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Luís Fernando Serra: É estranho quando se vê 300 ONGs na Amazônia e nenhuma no Nordeste

Luís Fernando Serra: É estranho quando se vê 300 ONGs na Amazônia e nenhuma no Nordeste

Embaixador brasileiro na França diz que não é aceitável o G7 se reunir sem o Brasil e decidir que o país é uma questão internacional

O embaixador do Brasil na França, Luís Fernando Serra, diz que a escalada retórica entre Brasil e França por causa da gestão dos incêndios na Amazônia saiu do controle nos últimos dias, masque agora é hora de `virar a página`.

`Houve excessos de parte a parte`, afirmou, referindo-se aosinsultosde minístrosbrasileiros e do próprio Jair Bolsonaro ao presidente francês, Emmanuel Macron, e à sua mulher, Brigitte Macron que Serra descreveu na TV francesa, nesta segunda (26}, como `muito bonita, inteli gente, elegante e charmosa`.

O embaixador endossa as críticas de Bolsonaro à suposta ingerência internacional na região da floresta o presidente disse na semana passada que seu par francês manifestava `mentalidade colonialista` ao retratar a situação como`crise internacional.

Também ratificouo discurso de desconfiança sobre as ONGs que atuam na região. `Dá para desconfiar que tem uma agenda esc ondida quando você vê 300 ONGsna Amazônia e zero no N ordeste. Por que 55 milhões de nordestinos não merecem uma ONG, e os 25 milhões na Amazônia mereceram 300?

` Dito isso, ê preciso esquecer a rixa com a França, defende Serra, em nome do `patrimônio [comum] extraordinário` de uma relação bílateral de 500 anos que `é a mais completa que o Brasil pode ter com um p ais europeu`. LN

 Como o sr. recebeu a afirmação de Macron nesta segunda feira de que o Brasil merecia um presidente à altura do cargo?

Achei forte. Temos que virar a página e continuar na construção da parceria estratégica [`selo` que a rela ção bilateral franco-brasileira ganhou em 2008], aprofundar todos oslados da cooperação.

Ela é a mais completa que o Brasil pode ter com um pais europeu, porque, além de cobrir todos os aspectos do relacionamento bilateral, inclui o fronteiriço [na Guiana Francesa, território do país europeu] e o elo sentimental. Não tem nenhum país na Europa, nem mesmo Po rtugal, qu e tenha todos esses lados.

Temos muito a construir. O brasileiro e o francês se estimam, se conhecem, se adoram isso é motivação para que os governos  façam cada vez mais. É um patrimônio extraordinário, de5oo anos. São vínculos antigos: veja a missão [artística] francesa [no século 19], a missão que chegou nos anos 1930 para fundar a USP.

Apõ s os insultos c ontra o presidente francês esua mulher porpartedemeinbrosdo go verno brasileiro, a escalada retórica de Macron não era esperada?

Acho que, no fim do dia [segunda-feira], a tensão baixou. As bases [da relação entreospaíses] sãomuitosólidas: a admiração, a estima, o conhecimento recíproco.

 

Mas o senhor reconheceu na TV francesa que o nível da conversadegenerou...

Houve excessos verbais, de parte a parte. Quem começou foram os franceses, porque c hama ram o nosso presidente de mentiroso [na sexta-feira, 23].

Na verdade, o presidente Bolsonaro reagiu na véspera [quinta] a uma publicação na internet de Macron, falando que o francês tinha `mentalidade colonialista`...

Mas é evidente. Isso me lembra a Conferência de Berlim de 1884, em que europeus decidiram o futuro da África sem chamar os africanos. Dentro das fronteiras, aquilo que é nosso pedaço da Amazônia ê brasileiro, ponto final. Vai proporá internacionalização da Sibéria para o Putin... ora! Isso é um papo q ue não pode prosperar, entende?

 Ajuda internacional significaria necessariamente ingerência?

