Maradona ajuda a distender primeira conversa direta entre Bolsonaro e Fernández

Maradona ajuda a distender primeira conversa direta entre Bolsonaro e Fernández

30/11 - Conversa de trabalho aconteceu quase um ano após posse do argentino e depois da troca de muitas farpas e ofensas envolvendo até as famílias dos dois chefes de Estado

A morte do craque Diego Maradona ajudou a distender uma conversa que era difícil para ambos e na qual, segundo altas fontes governamentais, foi decidido deixar os desentendimentos para trás. Quase um ano após a posse do presidente da Argentina, Alberto Fernández, e depois da troca de muitas farpas e ofensas envolvendo até mesmo parentes dos dois chefes de Estado, foi possível uma conversa de trabalho com o presidente Jair Bolsonaro.

O diálogo durou quase uma hora e foi presenciado, do lado brasileiro, pelo ex-presidente José Sarney, o chanceler Ernesto Araújo e o secretário especial da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência, almirante Flávio Augusto Vianna Rocha. Do lado argentino estavam o chanceler Felipe Solá e o embaixador argentino no Brasil, Daniel Scioli, que, após o telefonema, disse ao GLOBO “sentir a satisfação de uma missão cumprida”.

A data escolhida celebra o encontro dos então presidentes Raúl Alfonsín e José Sarney, em Foz de Iguaçu, em 30 de novembro de 1985, que difundiu a ideia da integração econômica e política do Cone Sul, conforme os dois países deixavam para trás seus períodos ditatoriais. O encontro é considerado um primeiro passo importante para a fundação do Mercosul.

Scioli foi, de fato, o grande promotor da conversa, que foi anunciada previamente ainda no domingo pela Chancelaria argentina, mas não pelo governo brasileiro. Desde que chegou a Brasília, em meados deste ano, o embaixador se aproximou do governo brasileiro e de figuras-chave do círculo íntimo do presidente, entre elas Vianna Rocha e o deputado Eduardo Bolsonaro. Para o governo argentino, a conversa desta segunda-feira foi “excelente”.

— Este é um dia extraordinário e a partir de agora vamos avançar numa agenda de integração ambiciosa. Vamos organizar visitas de governadores argentinos ao Brasil, e a primeira já acontecerá semana que vem — comentou um eufórico Scioli.

A realidade é que este primeiro contato era fundamental para ambos presidentes. Com a Argentina mergulhada numa crise profunda, Fernández finalmente entendeu que precisa construir um relacionamento possível com o Brasil de Bolsonaro. As pressões empresariais são grandes. Pelo lado argentino, existe a convicção de que a derrota de Donald Trump nos Estados Unidos deixará o governo brasileiro mais isolado e, portanto, mais predisposto a tentar uma reaproximação com a Argentina governada pelo peronismo.

Segundo uma alta fonte do governo argentino, na conversa Fernández defendeu a necessidade de deixar para trás os desentendimentos e Bolsonaro esteve de acordo. Ao longo da conversa, o presidente brasileiro foi se soltando, e inclusive agradeceu à Argentina pela colaboração em questões sanitárias.

O início do diálogo foi facilitado pelo reconhecimento, por parte do presidente brasileiro, de que “Maradona foi um dos melhores jogadores do mundo”. Os argentinos teriam preferido a afirmação de que foi o melhor, mas se contentaram com o gesto de Bolsonaro.

Ainda segundo a fonte argentina, o presidente brasileiro propôs uma série de acordos em matéria de segurança, combate ao crime organizado e narcotráfico, circulação de pessoas durante a pandemia, revisão da Tarifa Externa Comum (TEC, já em processo) e desburocratização do Mercosul.

O presidente argentino também mencionou sua preocupação pela questão ambiental, e citou especificamente a Amazônia. Bolsonaro, segundo as fontes argentinas, não fez comentários.

Para Fernández, o contato com o presidente brasileiro representou um grande esforço, dada sua mágoa com Bolsonaro e seu filho, Eduardo, por ataques pessoais a seu filho, Estanislao, uma famosa drag queen em seu país. Para fontes argentinas, o chefe de Estado “fez um esforço enorme”, que deve ser entendido no contexto de uma crise gravíssima, já que "sem o Brasil não se pode avançar".

Para o governo brasileiro, a conversa entre os dois presidentes “foi muito boa, paz e amor total”. Houve troca de gentilezas, humor e cordialidade. Segundo uma fonte do governo, "foi uma conversa distendida, tranquila e com bom humor, na qual foi frisada a importância de trabalhar juntos pelos bem- estar e progresso dos dois países". Falou-se na possibilidade de um encontro pessoal no futuro.

De acordo com essa fonte, Bolsonaro disse que ao Brasil interessa que a Argentina esteja bem, assim como à Argentina interessa que o Brasil esteja bem. A Argentina agradeceu ao governo brasileiro o envio de medicamentos para tratar pacientes com Covid-19.

Além das gestões do embaixador argentino em Brasília, o Itamaraty também trabalhou intensamente para conseguir realizar a comunicação entre os dois chefes de Estado. O diálogo entre os chanceleres Araújo e Solá foi outro elemento central, comentaram fontes diplomáticas.

Nos últimos meses, o governo brasileiro reclamou do protecionismo argentino e suas consequências para o comércio bilateral. Exportações brasileiras, especialmente de automóveis, estão sendo barradas na fronteiras e sua entrada no país vizinho tem demorado mais de 90 dias, superando os prazos da Organização Mundial do Comércio (OMC) para a liberação das chamadas licenças não automáticas de importação. Fontes do governo brasileiro afirmaram que a tensão bilateral diminuiu recentemente pela decisão do Brasil de dar tempo ao país vizinho para sua recuperação.

Encontro com paraguaio

Nesta terça, Bolsonaro se reúne com o presidente do Paraguai, Mario Abdo. Os dois visitarão obras na fronteira e almoçarão na hidrelétrica de Itaipu. Será seu primeiro encontro presencial desde o início da pandemia.

O brasileiro e o paraguaio deveriam ter se reunido na reabertura da Ponte da Amizade, que ficou mais de sete meses fechada, em outubro. A reunião não aconteceu porque Abdo teria que ficar 14 dias em quarentena se cruzasse para o Brasil, já que as regras de isolamento determinadas pelo Paraguai são mais rígidas do que as brasileiras.

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