Lacalle Pou aproxima Uruguai do Brasil sem alinhamento automático

Lacalle Pou aproxima Uruguai do Brasil sem alinhamento automático

05:01 - Governo brasileiro espera que novo presidente do Uruguai passe a reconhecer o líder opositor Juan Guaidó como presidente legítimo da Venezuela

O presidente Luis Alberto Lacalle Pou toma posse na Presidência do Uruguai no domingo, sob a expectativa do Brasil de uma melhora nas relações bilaterais e um aproximação maior do país vizinho em temas sensíveis à política externa do governo Jair Bolsonaro. Mas analistas dizem ser improvável um alinhamento automático, dado o caráter moderado da coalizão que chega ao poder e devido à tradição de relativa independência da política externa uruguaia.

Lacalle Pou, de centro-direita, interrompe 14 anos de governos da Frente Ampla (centro-esquerda). Em Brasília, espera-se do novo dele uma maior afinidade com a agenda de negociações externas do Mercosul de caráter mais liberal patrocinada pelo governo brasileiro. E também uma postura mais explícita de condenação ao regime de Nicolás Maduro e da “defesa da democracia” na Venezuela.

O Brasil deseja que o Uruguai passe a integrar o Grupo de Lima. Formado em 2017, esse grupo reúne chanceleres de mais de uma dezena de países com o objetivo de tratar da “situação crítica na Venezuela”. A avaliação do governo Bolsonaro é que, embora relativamente moderados em comparação a outros países governados pela esquerda, os uruguaios vinham trilhando um “caminho solitário” até aqui.

O Uruguai governado pela Frente Ampla sempre se recusou a integrar o colegiado e, embora tenha condenado excessos do governo Maduro, vinha defendendo uma solução interna para a crise venezuelana.

O governo brasileiro também espera também que Lacalle Pou passe a reconhecer o líder opositor Juan Guaidó como presidente legítimo o país sul-americano. Além disso, há o desejo de que Montevidéu endureça posições contra Cuba e Nicarágua em instâncias como a Organização dos Estados Americanos (OEA).

O tema número um da agenda bilateral é, porém, o Mercosul. O Planalto quer garantir que o novo presidente continue afinado com o Brasil na agenda de abertura interna e externa do Mercosul. A avaliação é que, nesse caso, posições em comum com o Brasil surjam por uma afinidade natural entre ambos os governos nesse tema, mais do que por uma decisão política de Lacalle Pou.

Analistas ouvidos pelo Valor creem que o novo presidente será mais vocal em relação à Venezuela, sem comprar briga com a Argentina, governada pelo esquerdista Alberto Fernández. Tampouco se espera que Lacalle Pou queira associar sua imagem à de Bolsonaro.

“Minha suspeita é que Uruguai adotará posições segundo os assuntos da agenda e os momentos do relacionamento na região, calculando as posições para se equilibrar”, diz o cientista político uruguaio Camilo López. “O novo governo deve ser muito mais crítico com a crise na Venezuela. Mas tem que esperar para ver. A política uruguaia é muito gradualista.”

Na opinião de López, pela “tradição de fazer política dos ‘blancos’”, como é conhecido o Partido Nacional, de Lacalle Pou, “é provável que a política externa tenha uma visão realista, calculista dos interesses para o relacionamento”. “Não vai haver um alinhamento automático com o Brasil nem com a Argentina”, disse. “O jogo de posições se dará sempre dentro da estrutura das regiões.”

Para Pedro Silva Barros, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), haverá mudanças significativas na política externa uruguaia em temas regionais como o Mercosul e o Grupo de Lima. “A tendência é que passe a fazer parte do Grupo de Lima e a acompanhar a posição da maior parte dos países da região sobre Venezuela”, afirma. “Isso significaria uma aproximação com o Brasil.”

Segundo Silva Barros, o Uruguai vinha liderando com outros países como o México nos últimos anos as várias tentativas feitas para estabelecer diálogo com a Venezuela. Agora, deve adotar uma posição mais crítica em relação a Maduro.

No Mercosul, diz, o país deve ter uma posição mais aberta, sem nenhum tipo de restrição a acordos como o do bloco sul-americano com a União Europeia.

“Mesmo no atual governo, já havia posição mais para pró-abertura. Mas agora essa postura vai ser muito mais externada”, afirma.

O pesquisador também acredita que o novo presidente “vai marcar desde o início uma posição de independência em relação tanto ao Brasil como a Argentina”.

“O Uruguai é um país muito pequeno diante dos outros dois, não vai querer provocar mal humor de Brasil e Argentina em temas sensíveis. A postura deve ser de independência, mas não conflitiva.”

Fontes do governo brasileiro também esperam retomar com Lacalle Pou uma agenda bilateral que esteve “adormecida” durante o primeiro ano do governo Bolsonaro. Temas de fronteira e combate a delitos fronteiriços e ao crime organizado deverão voltar a ser tema de conversas mais frequentes entre os dois países.

Na visão de interlocutores do presidente Bolsonaro, ficava difícil tocar essa agenda diante de visões de mundo tão distintas quanto a de Bolsonaro e a da Frente Ampla.

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