Na cúpula do Mercosul, Fernández pede 'vínculos dos povos acima dos governos' para enfrentar pós-pandemia

Na cúpula do Mercosul, Fernández pede 'vínculos dos povos acima dos governos' para enfrentar pós-pandemia

02/07 - 17:53 - Em claro recado ao presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, mas sem citá-lo, discurso de chefe de Estado da Argentina reforçou a necessidade de integração regional

Janaína Figueiredo e Eliane Oliveira

RIO e BRASÍLIA — Citando grandes heróis da independência latino-americana, entre eles o venezuelano Simón Bolívar, o presidente da Argentina, Alberto Fernández, defendeu em seu discurso na cúpula de chefes de Estado do Mercosul, realizada pela primeira vez de modo virtual, a união dos países da região para encarar a reconstrução pós-pandemia. Em claro recado ao presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, o chefe de Estado argentino assegurou que "as diferenças que possam surgir passam a um segundo plano. O importante é o desejo de nossos povos de se vincular, acima dos governos, que ocasionalmente governam cada uma de nossas Repúblicas".

Em momento algum Fernández citou Bolsonaro. Mas seu discurso girou em torno da necessidade de reforçar a integração regional, diante dos enormes desafios gerados pela pandemia do coronavírus. As tensões entre ambos se arrastam desde o ano passado, quando Fernández ainda era candidato à Presidência. O chefe de Estado lembrou que o bloco nasceu em 1991 com o objetivo de encontrar um destino comum e hoje, enfrentando a maior crise econômica mundial desde 1870, segundo o Banco Mundial, deve se unir para estar mais forte.

— Mais do que nunca, me convenço sobre a necessidade de nos integrarmos numa região única da América Latina. A união dos nossos povos precede a nossa posição como governantes ocasionais — frisou o chefe de Estado argentino que, ao contrário de Bolsonaro, não mencionou pontos de atrito entre os dois países, como as situações políticas na Venezuela e na Bolívia. — Estamos chamados a ser um grande país, a América Latina, como queriam Bolívar, San Martín. O mundo se globalizou, isso é fato. Brigar contra isso é bobeira, o que não é bobeira é ver como nos integramos a um mundo globalizado, como região — assegurou Fernández, dando mais uma alfinetada no governo brasileiro.

O chamado "globalismo" é questionado permanentemente pelo chanceler Ernesto Araújo em seus discursos. Paralelamente, a política externa de Bolsonaro tem dado pouca relevância à integração regional e apostado, prioritariamente, na aliança com os Estados Unidos.

— Aqui ninguém vai se salvar sozinho, precisamos ver como vamos construir um mundo mais igual e desenvolvido depois da pandemia. Temos de encarar juntos esse debate — concluiu o presidente argentino, que lembrou a importância de pensar que, acima das divergências, existem bolivianos, paraguaios, uruguaios e brasileiros que vivem em seu país, assim como muitos argentinos vivendo em países vizinhos.

Fernández se dispôs a analisar o acordo entre Mercosul e União Europeia (UE), mas foi, claramente, o presidente que mais enfatizou a necessidade de uma integração regional prioritária, antes de uma abertura comercial ao mundo. Esse é um dos principais pontos de divergência entre a Argentina e seus parceiros do bloco.

www.prensa.cancilleria.gob.ar es un sitio web oficial del Gobierno Argentino