Mutantes, peronistas dominam disputa presidencial argentina Rosendo Fraga

Mutantes, peronistas dominam disputa presidencial argentina Rosendo Fraga

Encerrado o período de inserirão das chapas presidenciais da Argentina à a h deste d omíngo (13), as três mais competitivas possuem, entre os seis candidatos a presidente e a vice, cinco peronistas. Apenas o atual mandatário, Maurício Ma cri, que busca a reeleição, não segue essa corrente ideológica.

Os demais, embora peronistas, estão longe de pensar da mesma forma. Dividemse entre as diversas ramificações desse complicado conceito, que confunde até mesmo os próprios argentinos.

O primeiro turno das eleições ocorre em 27 de outubro, quando se renovará, também, parte do Congresso.

As três principais chapas sào: Maurício Ma cri e Miguel Angel Pichetto, pela coalizão Jmitosporel Cambio (governista); Alberto Fernández e Cristina Kirchner, pela Frente de Todos; e Roberto Lavagna eJ ian Manuel lirtubey,pela aliança Consenso Federal.

O que distingue os peronistas envolvidos nessa disputa? Pichetto e Fernández são peronistas clássicos, que se adaptam a o governante de turno (desde que este seja peronista). Ambos já foram leais ao peronismo neoliberal de Carlos Menem (1989-1999) e ao de esquerda dos Kirchners (2003-11015). Apenas Alberto rompeu, ironicamente, com a sua atual companheira de chapa, Cristina, após ter sido chefe de gabinete dela ao fim do primeiro ano de gestão.

Para o historiador italiano Loris Zanatta, professor de história da América Latina na Universidade de Bolonha e especialista em Argentina, `se todasas chapas presidenciais contêm peronistas, podese passar a idéia de que o peronismo ganhou`. `Mas também cabe outra interpretação, a de que a definição clara do que é o peronismo está se apagando.`

Sempre houve vários peronistas nas disputas presidenciais. Em 2015, havia três (DanielScioli, Sérgio Massa e Rodríguez Saá); na de 2003, uma das mais polêmicas por conta da desistência do prime iro colocado, outrostrês (Carlos Menem, Néstor Kirchner e Rodríguez Saá). Qual a diferença nos dias de hoje?

Para Zanatta, é a falta de fricção e de identidade clara. `Chegar dividido na eleição não é novidade para o peronismo. Porém, antes, as diferençaseram mais claras. Néstor era uma opção à esquerda de Menem, que era neoliberal, e havia disputas ferrenhas entre eles.´

Além disso, havia partidos de oposição fortes e competitivos, como a hoje apagada União Cívica Radie al, que ap enasse limita a comporabase da coalizão de Macri.

Mas quando surgiram as diferenças entre os distintos tipos de peronismo? Historiadores não chegam a um con senso, e o assunto rende debates calorosos.

Porém, em linhas gerais, pode-se dizer que nasceu com o casal Juan Domingo Perón (1895-1974) e Eva Perón(i9i9- 1952). Ele teria idealizado um sistema em que as prioridades seriam a soberania nacional, a justiça social e a indepen dência econômica. Em suas gestões, o general cunhouum estilo paternalista, típico dos caudilhos, com mão de ferro em suas decisões.

Governou a Argentina em três períodos, de 1946 a 1952, dei952ai955 (quando foíderrubado por um golpe militar) e de 1973 a 1974, ano em que morreu. Durante seu longo exílio na Europa, entre o segundo e o terceiro mandato, aproximou-se do ideário de Mussolini (1883-1945), a quem passou a admirar.

Seu perfil autoritário foi ficando mais marcado. Por isso, causou grande desilusão, ao voltar, na guerrilha marxista montoneros, pois esta acreditava que ele construiria urna Argentina socialista. Porém, Perón estava muito longe dessasideiaserompeu com os montoneros, preferindo aproximar-se de um ramo do peronismo mais à direita, ligado ao sindicalismo.

