Libertários de ultradireita na Argentina rompem polarização com discurso agressivo

Libertários de ultradireita na Argentina rompem polarização com discurso agressivo

Jovens antiperonistas e resistentes ao macrismo veem economista Javier Milei como aposta para eleição legislativa

Um novo grupo político ganha força na Argentina, rompendo a polarização partidária com discursos agressivos e politicamente incorretos. São os libertários, que rejeitam tanto o kirchnerismo, corrente contemporânea predominante do peronismo, à esquerda, quanto o macrismo, que reúne forças de centro e de direita na coalizão Juntos, liderada pelo ex-presidente Mauricio Macri.

Para os libertários, os peronistas são "lixo comunista", e o macrismo, "populismo cool". A economia tem de ser liberal, e a segurança, tratada com estratégias linha-dura. O conservadorismo também é um traço forte do grupo, ainda que não se aplique a todas as pautas. Os libertários são a favor do matrimônio igualitário —"trata-se de um contrato"— e da legalização das drogas —"qualquer um tem o direito de se matar".

Porém, a concordância com temas tradicionalmente progressistas, mesmo que motivada por razões que não encontram eco na esquerda, para aí. Eles são, por exemplo, contrários ao movimento feminista que pressionou o governo a legalizar o aborto, porque consideram a prática criminosa e defendida por mulheres "radicais que odeiam homens".

Ainda dentro do pacote conservador, opõem-se a cotas para minorias e não aceitam outra definição de gênero que não a do sexo biológico. Tampouco concordam com a atual política de direitos humanos do Estado que já condenou mais de 800 atos de repressão ocorridos durante a ditadura militar (1976-1983).

Os libertários veem os processos como perseguição partidária e a Justiça como uma instituição unilateral, que não julga ações de guerrilheiros —a lei argentina entende que abusos de direitos humanos cometidos pelo Estado não prescrevem, diferentemente daqueles cujos autores foram civis.

As declarações mencionadas acima foram dadas pelo principal líder libertário, o economista Javier Milei, 50, conhecido pelo perfil histriônico e radical que exibe em programas de TV. Milei, que foi cantor de rock e goleiro do time portenho Chacarita, costuma andar descabelado e usar jaqueta de couro, características que não escondem as ambições políticas. Primeiro, quer ser deputado. Depois, quem sabe, presidente.

No lançamento de sua candidatura para as eleições legislativas que serão realizadas em 14 de novembro, fez um eloquente discurso diante de uma multidão aglomerada no bairro de Palermo, em Buenos Aires. O vídeo da ocasião foi republicado pelo deputado federal brasileiro Eduardo Bolsonaro (PSL-SP). Nele, Milei grita: "Não me meti nisso [na política] para guiar cordeiros, eu me meti nisso para despertar leões! Viva a liberdade, caralho!".

Antes, ele precisa passar pelas primárias, em 12 de setembro. Para que a candidatura seja aprovada, Milei precisa de ao menos 1,5% dos votos. A sondagem mais recente, da Management & Fit, lhe dá 9%.

"Toda vez que um espaço ideológico fica vazio, ele tende a ser ocupado por outro grupo. O macrismo foi para o centro, e o espaço da direita ficou livre", diz o analista político Sergio Berensztein. "Embora existam particularidades da política argentina, pode-se comparar o fenômeno com o que ocorreu com o PSDB migrando para o centro e o bolsonarismo ocupando o lugar da direita, com um discurso mais radical."

Por ora, afirma o analista, quem mais deve perder votos para os libertários é o macrismo, e por isso alguns líderes dessa coalizão tentam se aproximar de Milei, como a ex-ministra de Segurança Patricia Bullrich. Outros, preocupados com as ideias radicais do grupo, vêm marcando diferenças, como o próprio ex-presidente.

O fenômeno também se beneficia de um rápido desgaste político do atual mandatário, Alberto Fernández, que perdeu oito pontos percentuais de popularidade nas últimas semanas —hoje, está com 32%— devido ao escândalo da foto do aniversário da primeira-dama em julho de 2020. Na ocasião, enquanto os argentinos lidavam com a fase 1 do plano de combate à Covid, com uma quarentena rígida, Fernández e a mulher, Fabíola Yañez, realizaram uma festa para celebrar a data, descumprindo o decreto do próprio presidente.

"Também vêm influenciando essa queda de popularidade do presidente a má administração da pandemia, o mau desempenho econômico e o racha dentro do peronismo. A ala mais à esquerda do kirchnerismo, liderada por Cristina Kirchner [vice-presidente], está cada vez mais insatisfeita com Fernández", afirma Berensztein.

Os libertários têm em sua base militantes jovens, em geral entre 15 e 23 anos, de classe média e alta. Usam camisetas com o rosto de Che Guevara riscado e nas marchas gritam "os comunistas estão com medo, estamos chegando". Convocados por meio das redes sociais, os atos, que já tiveram a presença de grupos neonazistas, por vezes provocam tumultos. Os libertários negam a ligação.

Reunidos em associações estudantis e organizações militantes, como Pibes Libertários e Nueva Derecha, eles também encontram espaço em think tanks como a Fundación Idea ou partidos políticos, como o Avanza Libertad, pelo qual Milei disputará a eleição. Diversos colegas de chapa do economista são muito jovens, a exemplo de Delfina Ezeiza, 18, que diz ser contra "o feminismo comunista que impõe regras de comportamento coletivo" e que, em uma posição antidemocrática, já pediu a volta da ditadura ao país.

A youtuber libertária Lilia Lemoine, por sua vez, afirma que o grupo "gosta de debater com argumentos, raciocinar, enquanto os jovens de esquerda apenas repetem uma narrativa decorada que não entendem e que se desmonta quando confrontada com dados empíricos".

Sobre o feminismo, Lemoine diz que a Argentina "está dominada pela ideologia de gênero, indo contra a biologia". "Somos contra essas feministas que se manifestam mostrando as axilas peludas ou os seios." Outro influenciador libertário, Álvaro Zicarelli, afirma que o movimento é contra "ter de pensar quatro vezes antes de dizer algo porque qualquer deslize é lido como xenofobia, misoginia ou transfobia".

Para o ex-candidato a presidente José Luis Espert, 59, fundador do Avanza Libertad, o grupo é formado por "filhos de uma geração frustrada, que viram parentes perderem empresas, empregos e projetos". "Hoje, para eles, ser revolucionário é ser liberal e contra o modelo peronista que dominou as últimas décadas."

Na lista da legenda há, ainda, nomes que negam a repressão imposta pela ditadura na Argentina, como Victoria Villarruel, que lidera uma organização que exige reparação financeira a pessoas que considera vítimas da ação de guerrilheiros durante o regime militar. Ela também milita contra o aborto.

Para Myriam Bregman, advogada defensora dos direitos humanos e candidata pela Frente de Izquierda, os libertários "se apropriaram de uma palavra revolucionária como a liberdade para apresentar ao país um projeto retrógrado e cuja execução política só pode ser implementada por um regime ditatorial". "Não se pode ser um defensor da liberdade se você vai contra os direitos essenciais das mulheres."

No pleito legislativo de novembro, o Avanza Libertad, criado em 2020, estará nas urnas pela primeira vez. Antes, quando Espert, o fundador da sigla, concorreu à Presidência, em 2019, conseguiu menos de 2% dos votos válidos, bem atrás de Macri (40,3%) e do vencedor, Fernández (48,1%).

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