Maduro esvazia seu país

Maduro esvazia seu país

A situação na Venezuela não melhora. Já se sabe o que aflige o país: crises econômicas espiraladas que se sobrepõem (em grande parte provocadas pelo próprio governo) e desabastecimento nas lojas de alimentos, remédios e outros produtos básicos geraram má nutrição e pobreza e uma nova crise de refugiados no Hemisfério Ocidental.

A situação na Venezuela não melhora. Já se sabe o que aflige o país: crises econômicas espiraladas que se sobrepõem (em grande parte provocadas pelo próprio governo) e desabastecimento nas lojas de alimentos, remédios e outros produtos básicos geraram má nutrição e pobreza e uma nova crise de refugiados no Hemisfério Ocidental.

Meses de protestos nas ruas no ano passado acabaram subjugados por um governo cada vez mais autoritário, que substituiu o Congresso dominado pela oposição por uma nova Assembleia Constituinte, repleta de fieis ao presidente Nicolás Maduro. A instituição aplicou poderes radicais para coibir a oposição e pavimentou o caminho

Maduro, no entanto, permanece indiferente, e seus oponentes continuam perpetuamente divididos. Enquanto os partidos de oposição estão boicotando as eleições, um ex-governador venezuelano, Henri Falcon, anunciou sua candidatura presidencial na última terça-feira, oferecendo a Maduro um adversário pouco viável — e algum grau de legitimidade à eleição. Apesar de a oposição passar meses envolvida em rodadas de conversações mediadas internacionalmente com o governo Maduro, não há qualquer avanço político no horizonte.

Ao mesmo tempo, narrativas de degradação e privação emergem implacavelmente da Venezuela. Há relatos sombrios de presos buscando ratos mortos para comer, onças e leões perambulando pelos zoológicos, e mães atravessando fronteiras em viagens em busca de remédios para seus filhos.

Uma reportagem recente de meus colegas no “Washington Post” forneceu um retrato da trágica implosão do país: devido à falta de camisinhas e medicamentos, os hospitais estão repletos de pacientes com HIV, e o número de mortes relacionadas à Aids saltou; famintos e incapazes de lidar com os filhos, pais estão abandonando suas crianças em orfanatos. Má gestão e politicagem transformaram uma das nações mais ricas em petróleo num importador de gasolina, cuja economia está à beira do abismo.

Cerca de quatro milhões de venezuelanos — mais de 10% da população — já abandonaram o país, de acordo com a Brookings Institution. Trata-se de um êxodo com escala similar ao visto na Síria destruída pela guerra. De acordo com estatísticas da ONU de novembro passado, mais de 600 mil venezuelano fugiram para a Colômbia, cinco mil para a ilha caribenha de Curaçao, 20 mil para Aruba, 30 mil para o Brasil e 40 mil para Trinidad e Tobago.

Esse deslocamento ameaça criar problemas além das fronteiras da Venezuela. “O fluxo de pessoas já está sobrecarregando as economias da fronteira, escolas, sistemas de saúde e abrigos básicos em Colômbia, Brasil e até no Equador”, escreveu Shannon O’Neil, do Conselho de Relações Internacionais. “Os vizinhos caribenhos da Venezuela, muitos com instituições frágeis e ainda se recuperando dos furacões do ano passado, não estão equipados para atender a estas novas demandas. E os que estão fugindo ficam vulneráveis ao tráfico de pessoas e à extorsão, financiando organizações transnacionais criminosas de drogas. Este aumento ameaça alterar a política este ano em eleições na América Latina, quando cerca de dois em cada três eleitores escolhem e votam para eleger um novo presidente”.

Enquanto o presidente Donald Trump falou rispidamente sobre os excessos de Maduro e aplicou novas penalidades contra o regime venezuelano, os EUA não assumiram a liderança nos esforços para mitigar um crescente desastre humanitário. E nenhum venezuelano pode se sentir aliviado com a ampla plataforma anti-imigração de Trump, que incluiu o cancelamento do status de refúgio para dezenas de milhares de salvadorenhos, haitianos e possivelmente hondurenhos que foram acolhidos nos EUA após desastres humanitários em seus países.

A crise da Venezuela — um desastre histórico de uma das nações mais ricas da América Latina — pode ser o epílogo do experimento socialista lançado pelo presidente Hugo Chávez. O ex-presidente usou a vasta riqueza do petróleo do país para tirar milhões da pobreza, mas presidiu um sistema baseado em relações pessoais e corrupção que abalou o país por uma geração.

Enquanto a oposição tenta reunir forças para enfrentar o regime, analistas estimam que a maior ameaça a Maduro é interna, potencialmente do setor militar. O secretário de Estado Rex Tillerson sugeriu recentemente que Maduro poderia sofrer um golpe. “Na história da Venezuela e dos países sul-americanos, muitas vezes é o setor militar o agente de mudança, quando as coisas são muito ruins, e os líderes não conseguem mais servir ao povo”, disse ele em fevereiro.

Mas tal golpe ainda é improvável, observou o escritor mexicano Enrique Krauze num longo artigo publicano no “New York Review of Books”. “O Exército não está mostrando neste momento sinais de rebelião e, se tais sentimentos existem nas fileiras médias dos oficiais, os que as abrigam vivem sob o temor da espionagem cubana”, disse a Krauze o jornalista dissidente Miguel Henrique Otero.

Enquanto isso, Maduro e seus aliados continuam a apontar o dedo para o “imperialismo” que se mete nos poderes externos (leia-se: os EUA), ao mesmo tempo que agitam bandeiras do nacional-populismo. Maduro busca constantemente canalizar o legado de Chávez, embora poucos o considerem um herdeiro convincente.

À medida que se apega ao poder, Maduro pode precisar bem mais do que um aura mística para sobreviver. Se os percalços econômicos do país continuarem, uma erupção social é inevitável.

Ishaan Tharoor é colunista do “Washington Post”

 

 

 

www.prensa.cancilleria.gob.ar es un sitio web oficial del Gobierno Argentino