‘Nacional-populismo está em processo de contenção’

‘Nacional-populismo está em processo de contenção’

Saída de Trump da Casa Branca acelera movimento, que já e notado na Europa, em que os ‘coletes amarelos’ não prosperaram na França e o Brexit não parece ser a rota perseguida por outra países da região

Valor: Qual é o principal significado da vitória de Joe Biden e da derrota de Donald Trump nos EUA?

Sergio Amaral: É difícil ver um fato isolado sem todo o seu contexto. A globalização é a origem das profundas transformações que estamos vivendo. Ela trouxe uma aceleração dos fluxos financeiros, comerciais, de pessoas. Trouxe prosperidade e avanço da ciência, mas também desequilíbrios e ressaca. Uma das resistências é com o estrangeiro - seja com bens, seja com os imigrantes.

Junto com essa tendência de se proteger contra tudo o que vem de fora, as instituições e os partidos políticos não estavam preparados para dar uma resposta a essas mudanças, que acentuaram desigualdades. As sociedades tenderam a recorrer a líderes populistas, que ofereciam respostas fáceis para questões complexas. Esse ambiente externo, somado à grande capacidade de comunicação e à intuição política de Trump, faz o conjunto do trumpismo. O movimento nacional-populista é um fenômeno mundial, mas entrou em processo de recuo. A saída dele da Casa Branca acelera esse recuo.

Valor: Por que o sr. acha que esse movimento está recuando?
Amaral: Foram muitos choques ao mesmo tempo. Não houve tempo para as instituições se prepararem. Esses movimentos surgiram no vácuo, como forma de transição para uma reorganização da sociedade. Mas hoje se vê nos países europeus que, depois de uma ameaça muito grande dos movimentos nacionalistas, a ordem institucional se impõe. O Brexit não parece ser a rota perseguida pelos outros da União Europeia, os ‘coletes amarelos’ não prosperaram na França, a família Le Pen não está em caminho ascendente, o populismo na Itália tem se acomodado.
É interessante ver o que está acontecendo no Chile, uma crise onde não se esperava, pelo êxito econômico com componentes de um modelo social. De repente, isso ruiu. E o governo chileno, agindo com competência política, negociou um novo pacto social, com a nova assembleia constituinte. O Biden concorda com diversas demandas: papel maior do Estado na economia, superar o racismo sistêmico, ter uma política mais firme para o meio ambiente. Mas fazer tudo dentro da institucionalidade e do processo negociador. Minha leitura, talvez otimista, é que tudo isso tende a caminhar para um processo de institucionalidade. Porque os movimentos podem até eleger, mas depois não governam.

Valor: O trumpismo dominará o Partido Republicano até 2024?
Amaral: Depende de como será a convivência entre um e outro. O Partido Republicano tem alas que não gostam do Trump, mas elas foram docemente constrangidas a aceitá-lo, pela sua capacidade de votos. Foi um casamento de conveniência. As elites empresariais passaram a ver como complicados os passos mais recentes e extremados do Trump, como sua hesitação em reconhecer a democracia. O ativo dele é ter quase metade do contingente de votos, mas o partido terá que passar por um processo de “soul searching”, de busca de identidade. Não consigo antecipar o resultado desse jogo de forças, mas acredito que o partido se afastará.

Valor: Quais os maiores efeitos da vitória de Biden sobre o Brasil?
Amaral: Há dois efeitos. Um é a sinalização política: mostrar que a sociedade americana, em uma votação de caráter plebiscitário, rejeitou o tensionamento e desrespeito às normas. Muitas vezes víamos apoiadores de Trump agindo de uma forma nos EUA e, pouco depois, os apoiadores de Bolsonaro em atitudes semelhantes. Nada que seja combinado, mas a visão de mundo é semelhante. Na pandemia, as posições foram parecidas: negação da ciência, do uso de máscaras, do distanciamento. E segundo: os nossos interesses econômicos. Pode-se configurar um isolamento do Brasil. Isolamento não significa militância contra o país no âmbito de governos, mas movimentos crescentes da sociedade e de políticos em torno de questões ambientais.

Valor: O que exatamente o sr. espera em termos de pressão do governo Biden na área ambiental?
Amaral: Brasil e EUA são parceiros tradicionais. Têm problemas, como todas as relações, mas preservamos afinidades importantes. Haveria alguma razão para Biden deliberadamente adotar políticas ou restrições contra nós? Não acredito. O fundo do relacionamento é positivo e reflete interesses econômicos dos dois lados. No entanto, tratando-se de um governo que estabeleceu a questão ambiental como uma prioridade, poderá sofrer forte pressão da sociedade civil e da
opinião pública sobre o desmatamento na Amazônia. Hoje elas têm mais instrumentos para exercer pressão. Se os movimentos ambientalistas decidem que não se compra mais madeira ou carnes do Brasil, não se compra. Deve-se entender que a questão ambiental não se restringe mais a políticas de governo. É a utopia do século 21.

Valor: Como o sr. vê a abordagem do governo Biden com a China e pressões sobre o Brasil no
5G?
Amaral: Na medida em que Biden se propõe a diminuir as tensões com a China e adotar uma política de contenção que tenha menos crispações, sem a retórica de guerra fria assumida pelo Mike Pompeo, isso nos dá um espaço para negociar melhor as nossas posições. Os dois países são importantes para nós, falar com um nunca deve ser em detrimento do outro, o que prevalece é uma negociação caso a caso e em funções dos nossos interesses nacionais. A relação EUAChina tem objetivos diferentes e até antagônicas. A China quer ver sua emergência reconhecida. Os EUA não aceitam Pequim como grande potência e parte de um condomínio dos dois na ordem internacional. Para o mundo, é melhor que essas diferenças se resolvam dentro de um ambiente de negociação, em que convergências ou divergências não afetem tão diretamente a decisão dos outros países.

Valor: Que mudanças na nossa política externa são mais urgentes?
Amaral: O momento oferece uma grande oportunidade ao Brasil. Estamos passando por uma reconstrução da ordem internacional, que foi estruturada no pós-guerra e realmente tinha envelhecido. Antes mesmo da globalização já se percebia que ela precisava de mudanças. O que congelava as expectativas era o longo caminho. Numa das vezes em que conversei com Henry Kissinger, ele disse: ‘A grande contribuição do Trump pode ser a aceleração dessas mudanças. Ele trouxe abalos que impõem a necessidade de reestruturação’.

O mundo está em um processo de transformação muito grande e nós colocamos, no centro da nossa política externa, questões pouco relevantes. A restauração dos valores judaico-cristãos não pode pautá-la. O antiglobalismo está na contramão. Com a pandemia e a vitória do Biden, agora é o multilateralismo que está sobre a mesa.

Valor: E o Brasil está mal posicionado nesse novo tabuleiro?
Amaral: Não temos a participação de antes. Sempre tivemos voz muita ativa, por exemplo, no comércio. Qual é a proposta brasileira para a reforma da OMC? Talvez exista, mas ninguém sabe. Outro ponto: todo país tem aqueles parceiros com quem alimenta mais afinidades, com os quais constrói alianças, os ‘best friends’. Quem são os nossos melhores amigos? Até o Trump, eram os EUA. E agora, quem vai ser? Tivemos ruídos com países que sempre
foram muito amigos: França, a Europa de forma geral, Argentina. Estamos fora do grande debate internacional e não temos mais ‘best friends’. Há deslocamentos tectônicos em curso. O Brasil tem não só o direito, mas o dever de participar. É hora de reavaliar nossa política externa.

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