora, fez 20% dos 16 deputados federais pelo estado e virou a segunda maior força no legislativo catarinense, com seis eleitos. O candidato a governador pelo PSL, o coronel reformado do Corpo de Bombeiros Carlos Moisés da Silva, o Comandante Moisés, que até pouco tempo era um mero espectador da política, amealhou 1 milhão de votos e agora disputa o segundo turno contra o deputado estadual Gelson Merísio, do PSD, um veterano da política local.

Na esfera nacional, o PSL saiu de apenas um deputado federal eleito em 2014 para 52 agora, formando a segunda maior bancada, após a do PT, com 56 cadeiras. É provável ainda que o PSL atraia parlamentares que, oportunisticamente, venham a trocar de legenda. Se somada à expansão de siglas identificadas com o jargão liberal na economia e conservador nos costumes, tão ouvido por apoiadores de Bolsonaro nesta campanha, como Novo, Partido Social Cristão (PSC), Partido Republicano Brasileiro (PRB), Democratas e Patriota, serão 130 deputados nessa nova onda conservadora o dobro do que essas legendas receberam em 2014.

O que explica a onda conservadora? Em boa medida a resposta está em valores culturais do brasileiro comum e exacerbados entre os catarinenses. Eles foram explorados com maestria pelas novas caras da direita nas eleições de 2018, numa tentativa de contrapor o discurso petista de intervencionismo na economia e de mão forte do Estado no campo social.

Um deles é o apoio ao mérito da iniciativa individual sobre as conquistas coletivas. Não à toa, Santa Catarina é talvez o estado mais empreendedor do país: estão ali dez das 100 melhores cidades para manter um negócio, mesmo índice de São Paulo, segundo ranking da consultoria Urban Systems publicado em EXAME. O estado é ainda o que menos depende de Bolsa Família. Junto da cultura empreendedora, é forte por ali a religiosidade: só três em 100 catarinenses se declaram ateus, a menor taxa do país.

Em tempos em que o antipetismo ganha força na esteira dos escândalos de corrupção revelados pela Lava-Jato e da frustração com a recessão legada pela ex-presidente Dilma Rousseff, criou-se espaço para o conservadorismo ser o vencedor destas eleições. Chegamos a um duplo movimento: um voto conservador nos costumes e antissistema na política. A esquerda perde mais, nesse processo, simplesmente porque comandou o jogo nos últimos 20 anos, diz o cientista político Fernando Schüler, pesquisador da escola de negócios Insper.

Ao longo das eleições até agora, boa parte da opinião pública estampada na imprensa e em redes sociais refletiu o temor de a nova direita ameaçar a democracia brasileira. Em meio à polarização típica da disputa eleitoral, faltou espaço para entender, de fato, quem são e de onde vieram essas novas caras da direita que agora ocupam parte expressiva da política brasileira. Não se trata de um bloco monolítico. Há uma boa parcela que trocou trajetórias bem-sucedidas na iniciativa privada pela missão pública.

É o caso da maioria dos oito deputados eleitos pelo Novo: no grupo, há de microempreendedores, como a paulistana Adriana Ventura, dona de um estúdio de dança, a executivos como Paulo Ganime, com passagens por grandes companhias, entre elas a anglo-holandesa Shell e a francesa Michelin. Nos estados, o partido estreante em eleições conseguiu o feito notável de colocar no segundo turno da disputa ao governo de Minas Gerais o empresário Romeu Zema, presidente do conselho do Grupo Zema, com negócios em setores como lojas de móveis, de eletrodomésticos, concessionárias e postos de gasolina, com receita anual de 4,5 bilhões de reais. Desde o início, a gente propôs um jeito diferente de fazer política sem políticos tradicionais e sem usar dinheiro público na campanha e a população brasileira respondeu a isso, em favor da renovação, afirma Moisés Jardim, presidente nacional do Novo. Não estamos em torno de um único nome. Para nós, o importante são as ideias e os valores, o que garantirá a perenidade do partido.

 Há uma importante parcela da nova direita que, como Bolsonaro, é proveniente da caserna: 72 militares ou policiais foram eleitos deputados federais, estaduais e senadores, quatro vezes o número da eleição passada, com a bandeira de um combate mais duro à criminalidade. Ao grupo da ordem unida se soma uma fatia de ex-juízes que usam o discurso da moralidade na política como alavanca. Wilson Witzel, do PSC, agora líder nas pesquisas ao governo do Rio de Janeiro, é o caso mais emblemático dessa corrente. Por fim, há celebridades que ganharam notoriedade no impeachment de Dilma Rousseff, como o ator Alexandre Frota e o ativista Kim Kataguiri, fundador do Movimento Brasil Livre, eleitos para a Câmara, e a jurista Janaína Paschoal, que recebeu mais de 2 milhões de votos para uma vaga na Assembleia Legislativa de São Paulo.

Leo Branco y Renata Vieira

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