Me defende crescimento via livre-comércio

Me defende crescimento via livre-comércio

Livre comércio deve ser política de Estado e não de governos, diz o chanceler chileno, Roberto Ampuero. Relações externas Chanceler chileno diz que abertura comercial deve prevalecer independentemente do governo

O Chile, pais de 18 milhões de habitantes, tido como referência por integrantes da equipe do presidente eleito, defende que a opção pelo livre comércio deve ser política de Estado de longo prazo, independentemente de quem se encontra no poder, disse ontem ao Valor o ministro chileno das Relações Exteriores, Roberto Ampuero. `Aqui tem havido governos de esquerda, de centro-direita, de centro-esquerda, e tem se mantido a linha principal dessa filosofia [na defesa do livre-comércio]`, disse. A liberalização comercial tem se mostrado mecanismo efetivo para o desenvolvimento e a redução da pobreza, disse o chanceler. Ontem, Brasil e Chile assinaram um acordo de livre-comércio bilateral que incorpora uma série de inovações em matérias não tarifárias. O acordo foi assinado no Palácio de la Moneda, na presença dos presidentes Sebastián Pinera e Michel Temer.

Ampuero admitiu que seu pais está preocupado com a guerra comercial entre China e Estados Unidos, seus dois principais parceiros comerciais, mas preferiu não opinar sobre os efeitos de uma possível preferência do governo Bolsonaro em relação aos EUA, em detrimento do Mercosul: `Chile e Brasil apostam no mesmo: intensificar, estreitar e ampliar as relações econômicas, e beneficiar a população dos dois países com mais prosperidade`, afirmou. Quinto parceiro comercial mais importante do Brasil, o Chile comprou de janeiro a outubro US$ 5,25 bilhões em produtos brasileiros, aumento de 25% em relação a igual período de 2017.0 acumulado até outubro das importações brasileiras do Chile foi de US$ 2,89 bilhões. O superávit brasileiro no período é de US$ 2,35 bilhões. Leia a seguir os principais pontos da entrevista, concedida no gabinete da chancelaria.

Valor: Como esse acordo pode impulsionar a relação Brasil-Chile?

Roberto Ampuero: Eu inscreveria a relação como sendo de aliados estratégicos. Em 2017, o intercâmbio comercial bilateral superou os US$ 10 bilhões. Para o Chile, o Brasil é o terceiro sócio comercial depois de China e dos Estados Unidos. É o primeiro destino dos investimentos chilenos, que somam cerca de US$ 32 bilhões [estoque]. São mais de 150 empresas chilenas investindo no Brasil; 66% das exportações do Chile ao Mercosul vão para o Brasil. Até agora [o que tínhamos] é um acordo [para eliminar tarifas de importação], via Mercosul, e o novo acordo representa uma modernização e atualização das relações comerciais em direção ao livre-comércio. Para ambas as partes, o importante é que atualizamos em relação a elementos que conformam a nova realidade internacional. Há disciplinas novas. O acordo anterior colocava ênfase nos bens. Agora é um tratado que incorpora outros temas: telecomunicações, comércio eletrônico, serviços, ambiente, [questões de] gênero, micro, pequenas e médias empresas, compras públicas e o roaming, que será eliminado, tendo impacto sobre o turismo e sobre as viagens de negócios. Há um aspecto que se relaciona com a inspiração principal da nossa política exterior: as pessoas precisam sentir que as relações econômicas internacionais de seu país trazem melhores condições devida.

Valor: Épossível ampliar o investimento brasileiro no Chile?

Ampuero: A aproximação do Mercosul à Aliança do Pacífico [Chile, Colômbia, Peru e México] e o interesse do Brasil em subscrever o acordo com o Chile mostram que o Brasil também quer não somente abrir seus mercados, mudar sua posição tradicional, mas também quer se aproximar e conhecer de forma mais direta as práticas da Aliança do Pacífico e, dessa forma, se abrir à Ásia-Pacífico. À medida que o Chile possa servir de porta de saída em direção à Ásia-Pacífico, penso que vamos sentir também o impacto dos investimentos brasileiros no Chile. O Brasil, que historicamente esteve olhando para o Atlântico, busca abrir-se ao Pacífico, aproveitando a integração denominada 4.0, que abre a circulação a todo tipo de bens e serviços. Acredito que por aí há uma nova etapa, uma nova era, na aproximação do Brasil à Ásia-Pacífico.