Outra vertente foi a cultiva da por sua mulher, Eva Perón. Em sua curta vida, interrompida aos 33 anos porum câncer, Evita foi uma militante engajada, de discursos radicais e incendiários. Não economizava a voz ao gritar contra os ricos e a oligarquia em seus discursos, e pregava certo ódio classísta, algo que impregnou aesquerda peronista.

Do peronismo de Evita surgiram o peronismo de esquerda, como o kirchnerismo, e aquele ligado ao trabalho dos chamados `curas villeros`, ou padres que atuam nas favelas ambiente do qual saiu o próprio papa Francisco.

Desde o começo, também houve uma distinção entre peronismo urbano ligado à guerrilha nos anos 1970 e ao kirchnerismo nos dias de hoje, e o peronismo mais tradicional, que existe nas províncias. Esse peronismo federal se aliou a Macri em 2015, com vários governadores que lhe deram apoio, em discordância com o kirchnerismo.

Hoje, essa ala é representada por Juan Manuel Urtubey, atual governador de Salta, que, apesar de se definir como de centro-esquerda (é a favor da legalização do aborto), é muito mais conservador que o peronista urbano e, antes de mais nada, busca uma maior autonomia das províncias com relação a BuenosAires, principalmente em questões de orçamento nacional.

Mas quem criou um grande cisma no peronismo foi o ultra popular Carlos Menem, que inaugurou uma ramificaçâo nada convencional.

Apesar de reforçar o patriotismo à sua maneira, pediu uma grande conciliação nacional, oferecendo indultos a repressores e guerrilheiros presos. Em outra frente, promoveu prívatízações em krga escala. Foi um peronista neoliberal, que ganhou setores do empresariado, mas inquietou o peronismo de esquerda.

Indagado sobre o que é o peronismo hoje, o analista Rosendo Fraga crê que não se trata de uma discussão ideológica. `Se o poder está à direita ou à esquerda, não interessa. O peronismo ocupa todos os espaços que pode.` Para o cientista político Marcos Novaro, Miguel Ângel Pichetto foi chamado por Macri para amenizar o que causa resistência em relação a ele, que é o vínculo com os ajustes econômicos. Por outro lado, Cristina teria chamado Alberto Fernández para `minimizar o medo que ela causa em não peronistas e mesmo em peronistas moderados.`

Tanto que, questionado na semanapassadasobre sua ideologia, Fernández disse ser um `peronista progressista liberal`. Assim, talvez, esteja inaugurando uma nova vertente desse amplo conceito.

Árvore genealógica do peronismo

Quem foi Juan Perón?

O general Juan Domingo Perón (189S-1974) foi presidente da Argentina em três períodos, de 1946 a 1952, de 1952 a 1955 (quando foi derrubado por um golpe militar) e de 1973 a 1974, ano em que morreu. Em seu lugar, assumiu sua vice e então mulher, Isabel Perón, que seria derrubada por outro golpe militar, em 1976. Isabel Perón tem 88 anos e vive na Espanha, onde se exilou depois de ser retirada do poder.

Quem foi Eva Perón?

Hoje um ícone do peronismo, Eva Perón (1919-1952), ou Evita, como é mais conhecida, viveu apenas33 anos. Exatriz, de classe média baixa, casou-se com Perón em 1945. Como primeiradamavirouuma militante política e social que fez inúmeras obras e ações de caridade e estabeleceu laços com sindicatos. Uma de suas principais ações foi conseguir aprovar a lei permitindo ovoto feminino, A chamada Lei Evita fo promulgada em 1947.

O que é o peronismo?

Valores: Justiça social, Independência econômica y Soberania política

Existe um `partido peronista`? Não. A estrutura partidária que mais se aproxima disso é o Partido Justicialista. Mas há inúmeras coalizões e alianças, de duração breve ou duradoura, que se denominam peronistas, como a Unidade Cidadã (do kirchnerismo), a Alternativa Federal (de políticos peronistas de Províncias), a Frente Renovadora (de peronistas mais à direita), além de peronistas que se juntam a fórmulas não-peronistas, como é o caso de Miguel Pichetto, candidato a vice numa chapa nãoperonista liderada por Maurício Macri.

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