Militares e Guedes convencem Bolsonaro e Mourão vai à posse de Fernández

Militares e Guedes convencem Bolsonaro e Mourão vai à posse de Fernández

Argentina: Presidente muda de idéia na véspera da transição em país vizinho, após conselho de integrantes das Forças Armadas, do ministro da Economia e do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia: importância da relação comercial teria pesado na decisão

Após ter dito que não enviari a ninguém do alto escalão para a posse do presidente argentino Alberto Fernández, Jair Bolsonaro mudou de idéia ontem e convocou o vice-presidente Hamilton Mourão para representá-lo, A decisão foi tomada após almoço com militares no Clube Naval. É a primeira vez desde 2002 que um chefe de Estado brasileiro naovai à cerimônia de um presidente da Argentina.

A birra de Bolsonaro com Fernández tem caráter ideológico. O presidente brasileiro apoiou Mauricio Macri na eleição de novembro e ficou irritado quando Fernández postou, 11a noite dc sua vitória, uma mensagem no Twitter felicitando o cx-presidente Luiz Inácio Lula da Silva por seu aniversário c pedindo sua libertação- O presidente eleito da Argentina já havia visitado Lula em Curitiba.

` Não vou à posse dc um cara que se elege falando Lula Livre, não vou`, disse Bolsonaro, na ocasião. Mais tarde, ele pensou em mandar o ministro da Cidadania, Osmar T erra. Depois, garantiu que apenas o embaixador em Buenos Aires, Sérgio Danese, representaria o Brasil.

A ausência de Bolsonaro, no entanto, vinha sendo criticada por integrantes do próprio governo, apesar dc o presidente brasileiro ter garantido que o ruído diplomático não afetaria o comercio com a Argentina. A pressão por um gesto de distensão vinha principalmente do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ) , e dos ministros da Secretaria dc Governo, o general Luiz Eduardo Ramos, c da Economia, Paulo Guedes.

Ontem, o presidente brasileiro deu meia-volta. `Achamos melhor, para não dar a entender que estamos fechando portas`, disse ontem o presidente, que cogitou ate enviar Guedes em razào dos negócios com a Argentina, mas no fim optou por Mourão. `O que interessa para nós, interessa para eles.`

`Foi pragmatismo`, afirmou ao Estado um dos militares ouvidos pelo presidente, que preferiu não se identificar. Mourão embarcou ontem às pressas para Buenos Aires. `O presidente não me explicou nada. Apenas me chamou c determinou que eu fosse à Argentina`,afirmou o vice-presidente, após conversar com Bolsonaro. `É uma decisão política, um gesto dc boa vontade com o novo governo argentino.

` A decisão dc não prestigiar a posse do argentino vinha se tornando insustentável diante dos sinais dc aproximação enviados por Fernández. Na semana passada, ele nomeou Daniel Sciolí embaixador em Brasília com a missão de `desestressar` a relação. Em seguida, o argentino aproveitou a visita a Buenos Aires de Maia, para enviara Bolsonaro uma mensagem de `respeito` e pedir para que os dois trabalhassem `Juntos` por um `destino comum`.

A resposta de Bolsonaro foi uma mensagem em seu perfil 110 Facebook criticando Martin Guzmán, ministro da Economia nomeado por Fernández na semana passada. Segundo Bolsonaro, Guzmán teria recomendado o livro Valsa Brasileira, de Laura Carvalho, que, segundo o presidente brasileiro, havia sido `economista do PSOL` na ultima eleição.

Ontem, ao deixar o Palácio da Alvorada, Bolsonaro ainda parecia irredutívelc disse que estava analisando a `lista de convidados`, antes de decidir quem enviaria à cerimônia. `Primeiro, quando assumi aqui, não convidei algumas autoridades também`, disse. Para sua posse, cm i.° dc janeiro, Bolsonaro não convidou os presidentes da Venezuela, Nicolás Maduro, c de Cuba, Miguel Díaz-Canel - que está em Buenos Aires para a posse de Fernández.

A última vez que um chefe de Estado do Brasil deixou de ir à posse de um presidente argentino foi em 2002. Na ocasião, Fernando Henrique Cardoso não compareceu à cerimônia dc Eduardo Duhalde, eleito pelo Congresso, cm meio a uma grave crise econômica que fez a Argentina ter cinco presidentes entre 2001 e 2003.

A decisão de enviar Mourão a Buenos Aires foi recebida com alívio por empresários brasileiros. Para José Ricardo Roriz, vice-presidente da Federação da Indústria do Estado dc São Pau lo(Fiesp) e presidente da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast), apesar dc o governo ter decidido enviar um representante, a discussão prejudica a relação bilateral.

`Vimos com muita preocupação o anúncio dc que não haveria um representante. A Argentina é o país que historicamente mais compra manufaturados do Brasil e é importante manter uma boa relação, independentemente da posição ideológica do presidente,` disse. `Prevaleceu o bom senso, mas não ficou uma mensagem positiva.`

A indústria brasileira, que sentiu a queda das importações argentinas, poderá se beneficiar de um eventual plano de estímulo ao consumo, com crédito mais barato, que Fernández pode lançar. Por outro lado, o controle ao câmbio pode travar as importações. `Não espero uma recuperação (nas compras de produtos brasileiros), mas também não deve cair muito mais`, disse Andrés Borcnstcin, economista do BTG Pactual na Argentina.

O ex-embaixador Rubens Barbosa, presidente do Instinito de Relações Internacionais e Comércio Exterior, também não acredita que a relação bilateral seja alterada pelo desgaste entre Bolsonaro c Fernández. `Não dou muito importância a isso. A relação bilateral é muito importante: a Argentina não pode ficar sem o Brasil, e nem o Brasil sem a Argentina. Nào liá uma crise, há uma escalada (do debate) pessoal, nào institucional.`

Oliver Stuenkel, professor da FGV, acredita que Mourão terá agora 11111 mandato para cuidar do assunto. `A viagem do Mourão é a melhor notícia da relação bilateral`, disse. `A relação amistosa entre Brasil e Argentina é fruto dc 11111 duríssimo trabalho diplomático feito nos anos 80. É algo que se construiu, mas que também pode ser destruído.`

Segundo Sérgio Berensztein, analista político argentino, o vínculo entre os dois presidentes precisa ser construído - e Mourão é um passo 11a direção certa. `Não há um conhecimento objetivo sobre sua personalidade (Mourão), mas é ccrto que é muito importante a visita, porque uma ausência do Brasil teria sido tomada como falta dc interesse.`

Colaboraram carla BRIDI, EMILLY BEHNKE E LÚCIA NA DYNIEWICZ CRONOLOGIA

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