 Não. Ingerência ê decidir o futuro da Amazônia sem o Brasil. Todos os mecanismos de ajuda à Amazônia [até hoje] foram negociados com o Brasil presente à mesa. O G7 se reunir sem o Brasil e decidir que o Brasil é uma questão interna cionalnão é aceitável.

 A parte da Amazônia que está dentro das nossas fron teiras ébrasileira, não tem relativização de soberania nenhuma [possível]. Estamos de brincadeira? Estão pensando que o Brasil é o quê?

 E tem mais. Não vi um jornalista falar, em 2005, dos in cêndios na Amazônia. Em 2015, alguém disse que os in cêndios na Califórnia eram culpa do [ex-presidente dos EUABarack] Obama? Porra.

Todo mundo se virou con tra o Bolsonaro, sempre arrumando pretextoporque ele falou das ONGs [apontou- as como responsáveis pelo aumento das queimadas].

 Dá para desconfiar que tem umaagenda escondida quando você vê 300 ONGs naAmazônia e zero no Nordeste. Uma de duas: ou há agenda escon dida ou preconceito com os nordestinos. Escolham uma.

Por que 55 milhões de nordestinos não merecem uma ONG, e OS25 milhões na Amazônia mereceram 300? Ora, todo mundo sabe que tem ín dío quefalaholandês, norueguês e sueco, mas não fala português. Tá me entendendo?

O sr. teve algum contato nos últimos dias com o Ministériodas Relações Exteriores da França?

Nenhum. O embai xadorda França no Brasil me ligou para pedir um telefone.

Como fica a imagem internacional de comedi mento e pacifismo da diplomacia brasileira diante do fogo cruzado dos últimos dias?

O Brasil continua sendo incontornável. Isso não muda. Temos a quinta população do mundo [na verdade, a sexta] e a quinta superfície. Somos número 1 em diversos produtos agrícolas.

Na base de todo esse problemaestáofatode quenos sa agriculturaé muito competitiva. Isso incomoda.

O que será da relação francobrasileira daqui para frente?

A Agência Francesa de Desenvolvimento já financiou 1,9bilhão dc euros no Brasil. Somos o q uinto país mais importante para eles, que privilegiam projetos com energia limpa.

O plano para a construção de quatro submarinos co nvenc ionais e de um nuclear é coisa de 9 bilhões de euros, que serão entregues até 2029.

Foi construída uma base naval em Itaguaí (RJ) que é uma coisa de louco. Os fran ceses não nos achavam capazes disso. Hoje, estão chamando soldadores nossos. E tem mil empresas francesas no Brasil, com 500 mil empregos diretos. Queremos atrair mais. O Brasil, com a casa arrumada, vai decolar.

O sr. acha que Macron tem mesmo a intenção de não ratificar o aco rdo comerei al entre União Européia e Mercosul?

A oposição à ratificação do acordo na França ê muito dura, ainda que não se repita na Alemanha ou na Espanha, por exemplo. Não arrisco um palpite.

 Mais de 200 mil OSCs atuam no Nordeste

 0 Mapa das OSCs (Organizações da Sociedade Civil) termo usado como Sinônimo para ONGs, realizado pelo Ipea (instituto de Pesquisa Econômica Vai Aplicada), mostra que há 205.182 organizações que atuam no Nordeste brasileiro, nas mais diferentes áreas. Nos estados que compreendem a floresta amazônica no Brasil (AC, ARAM, MA, MT, PA, RO, RR e TO) há 105.851 entidades do tipo. 0 mapa é alimentado por fontes públicas e privadas atualizadas constantemente, [até e por informações enviadas G7 diretamente pelas OSCs e por entes federados.

 Luís Fernando Serra (69). Embaixador do Brasil na França desde julho deste ano. Formado em direito, foi encarregado de negócios do país na Alemanha, na antiga União Soviética, e no Vietnã, e depois embaixador em Cingapura (2011-16) e na Coréia do Sul (2016-18)

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