‘Não há mais Consenso de Washington’, diz presidente do Eurasia Group

‘Não há mais Consenso de Washington’, diz presidente do Eurasia Group

Ian Bremmer afirma que “o papel do Estado vai crescer” em meio à crise provocada pela pandemia

Para o presidente da consultoria americana Eurasia Group, Ian Bremmer, a receita neoliberal que ficou conhecida como Consenso de Washington – de privatizações, abertura comercial e Estado mínimo – não existe mais. Em entrevista por e-mail ao GLOBO, ele ressalta que a mudança pode ser vista até nos Estados Unidos, onde o lema de Donald Trump, “América primeiro”, dá lugar, na administração Joe Biden, a “Americanos primeiro”.

O papel do Estado, diz, vai crescer. Mas a questão da dívida em algum momento voltará a pesar, especialmente para as nações emergentes, quando as taxas de juros globais voltarem a subir.

Na pandemia, governos de todo o mundo foram obrigados a adotar medidas de estímulo a suas economias. Em sua avaliação, no mundo pós-pandemia o Estado vai manter esse papel?

O papel do Estado vai crescer. A Covid-19 afetou os pobres e os trabalhadores com mais força do que os ricos; mais pessoas perderam seus empregos por causa da tecnologia; a rede de seguridade social precisa de mais investimentos.

Essas questões já eram grandes e vinham crescendo – o motivo pelo qual vimos aumentar o populismo político no mundo nos últimos anos –, e a Covid apenas acelerou esse movimento, então os Estados terão de dar uma resposta.

Os trilhões em gastos dos EUA – a maior economia do mundo – terão impacto produtivo por uma década. E o modelo econômico chinês, da segunda maior economia do mundo, já era conduzido pelo Estado antes da pandemia.

Em algum ponto no futuro o endividamento vai novamente ter um peso político no papel do Estado expandido, mas isso não vai acontecer a curto prazo (exceto nos países que já estavam em apuros quando a pandemia começou).

Na semana passada, o Fundo Monetário Internacional (FMI) fez um apelo para que os governos mantivessem políticas fiscais flexíveis e chegou mesmo a propor um “imposto solidário” sobre empresas e indivíduos que ganharam na pandemia, para ajudar os mais prejudicados pela crise. Essa nova abordagem veio para ficar? Pode ser o fim do Consenso de Washington?

Não há mais Consenso de Washington, à medida que os EUA passam de uma política de “América primeiro” para uma política de “Americanos primeiro”. Europeus e americanos continuam a discordar, especialmente pós-Brexit e, em breve, pós-Merkel.

A China continua a crescer, mas não está alinhada. O FMI, por sua vez, busca assegurar que a ajuda para a recuperação econômica não seja interrompida prematuramente e que haja uma retomada, no pós-pandemia, das políticas sustentáveis.

Eles vão continuar a apoiar a taxação global e a redistribuição progressivas... mas isso não ganhará força com os principais governos.

A secretária do Tesouro americano, Janet Yellen, recentemente propôs um imposto global mínimo para as empresas, de forma a acabar com o que chamou de “corrida para o fundo do poço”. O governo Biden lançou um ambicioso pacote de estímulo. Os EUA são vistos, agora, como defensores de um novo papel para o Estado. Essa mudança de postura vai durar ou, passada a pandemia, tudo voltará ao velho normal?

Vai durar por algum tempo, dada a escala da crise atual. Mas os Estados Unidos continuam a ser o país mais dividido politicamente entre as democracias avançadas, e isso foi algo que levou gerações, então vai levar um bom tempo para ser consertado. Em outras palavras, essas mudanças não ocorrerão de uma hora para outra apenas porque o governo Biden assumiu.

Os países emergentes enfrentam um dilema entre ajudar os pobres a enfrentarem a pandemia e manterem seu equilíbrio fiscal. Há alguma forma de lidar com a crescente desigualdade sem ter uma deterioração nas contas públicas?

É difícil imaginar isso. Mas se o investimento for criterioso e destravar o capital humano, pode colocar o país em uma trajetória melhor a longo prazo. Para algumas nações em desenvolvimento cujas economias têm sido mal conduzidas, essa crise vai ser realmente séria.

Olhe para Líbano, Turquia, Argentina. Mesmo países que estavam um pouco melhor, como Brasil e África do Sul, enfrentarão problemas quando as taxas de juros globais subirem...

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