No que dará a nova investida dos EUA contra a Huawei no Brasil?

No que dará a nova investida dos EUA contra a Huawei no Brasil?

12:35 - A política externa americana tem sido dominada pela competição global com a China.

Se a disputa foi colocada às claras por Donald Trump em seu estilo bombástico, seu sucessor, Joe Biden, a transformou em doutrina. Sendo assim, é natural supor que a China foi a maior preocupação na recente missão ao Brasil liderada pelo conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos, Jake Sullivan. Mais especificamente, a influência da China na América do Sul no campo principal da competição sino-americana: a tecnologia.

A preservação da Amazônia e da democracia brasileira foram temas abordados com o presidente Jair Bolsonaro, mas tudo indica que o incômodo com a participação da chinesa Huawei nas redes de telecomunicação 5G do Brasil é o que motivou a reaproximação de Washington com Brasília, após o resfriamento ocorrido com chegada de Biden à Casa Branca. A segurança cibernética também foi tema de outras conversas de Sullivan, incluindo com os ministros da Defesa, Walter Braga Neto, e das Comunicações, Fábio Faria.

Segundo nota divulgada na sexta-feira à noite pela Embaixada dos EUA, os americanos acenaram com um apoio da Casa Branca à adesão do Brasil como “parceiro global” da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Há relatos, porém, de que isso dependeria de um veto às empresas chinesas no 5G brasileiro. Na nota, o encarregado de negócios da embaixada americana, Tobias Bradford, ressaltou que os EUA “continuam a ter fortes preocupações sobre o papel potencial da Huawei na infraestrutura de telecomunicações do Brasil” e de outros países.

A embaixada chinesa no Brasil não deixou barato, afirmando que a pressão dos EUA busca defender “os interesses egoístas da supremacia americana” e seu “monopólio na ciência e tecnologia”. Ainda chamou os EUA de “império dos hackers”, num tom de confronto que já se tornou habitual para rebater os ataques americanos.

Para a Huawei, porém, o ideal seria se afastar da disputa geopolítica e manter o foco em sua competitividade técnica, dizem fontes próximas à empresa chinesa. Sua aposta é que o binômio preço-eficiência torne o lobby das operadoras de telefonia brasileiras o contraponto definitivo à pressão política dentro e fora do governo de Jair Bolsonaro.

Em mensagem enviada à coluna, a Huawei afirma nunca ter havido um incidente sério de violação de segurança nos países onde atua, e que em seus 23 anos de operação no Brasil a empresa “contribuiu para a transformação digital do país, trabalhando com os setores público e privado de maneira ética e transparente”. Acrescenta que só em 2020 investiu US$ 1 bilhão em segurança cibernética, “uma questão essencial para a empresa”.

A ausência de veto à Huawei nas regras do edital do leilão do 5G divulgadas no fim do ano passado parecia ter sacramentado a vitória do pragmatismo sobre a ideologia no governo brasileiro. Tudo indicava que era fato consumado. Operadoras brasileiras já fazem testes de 5G com equipamentos da Huawei. Uma nova linha de crédito do governo à empresa foi concedida no início do mês. A nova investida americana tenta virar o jogo e colocar de volta em campo a ala ideológica do governo, com a oferta de parceria na Otan.

Felipe Loureiro, professor de relações internacionais e coordenador do Observatório da Democracia no Mundo da USP, diz não ter dúvidas de que o motivo principal dos enviados de Biden na visita ao Brasil foi o papel da Huawei no leilão de 5G, ainda que a questão climática também seja muito importante para o governo americano. Para ele, tirar a Huawei do leilão não será tarefa simples a esta altura, quando o processo já está quase finalizado, uma vez que o lobby chinês tem muita “capilaridade” no setor empresarial brasileiro, principalmente no agronegócio, que quer evitar dificuldades na relação bilateral.

Ainda assim, diz ele, ao sinalizar que o veto à empresa chinesa é condição para uma aliança militar estratégica do Brasil com os EUA, a Casa Branca apela a um setor influente do governo Bolsonaro, principalmente a ala militar vinculada ao ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, Augusto Heleno, que vê a aliança com a Otan como uma oportunidade valiosa para os interesses nacionais.

— Há uma possibilidade de a Huawei sofrer uma limitação importante no leilão. Ela é pequena, mas acho que não dá para descartar. As tentativas do governo Biden demonstram que eles visualizam essa possibilidade.

Entre perdas e ganhos, o melhor seria não ter que escolher entre os EUA e a China, neste caso e em geral. No plano imediato, o lado chinês parece levar vantagem. Uma discriminação contra a Huawei criaria uma crise na relação bilateral, com possíveis retaliações econômicas de Pequim. Além disso, poderia interromper o envio de vacinas chinesas para o Brasil. A garantia de que empresas chinesas não sofrerão restrições no 5G é um assunto prioritário para o governo chinês, tanto que foi mencionada pelo chanceler Wang Yi na conversa que ele teve em abril com o chanceler brasileiro, Carlos Alberto França.

Por outro lado, as vantagens da parceria com a Otan oferecida pelos EUA são menos visíveis. Caso ela se concretizasse — e para isso é necessária a aprovação dos outros membros da aliança militar, além dos EUA — o Brasil se tornaria o segundo país da América Latina com o status de "parceiro global" da Otan, além da Colômbia. A ministra das Comunicações colombiana, aliás, já declarou que seu país não pretende barrar a Huawei.

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