Merkel e Lukashenko acertam negociações diretas para resolver crise migratória, e UE anuncia envio de ajuda

Merkel e Lukashenko acertam negociações diretas para resolver crise migratória, e UE anuncia envio de ajuda

16:31 - Na segunda conversa telefônica da semana, líderes dizem concordam em diálogo direto mas deixam claras as diferenças; ministro da Defesa polonês diz que crise pode se arrastar por meses

BRUXELAS E MINSK — Diante de uma crise política e, sobretudo, humanitária que pode se arrastar por meses, a Bielorrússia aceitou negociar diretamente com a União Europeia (UE) uma saída para a situação de centenas de imigrantes que hoje estão em uma espécie de limbo nas fronteiras bielorrussas com o bloco.

Em conversa telefônica, a segunda esta semana, a chanceler alemã, Angela Merkel, e o presidente Alexander Lukashenko acertaram que a questão das fronteiras “será levada como um todo ao nível da Bielorrússia e da UE”, um sinal de que Minsk e Bruxelas poderão dialogar diretamente, mesmo no pior momento das relações bilaterais em décadas —o bloco acusa o líder bielorrusso, no poder desde 1994, de graves abusos cometidos contra seus opositores, em especial durante a eleição presidencial do ano passado.

“Tendo discutido a situação dos refugiados profundamente, os dois líderes chegaram a um entendimento sobre como agir e avançar na resolução dos problemas existentes”, diz a nota da Presidência da Bielorrússia, citada pela agência estatal BelTa. O diálogo direto também era desejo da Rússia, que sofria pressão de Bruxelas para que atuasse junto a Minsk, mas que, por sua vez, defendia que a própria UE conversasse com Lukashenko.

Segundo o texto, ainda serão realizadas conversas para atender o pedido de alguns dos imigrantes que desejam seguir viagem até a Alemanha, sem detalhar como seriam essas negociações. No telefonema, Merkel exigiu que Lukashenko permita o trabalho de organismos internacionais, como o Alto Comissariado da ONU para Refugiados, a Organização Internacional para a Migração e da própria Comissão Europeia.

Os dois contatos de Merkel com Lukashenko, visto como um líder ilegítimo pela UE e alvo de seguidas sanções, reforça o senso de urgência de Bruxelas para resolver uma crise que, sob seu ponto de vista, foi fabricada pelo governo bielorrusso.

Desde meados de junho, quando a UE anunciou um novo pacote de sanções contra Minsk, ligado à interceptação de uma aeronave da Ryanair onde viajava um dissidente, Lukashenko sinalizou que não agiria mais para evitar que imigrantes usassem seu território para chegar às fronteiras de Polônia, Letônia e Lituânia, que integram o bloco.

Nos meses seguintes, o número de imigrantes vindos especialmente do Iraque, mas também da Síria, Afeganistão, Congo e Camarões, aumentou exponencialmente — segundo autoridades europeias, eles chegavam a contar com o apoio de militares bielorrussos para chegar às fronteiras e até para atravessar para o outro lado.

Em resposta, países vizinhos aumentaram a vigilância e impediram a entrada dos imigrantes, criando uma espécie de limbo: afinal, além de não poderem seguir viagem rumo a outras nações europeias, muitos também não podiam voltar a Minsk, ficando sujeitos à falta de comida, ao frio e à violência das forças de segurança. Na terça-feira, policiais poloneses usaram jatos d’água e bombas de gás para conter um grupo que tentava passar pela barreira de arame farpado. Desde o início da crise, oito pessoas morreram, incluindo ao menos uma criança.

Crise de longo prazo
Mesmo antes da conversa entre Lukashenko e Merkel, sinais sugeriam que a crise poderia começar a ser resolvida. Alguns dos imigrantes começaram a ser levados para abrigos próximos da fronteira — ao New York Times, Yuri Karayev, assessor de Lukashenko, disse que cerca de 1,1 mil pessoas estão nos abrigos. Ao ser questionado se o plano era fechar todos os acampamentos, ele respondeu que “essa é a esperança dele”.

Por sua parte, a UE anunciou que enviará cerca de 700 mil euros em alimentos, cobertores e outros itens básicos para os imigrantes — Lukashenko acusa o bloco de não fazer o suficiente para enfrentar a crise humanitária em suas fronteiras. No anúncio da ajuda, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, também fez ataques ao governo bielorrusso.

— Estamos prontos para fazer mais. Mas o regime bielorrusso precisa parar de enganar as pessoas e colocar suas vidas em risco — declarou. Minsk nega qualquer participação na crise e rejeita as acusações de que estaria facilitando o caminho para pessoas que buscam entrar de forma irregular na União Europeia.

Nesta quarta-feira, o ministro da Defesa da Polônia, Mariusz Blaszczak, afirmou que a crise poderia se estender por mais algum tempo.

— Temos que nos preparar para o caso da situação na fronteira com a Bielorrússia não se resolver rapidamente, precisamos estar preparados para alguns meses, espero que não sejam anos — afirmou o ministro, em entrevista à rádio pública.

Até o momento, as nações da União Europeia vêm apoiando a política linha-dura do governo polonês na questão migratória, por temor de uma nova onda de migração como a vista em 2015, quando mais de um milhão de pessoas chegaram vindas do Norte da África e Oriente Médio.

Desde então, os controles fronteiriços do bloco foram apertados, e países como a Turquia passaram a receber apoio para acolher os imigrantes que usam seu território para tentar chegar à Europa. Para organizações de defesa de direitos humanos, as ferramentas usadas por Bruxelas agravam o sofrimento humano daqueles que fugiram de seus países em busca de segurança e de uma vida melhor.

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