Mercosul tem cúpula esvaziada e sem rota de ação

Mercosul tem cúpula esvaziada e sem rota de ação

Com ausências de presidentes eleitos de Argentina e Uruguai e divisão sobre abertura comercial, bloco não poderá começar a discutir formas de superar dissensões internas; analistas veem risco de desintegração

O Mercosul iniciará hoje uma nova cúpula de presidentes e ministros num delicadíssimo contexto de queda expressivado comércio, recessão ou, no melhor dos casos, desaceleração da economia, paralisia institucional e divergências aparentemente irreconciliáveis entre seus principais sócios. Um pano de fundo nada favorável, que será discutido pelos governos dos quatro sócios fundadores Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, sendo que dois deles estão de saída.

Sem a presença dos presidentes eleitos da Argentina, o peronista Alberto Fernández, e do Uruguai, o líder do Partido Nacional e de uma aliança de centro-direita Luis Lacalle Pou, o que for decidido na chamada Cúpula dos Vinhedos, na cidade de Bento Gonçalves, Rio Grande do Sul, não terá força para tirar o Mercosul da encruzilhada em que se encontra.

 

MERCADO ESSENCIAL

 Continuarão vigentes as dúvidas sobre sua viabilidade em um momento de guerra comercial entre Estados Unidos e China e num continente às voltas com delicadas crises políticas. Especialistas admitem que o perigo de desintegração nunca foi tão grande. Ao mesmo tempo, lembram que, para os quatro países, o Mercosul tecnicamente uma união alfandegaria imperfeita (já que o comércio de muitos produtos, por exemplo, automóveis, não foi liberado) representa um mercado essencial.

Por um lado, o governo do Brasil e o que tomará posse no Uruguai, com Lacalle Pou, defendem uma abertura comercial que permita, por exemplo, negociar acordos por fora do bloco. Isso implicaria derrubar a Resolução 32, aprovada no ano 2000. E o que vem pedindo o Uruguai insistentemente e está no programa de governo dos cinco partidos que formam a aliança que levou Lacalle Pou ao poder. A partir de março de 2020, cerca de 60% do Parlamento do país terão um mandato enfático de defender a abertura do bloco quase como único salva-vidas para a economia uruguaia, que este ano crescerá apenas 0,6%.

Temos uma negociação avançada com a China e vemos a Ásia como um importante mercado, por exemplo, para nossa carne disse Ignácio Munyo, economista e diretor da Escola de Negócios da Universidade de Montevidéu.

Para Uruguai, Paraguai e Brasil, ampliar mercados é prioridade. Os três países pregam a necessidade de reduzir tarifas, algo que a Argentina de Fernández rechaça.

O futuro chanceler uruguaio, Ernesto Talvi, é, como o ministro da Economia Paulo Guedes, um ex-`Chicago Boy`. Ambos querem uma redução da Tarifa Externa Comum (TEC, que taxa o produtos de fora do bloco) do Mercosul, atualmente de 35%.

Uma opção é dar alguns passos para trás e transformar o Mercosul numa zona de livre comércio, na qual cada país tenha sua TEC e possa comercializar livremente com o resto do mundo apontou o economista José Quijano, ex-diretor da Secretaria do Mercosul.

Seu colega Javier de Haedo, que integrou a equipe econômica do governo de Luis Alberto Lacalle (1990-1995), pai do presidente eleito do Uruguai, lembrou que em sua origem `o Mercosul foi pensado como um acordo muito mais aberto`.

Mais do que criar comércio, o bloco desvia comércio questionou De Haedo.

Na visão da argentina Noemi Mellado, diretora do Instituto de Integração Latinoamericana, `o Mercosul vive um processo de desinstitucionalização e desintegração`.

Entre janeiro e outubro, as exportações do Brasil para a Argentina caíram 39% frente ao mesmo período do ano passado, totalizando US$ 8,129 bilhões.

Mas a Argentina continua sendo o principal mercado para produtos manufaturados brasileiros e o terceiro sócio comercial do Brasil, depois de EUA e China.

 As ameaças do governo Bolsonaro de sair do Mercosul preocupam e confirmam que terminou a fase da chamada `paciência estratégica` do Brasil com a Argentina (termo nascido na gravíssima crise econômica argentina de 2001).

Para Maurício Santoro, professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uer j), `o risco de que o Mercosul chegue ao fim nunca foi tão grande`. O que chama a atenção é que o presidente Bolsonaro é capaz de ser pragmático com a China e com países árabes. Mas não aqui na região apontou Santoro.

 

MOMENTO COMPLEXO

 O professor afirmou, ainda, que a interferência de Fernández na política brasileira, defendendo publicamente a libertação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, `tampouco contribuiu`.

O momento é dos mais complexos já vivido pelo Mercosul e, apesar dele, a cúpula de Bento Gonçalves não terá capacidade de começar a discutir uma saída. Será necessário esperar a posse de Fernández, em 10 de dezembro, e a de Lacalle Pou, em março próximo. Até lá, os especialistas esperam mais tensão e falta de rumo.

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