Mourão aposta em GLO na Amazônia com foco restrito

Mourão aposta em GLO na Amazônia com foco restrito

Nova operação contra crimes ambientais na região terá menos recursos que outras edições

A nova operação de Garantia da Lei e da Ordem na Amazônia legal terá R$ 10 milhões a menos do que a última, finda em 30 de abril deste ano, se iniciará num momento de agravamento da seca e, consequentemente, dos incêndios na região, e coincide com o duplo cerco policial e judicial do Ministério do Meio Ambiente.

Tem tudo, portanto, para dar errado. Contra o descrédito generalizado, o vice-presidente da República e presidente do Conselho da Amazônia Legal, Hamilton Mourão, faz duas apostas. Trata-se de uma GLO mais focalizada do que a Operação Verde 2 e que buscará mais integração com as equipes do Ibama e do ICMBio, com quem se reunirá nesta quarta-feira. Por mais integrados que estejam, no entanto, os técnicos das agências continuam sob o chapéu do ministro Ricardo Salles.

“Vamos nos concentrar numa área menor no intuito de conter o desmatamento em terras devolutas, que respondem por 70% dos crimes ambientais”, diz o vice-presidente. A área a ser focalizada é o “Arco da Humanização”, como ele chama a região da Amazônia Legal, já ocupada. Define como foco três municípios do Pará, Novo Progresso, Altamira e Paraopebas, dois do Amazonas, Apuí e Lábrea, Colniza, no Mato Grosso, e o entorno de duas capitais, Porto Velho (RO) e Rio Branco (AC).

Sobre a crítica de que houve pouca integração entre agentes do Ibama e do ICMBio, que preconizam ações permanentes baseadas no uso intensivo de tecnologia, e a operação temporária de embarcações e aeronaves militares, Mourão disse que as dificuldades de interação com a Pasta de Ricardo Salles, à qual as agências estão subordinadas, de fato, prejudicaram a efetividade da GLO.

“Eles praticamente não compareciam às operações. São agências que estão sob o chapéu do Ministério do Meio Ambiente”, diz. Desta vez, Mourão pretende contornar essas dificuldades a partir de uma reunião a ser realizada nesta quarta-feira. Ainda não foi definida a data de início da nova GLO que, a exemplo da "Operação Verde 2" terá duração de dois meses.

O decreto que normatizará a operação incluirá os ministérios da Agricultura e do Meio Ambiente, mas o vice-presidente questiona se o ministro Ricardo Salles, em meio aos inquéritos que responde, terá condições de ter uma participação efetiva.

No mês de maio, durante o qual a Operação Verde 2 já havia sido desativada, o desmatamento cresceu 41% em relação ao mesmo mês de 2020, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Uma onda de incêndios na floresta, como aquela que chocou o mundo em 2020, é uma das maiores preocupações da diplomacia brasileira hoje, especialmente depois das metas ambiciosas assumidas durante a cúpula dos líderes pelo clima promovida pelo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, no fim de abril.

A maior preocupação é que, paralelamente à persecução das metas assumidas, Estados Unidos e China deram celeridade às tratativas para tornar efetivo o acordo comercial entre os dois países firmado em janeiro de 2020. Se os chineses, como têm demonstrado nos últimos meses, se mostrarem, de fato, dispostos a cumprir sua parte no acordo, e aumentarem suas importações dos Estados Unidos, exportadores brasileiros, especialmente de soja, podem vir a ser prejudicados.

Um novo carimbo de desmatador para o Brasil, num momento em que China e EUA se aproximam nos esforços ambientais e na pauta comercial, é tudo o que a pauta de exportações do Brasil não precisa, comenta uma fonte diplomática envolvida no tema.

Mourão diz que a operação não foi movida por pressões de exportadores brasileiros preocupados com a evolução do desmatamento no período da seca, mas que a preocupação é permanente. “O foco é restringir o desmatamento ao que é permitido e centrar esforços nas terras da União não distribuídas, devolutas”, disse.

O vice-presidente conversou recentemente com os embaixadores da Alemanha e da Noruega e não tem expectativa de vir a fazê-lo, em curto ou médio espaço de tempo, com o embaixador americano. Tod Chappman, que assumiu a Embaixada dos Estados Unidos no Brasil em março de 2020, anunciou que deixaria o posto esta semana.

A expectativa do vice-presidente é de que a itinerância do ministro-conselheiro Douglas Koneff possa ser ainda maior do que a de William Pop. Na condição de encarregado de negócios, Pop assumiu a embaixada americana em novembro de 2018, com a saída do titular, Michel McKinley, e só entregou o cargo para Chapman 17 meses depois. A aposta é de que a Casa Branca aguarde as eleições de 2022 para definir o novo interlocutor com o Palácio do Planalto.

As tratativas de Ricardo Salles de estreitar relações com John Kerry, o enviado especial de Biden para o clima, foram consideradas infrutíferas. As negociações não avançaram nem com o segundo escalão de seu gabinete. As dificuldades, movidas inicialmente pelo corte orçamentário brasileiro em operações de desmatamento, depois de o Brasil se comprometer com metas ambiciosas na cúpula dos líderes, se agravaram com as acusações contra Salles. A operação da Polícia Federal que resultou em busca e apreensão no gabinete e na casa do ministro teve a colaboração de órgãos ambientais americanos.

A nova GLO da Amazônia acontece ainda num momento de conflito entre o crime organizado e as milícias infiltradas nas polícias amazonenses, deflagrado pelos ataques, uma semana atrás, de delegacias e ônibus em Manaus. Ambientalistas temem a atuação conjunta na fronteira de traficantes e madeireiros. O vice-presidente, porém, negou a aproximação dos dois mundos do crime na Amazônia Legal.

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