Valor: Como o acordo pode aproximaroBrasil da Aliança do Pacífico?

Ampuero: Nas conversações com o Brasil e nos quatro meses [de negociações do acordo], ficou manifestado o interesse do Brasil para que o Chile possa compartilhar a sua experiência em termos da integração com os outros países que formam a Aliança do Pacífico. O Chile tem o desejo de compartilhar essa experiência. É uma experiência enriquecida pelo fato de o Chile ter 26 acordos de livre-comércio no mundo, a maior parte na Ásia-Pacífico. Alcançamos por meio desses acordos 90% do PIB mundial. Estamos felizes de poder compartilhar essa experiência com um sócio estratégico como é o Brasil e desejamos também aprender com a experiência do Brasil, que é muito rica e variada em relações e presença internacionais. É uma relação mutuamente benéfica.

Valor: A Aliança do Pacífico pode serampliada?
Ampuero: Há países candidatos a serem Estados associados. Aí se incluem Nova Zelândia, Canadá, Austrália e Cingapura.

Agora também se aproximaram Coréia do Sul e Equador.

Valor: O governo eleito no Brasil quer se abrir mais ao mundo. Qual é a fórmula do Chile? Ampuero: Parte da nossa experiência como país se relaciona ao fato de que somos um país de 18 milhões de habitantes, mercado pequeno para sustentar o desenvolvimento e gerar prosperidade e riqueza. Portanto, o Chile busca, por meio do livre-comércio, chegar a outros mercados. Ampliar ao máximo essa possibilidade de exportar, importar e conseguir investimentos. Tudo isso passa por uma disposição e por uma convicção compartilhada. Quando há uma política de Estado na opção pelo livre-comércio, isso implica medidas internas e um olhar de longo prazo. Se observar bem os tratados de livre-comércio, vai observar que exigem trabalhar durante muito tempo em busca dos objetivos, mas dentro dos acordos. Quando se consegue atingir a liberação comercial, podem passar 12,14 anos. Implica, portanto, compromisso de longo prazo, como política de Estado, no sentido que esse caminho será mantido e que os outros entendam e saibam que o país mantém os compromissos, independentemente dos governos. Isso é importante e no Chile, tem se mantido. Aqui tem havido governos de esquerda, centro-direita, de centro-esquerda, e tem se mantido a linha principal dessa filosofia.

Valor: O governo Bolsonaro tem dado sinais que irá privilegiar a relação com os EUA em detrimento do Mercosul. Esse sinal preocupa o Chile?

Ampuero: O Brasil é um sócio estratégico do Chile, respeitamos as decisões do Brasil e confiamos no diálogo. Estão todas as possibilidades entre os dois países, os quais têm uma ótima relação e não há dúvida de que os governos do Chile e do Brasil apostam no mesmo: intensificar, estreitar e ampliar as relações econômicas, e beneficiar a população dos dois países com mais prosperidade.

Valor: O Chile tem receio dos efeitos da guerra comercial entre China eEUA, seus principais parceiros?

Ampuero: Nos preocupa, e o presidente Pinera tem expressado isso. Quando surgem as tensões comerciais que podem chegar à guerra comercial, todos sabem como começa e ninguém sabe como termina. Nesses processos, alguns podem obter nichos que se abrem circunstancialmente porque outros perderam espaço, mas, no fim, por meio dos preços das matériasprimas, isso afeta a todos os países. O Chile procura intensificar seus esforços, suas ações, ser mais ativo. No próximo ano, seremos os anfitriões da Apec [Fórum Ásia-Pacífico]. Temos também um papel a desempenhar na Aliança do Pacífico, sublinhando a importância do livre comércio. O presidente Pinera participou da reunião da Asean [Associação de Nações do Sudeste Asiático] como único não membro do bloco. O Chile se define pelo livre-comércio e defende o livre-comércio e os mercados abertos, com regras claras e transparentes e sem distorções, porque seu desenvolvimento nos últimos decênios se baseou justamente nisso. Todo seu êxito, sua integração ao mundo, a redução da pobreza, foi possível porque apostou no livre-comércio e a prática demonstrou ser exitosa. Temos boas relações com China e Estados Unidos. O Chile o que faz é, no marco apropriado, expressar seus interesses e suas diferenças no sentido de que o livre-comércio deve seguir predominando e que o protecionismo é daninho e que ninguém vai ganhar com isso.

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