‘Nosso sucesso começa nos primeiros meses da pandemia no Chile’

‘Nosso sucesso começa nos primeiros meses da pandemia no Chile’

Sucesso do país com as vacinas começou nos primeiros meses da pandemia, segundo Izkia Siches, diretora de estratégia do país. Entrevista com Izkia Siches, Líder do programa de vacinação do Chile

Na corrida para a imunização contra a covid-19, o Chile vem se destacando não apenas como líder regional, mas também como líder global, vacinando 1 milhão de pessoas por semana desde 3 de fevereiro. No dia 19 de fevereiro, o Chile havia vacinado 15,03 de cada 100 pessoas, mostram os dados compilados pelo projeto ‘Our World in Data’ da Universidade de Oxford. Em comparação às grandes economias da região e mesmo no exterior, esta é uma taxa invejável.

O sucesso do Chile tem suas origens nas medidas adotadas no ano passado, quando o país participou de vários testes clínicos e começou a compilar uma ambiciosa carteira diversificada, negociando contratos com a AstraZenaca, Johnson & Johnson, Pfizer e Sinovac, e há outra parcerias possíveis no horizonte.

No dia 15 de fevereiro, o Chile havia encomendado cerca de 88,4 milhões de doses – o suficiente para vacinar totalmente a sua população duas vezes, pressuponho que todas as encomendas venham a ser atendidas. As autoridades também estão trabalhando com a Organização Mundial da Saúde (OMS) por meio de sua iniciativa Covid-19 Vaccines Global Access (Covax), que visa conseguir vacinas para países necessitados.

As autoridades estabeleceram como meta vacinar 80% do país no primeiro semestre do ano. Em uma entrevista no dia 19 de fevereiro, Izkia Siches Pastén, presidente nacional do Colégio Médico do Chile, uma importante associação médica, disse confiar que a infraestrutura de vacinação do país se mantenha a esse ritmo impressionante.

A American Quarterly traçou o perfil de Siches, de 34 anos, em abril passado, como o rosto de uma “nova geração de líderes emergentes durante a pandemia do coronavírus.

Como membro da Mesa Redonda Social Covid-19 do Chile, ela contribuiu para montar a resposta do seu país à pandemia. Em fevereiro, a revista Time incluiu Siches à sua próxima lista dos 100 líderes globais emergentes, e as pesquisas a classificaram como uma das líderes mais populares do Chile. Também foi considerada como possível candidata à presidência.

O Chile estabeleceu uma meta de vacinação de 5 milhões de pessoas até o fim de março. O país atingirá essa meta?
Nós temos dois milhões e meio de pessoas que já receberam a primeira dose. Do ponto de vista da logística, temos condições de atingir a meta. Estamos vacinando um milhão de pessoas por semana. A grande questão é se teremos remessas suficientes. Mas hoje (19 de fevereiro) o presidente anunciou que 4 milhões de doses chegarão na próxima semana. Isto coloca o Chile perto de cerca de 8 milhões de doses, o suficiente para garantir que uma porcentagem importante da população receba duas doses da vacina. Se continuarmos recebendo os lotes acho que poderemos chegar a 5 milhões de pessoas vacinadas em março.

Há um fator principal que explica por que o Chile conseguiu vacinar tantas pessoas em um período tão breve?
Um fator tem a ver com o sistema básico de saúde do Chile e a história do programa de vacinação do Chile. As vacinas no Chile são universais para beneficiários do setor público e privado e são facilitadas por um registro de imunização nacional. Independentemente de onde somos vacinados no Chile, continuamos na mesma plataforma. Isso permite que tenhamos uma contagem em tempo real, e ajuda a garantir que a primeira e a segunda doses sejam espaçadas.

O Chile participou de vários testes de vacinas no ano passado. Foi uma decisão estratégica, e acha que ajudou o Chile a obter posteriormente o acesso às vacinas?
Sim, foi uma decisão estratégica tomada pelos membros da comunidade científica do Chile que colaborou em estudos liderados pela Moderna, AstraZeneca, CanSino, Pfizer e Sinovac., e estes mesmos grupos científicos garantiram acordos com os laboratórios. O Chile, na realidade, está atualmente avaliando acordos para a vacina Sputnik V, da Rússia e do Instituto Gamaleya.

