Lições do zap de uma senadora ao Itamaraty

Lições do zap de uma senadora ao Itamaraty

Rede de embaixadas do Brasil ainda reflete o século XX

Há algumas semanas circulou, em grupos de whatsApp com vários integrantes do governo, uma mensagem da presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, Kátia Abreu (PP-TO), chamando atenção para o desempenho recente da balança comercial: “Nossas exportações para a Ásia, excluindo China [grifo dela], são equivalentes a todas as nossas exportações para Estados Unidos e Argentina somados”.

Observações feitas pela senadora sobre dados relativos ao primeiro semestre: o Brasil exportou mais para Cingapura do que para a Alemanha. Vendeu mais para o Vietnã do que para a Suíça. Embarcou mais produtos para a Tailândia do que para a França. Mais para a Malásia e Indonésia do que para Itália e Portugal. Bangladesh tornou-se um comprador mais importante do que Austrália, Dinamarca, Israel e Finlândia - todos juntos.

Rede de embaixadas do Brasil ainda reflete o século XX
Em junho, três meses depois de ter sido estopim da demissão de Ernesto Araújo, Katia Abreu disse ter um acordo com o chanceler Carlos França para que pelo menos 30% das embaixadas brasileiras sejam chefiadas por mulheres. “Só tem homem nas sabatinas”, notou. Símbolo da presença feminina no Itamaraty, Thereza Quintella foi a primeira formada pelo Instituto Rio Branco com promoção para embaixadora - em 1992!!!

A senadora acertou em cheio no acordo de cavalheiros (péssimo trocadilho) com o atual chanceler. Agora, mesmo que não tenha sido seu propósito inicial, a mensagem viralizada nos grupos de zap da Esplanada suscita um debate: como a distribuição de postos pela rede diplomática brasileira ainda reflete a geopolítica do século XX.

As sete embaixadas do Brasil na Asean, o dinâmico bloco econômico do Sudeste Asiático, têm 29 diplomatas. Só na França, já desconsiderando organismos internacionais com sede em Paris, são 26. Na Suíça, onde existem seis representações brasileiras (embaixada em Berna, dois consulados-gerais, três missões em Genebra), há 45 diplomatas.

O Itamaraty mantém a mesma quantidade de postos na Bulgária ou na Hungria, respectivamente o 79º e o 106º destinos das nossas exportações, do que na Malásia (13º) ou na Tailândia (18º). Na disputa por mercado e influência em uma parte do mundo onde governos e empresas veem prosperidade, o Brasil leva de goleada. Em Bangcoc, por exemplo, há quatro diplomatas lotados. A Suécia tem 15, a China soma 48 em sua embaixada, os Estados Unidos 119 profissionais.

Diplomacia não se resume à dimensão comercial. Por laços históricos ou por necessidade de atendimento consular, passando pela densidade das relações econômicas como um todo, as embaixadas do Brasil em Lisboa ou em Londres provavelmente sempre vão continuar sendo mais bem equipadas do que no Sudeste Asiático. Não há problema.

O que merece mais atenção, com urgência, é verificar se existe alguma gordura para redirecionar pessoal ou reforçar estruturas - sem dúvida um desafio diante das limitações fiscais - onde a economia mais vibra no planeta atualmente.

O Banco Mundial prevê que países do Sudeste Asiático vão subir um degrau nos próximos anos e juntar-se ao grupo de países com renda alta. Eles têm se tornado fontes relevantes de investimentos em mercados emergentes. A Asean foi convidada neste ano para participar de encontros do G-7 como observadora. No plano político, a região é hoje um ponto privilegiado para se observar o rápido aumento da influência chinesa e a resposta ocidental.

A Câmara de Comércio Exterior (Camex) aprovou, recentemente, mandatos negociadores do Brasil para acordos comerciais com a Indonésia e o Vietnã. Missões empresariais sempre podem receber o suporte da Apex, mas um relacionamento econômico envolve outras frentes: acordos previdenciários, isenção de vistos, eliminação da dupla cobrança de tributos, serviços aéreos.

Estruturas diplomáticas tão enxutas comprometem esses esforços e têm outros reflexos: menos contatos com mídia local, com o ambiente acadêmico, agenda restrita com autoridades e empresários, menos identificação de oportunidades e ocupação de espaços. Na diplomacia e na competição entre países, assim como no futebol, quem pede recebe e quem se desloca tem preferência.

O mapa-múndi do Itamaraty, quando se fala na alocação de seus quadros, ainda dá a mesma importância ao Grupo de Visegrado e ao Sudeste Asiático.

Em seus “Diários da Presidência”, Fernando Henrique Cardoso relembra o episódio em que um experiente diplomata foi lhe pedir a indicação para uma embaixada, em 2002, e ele concordou. “Como eles gostam: na Europa”, escreveu o ex-presidente. É hora de mudar.

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