Mais um tombo da produção industrial

Mais um tombo da produção industrial

Setor desfruta de incentivos fiscais e de privilégios tributários quase permanentes, mas vem apresentando resultados decepcionantes, consequência da falta de um projeto nacional de indústria

Outra vez, o desempenho da indústria foi decepcionante. Caiu, em julho, 1,3% em relação ao nível de junho – segundo mês consecutivo de queda.

Tudo se passa como se as novas circunstâncias apenas ajudassem a acentuar a tendência para o definhamento, que já vem de longe. Assim foi com a pandemia e assim será com as crises de outras naturezas, como com este risco hídrico, como com a queda dos investimentos produzida pelas incertezas políticas ou fiscais. Se nada acontece, a indústria segue desmilinguindo mais devagar. Se acontece, vai desmilinguindo mais depressa, principalmente por falhas de política e por falta de um projeto nacional de indústria.

Desde meados dos anos 40 não mudou substancialmente a política de substituição de importações – a mesma que catapultou a indústria de transformação no Brasil. No seu princípio, a indústria deveria ser fortemente protegida até que criasse um mínimo de musculatura e de controle motor para então caminhar com suas próprias pernas. Mas ela continua precisando de andadores, não consegue tornar-se adulta e independente.

Não dá para dizer que lhe falta mercado. Qual é o país que dispõe de um mercado interno de 210 milhões de consumidores, praticamente cativo? Também não dá para insistir em que falta câmbio e que a indústria enfrenta juros altos demais. Foi esse o discurso que prevaleceu anos a fio entre os líderes da indústria e muitos economistas a ela ligados. Mesmo nos momentos de maior desvalorização da moeda e de juros reais à beira do negativo, a indústria não conseguiu sair da mesmice infantilizante em que continua prostrada.

Também não dá para dizer que faltam tecnologia e capital. Fábricas da Mercedes-Benz, da Ford e da Sony estão fechando porque não conseguem competir.

Ah... é o custo Brasil? Ora, o custo Brasil é o mesmo para todos e até mais acentuado para alguns setores que, no entanto, estão prosperando. O agronegócio não precisa de tanta proteção para ser um dos mais competitivos do planeta. Tampouco precisa de proteção o setor de serviços, que hoje corresponde a mais de 70% do Produto Interno Bruto, enquanto a participação da indústria total - que já correspondeu por mais de 30% do PIB brasileiro -, cai a cada ano.

A indústria nacional desfruta de incentivos fiscais e de privilégios tributários quase permanentes. É um Refis atrás do outro, como o viciado em nicotina que vai acendendo um cigarro na brasa do anterior...

Uma das consequências do excessivo protecionismo da produção industrial é a falta de acordos de comércio e a falta de integração global da indústria brasileira. Mas como ampliar acordos comerciais se até no âmbito do Mercosul não é possível emplacar uma área de livre comércio e a todo momento é preciso aceitar mecanismos de proteção e de restrições tarifárias impostos pelo governo da Argentina?

Até agora, pouco se pôde contar com as lideranças do setor cujo principal objetivo é viver de prestígio ou fazer carreira política e assim seguem alimentadas pelo sindicalismo patronal pelego e pelos recursos públicos surrupiados das instituições do Sistema S.

Quando cabe tudo e não se define o que é possível construir, o resultado é a perda de relevância. Assim, também, a indústria brasileira. As políticas ou a falta delas operam como se coubesse todo o tipo de produção industrial no Brasil. E, no entanto, a seleção natural que prevalece no mercado global se encarrega de fazer suas próprias escolhas. E levam ao encolhimento que hoje se vê.

Este é um momento em que as grandes transformações que sacodem o mundo criam condições especiais para que o País defina o que realmente pretende de sua indústria e como ela poderá se integrar no sistema global de produção e distribuição. Se nada for feito a indústria continuará definhando.

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