Com base na sua experiência, que medidas poderão tomar os líderes de outros países da América Latina para conseguir o que vocês conseguiram?
Nós já tínhamos algumas plataformas, que nos beneficiaram, e que outros países da América Latina talvez não tenham, como um registro eletrônico nacional de imunização. Acho que a principal limitação dos países latino-americanos é o seu acesso limitado à vacina. A comunidade médica e a comunidade política global deveriam se preocupar em saber se haverá uma distribuição mais equitativa.

Os primeiros chilenos a serem vacinados receberam em geral a CoronaVac da Sinovac da China. Você percebeu ceticismo em relação à vacina e às vacinas em geral?
A opinião pública tem sido mais favorável às vacinas da União Europeia e dos Estados Unidos – duas referências para as quais o Chile olha há muito tempo – como da Pfizer, AstraZeneca e Moderna, No entanto, considerando o problema global de oferta, o Chile decidiu buscar contratos com várias companhias, e laboratórios. O Chile fez também acordos de colaboração com outros países, como pela Covax. Para nós a questão da compra da China não foi tão complicada, considerando a natureza destas vacinas – elas utilizam um vírus não ativado – e pelo fato de que o Chile em geral compra vacinas da China.

O Chile compra a sua vacina sazonal contra a influenza da Sinovac, por isso acho que isto já tranquilizou, assim como a publicação dos testes das fases 1 e 2. Entretanto, havia ainda alguma dúvida, principalmente revistos porque não tivemos muitos testes da fase 3 em grande escala revistos em publicações internacionais. Mas o instituto de saúde pública do Chile certificou a vacina para uso, e as comunidades médica e científica apoiam a decisão do governo.

Há algum elemento na vacina da Sinovac que tenha contribuído para o sucesso do Chile na vacinação de tantas pessoas?
Um é indubitavelmente o método de armazenamento. A Pfizer exige um armazenamento em unidades a uma temperatura super baixa de -70 graus, que no Chile nós não temos. O território do Chile também tem limitações – é um país muito comprido. A vacina da Sinovac exige mecanismos de armazenamento de 2 a 8 graus Celsius, o que permite que seja despachada para todo o país sem nenhum problema, de Arica a Magallanes à Terra do Fogo. Todos os centros de saúde têm um refrigerador para vacinas por causa do nosso programa nacional de imunização.

Você acha que a questão da desigualdade, que tem sido um tema tão importante na sociedade chilena nos últimos anos, influiu no processo de vacinação?
Ela exigiu muito mais cuidado das autoridades chilenas. Acho que depois do levante social o nosso presidente compreendeu que ele, por exemplo, não poderia ser vacinado antes de outros chilenos. Na realidade, um dos seus gestos, que acho que o redimiu, foi o presidente não ter recebido uma vacina simbólica. Ao contrário, ele teve de esperar na fila como todos os outros e foi vacinado quando as pessoas do seu grupo etário começaram a ser vacinadas, e não antes.

De que maneira os setores público e privado colaboraram no processo de vacinação?
Foi tudo muito organizado. Quando os trabalhadores da saúde começaram a ser vacinados, não houve distinção entre os da saúde pública e os da privada, ao contrário do que está acontecendo no México, por exemplo. Houve alguma pressão de diferentes setores da economia para um maior envolvimento no processo de vacinação, mas por enquanto, o grande ônus da vacinação vem sendo arcado pelo setor público do Chile.

Quais são algumas das dificuldades do Chile que o processo de vacinação enfrentará nas próximas semanas e meses?
A primeira tem a ver com garantir que as remessas cheguem ao mesmo ritmo em que vacinamos as pessoas, a mais de um milhão por semana. O que exige um fluxo contínuo de novos lotes de vacinas. E a segunda tem a ver com esclarecer quais são os grupos prioritários. Para tanto, a nossa perspectiva na associação dos médicos é garantir em primeiro lugar as pessoas acima dos 60 anos e as que têm doenças crônicas.

Depois disso, a questão de que a prioridade da população em geral acaba se tornando mais política. Quem vacinar em primeiro lugar – os trabalhadores nos transportes, professores, trabalhadores nas docas, pessoal de negócios, trabalhadores essenciais? Esta definição deve ser muito transparente, para que não haja nenhuma percepção de pessoas que furam a fila, e cujo privilégio lhes permita ter acesso à vacina. Acho que o fenômeno peruano chamou a atenção dos líderes mundiais. A percepção de que há injustiça no acesso dos cidadãos ao sistema de saúde pública é absolutamente vital. Se começarmos a furar a fila, será muito difícil manter a política de vacinação pública.

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