´Juros só devem voltar a subir na metade de 2021´

´Juros só devem voltar a subir na metade de 2021´

ENTREVISTA Luiz Fernando Figueiredo, presidente executivo da Mauá Capital

Para economista, nível da taxa hoje não é de equilíbrio estrutural, mas sim estimulativo, para impulsionar a economia
O economista Luiz Fernando Figueiredo, presidente executivo da Mauá Capital e ex-diretor do Banco Central, conversou com o E-Investidor, serviço de finanças pessoais do Estadão, sobre o corte na taxa básica de juros para 2%, feito ontem pelo Comitê de Política Monetária do BC, e seus efeitos nos investimentos. A seguir, os principais trechos da entrevista.
0 que o Comitê de Política Monetária ponderou para decidir por mais uma redução?
O Copom deu alguns sinais para o mercado. Ele fez a redução que o mercado estava prevendo e deixou a porta semiaberta. Não está escancarada, ou seja, ele não vai mexer na taxa na próxima reunião. Mas também não fechou essa porta. O Copom espera manter essa política monetária estimulativa (com juros baixos) por bastante tempo. Para mudar essa postura, ele precisa ver uma mudança nas expectativas e projeções de inflação que seja suficiente para isso.
Quando 0 BC deve voltar a elevar a taxa de juros?
Pelo tom do comunicado, a expectativa é que isso ocorra bem mais para a frente. Nas nossas contas, a taxa de juros deve começar a caminhar para uma normalização no fim do primeiro semestre de 2021, ou no início do segundo semestre. O que é um horizonte longo: os ciclos do BC sempre foram muito mais curtos. O que o BC está dizendo é que, até onde ele consegue enxergar, manterá os juros bastante baixos. Todo mundo sabe que a taxa de juros de hoje não é de equilíbrio estrutural, é estimulativa, para impulsionar uma economia que está fraca. Do ponto de vista técnico, já existia uma razoável ociosidade da economia antes da covid-19. Com a pandemia, isso se ampliou muito. Como a retomada está sendo gradual, essa ociosidade cairá muito lentamente e nesse ambiente é muito difícil haver pressão inflacionária. O que o BC vê é o quanto esse hiato de ociosidade diminui, e ele só deve zerar no fim de 2021 ou início de 2022.
0 novo patamar de juros complica ainda mais a vida do investidor. Que classes de ativos e modalidades de investimento tendem a ganhar mais espaço?
Vou dar alguns passos para trás antes de responder. Antigamente, o Brasil tinha um juro estrutural de dois dígitos porque tinha uma política econômica equivocada. O setor público era expansionista, e para fazer frente aos gastos elevados o BC era obrigado a elevar os juros na outra ponta. Era um equilíbrio muito ruim, que dependia de juro real elevado. Quando o governo não pode ou não consegue mais ampliar os gastos, deixa de haver essa força expansionista na economia, e isso traz o juro para um outro patamar. Antes, o investidor não precisava correr risco algum, a situação era muito confortável. Só que, no mundo inteiro, quem quer ter rentabilidade acima da inflação precisa correr algum risco, esse é o normal. Isso não era normal aqui, e agora será. Mesmo antes da covid-19, já se via uma migração gradual de ativos de menor risco para outros de maior risco. Com a pandemia, isso se agravou para o investidor de curto prazo, porque o juro ficou muito baixo. E ficará baixo em um horizonte bastante largo. O resultado é que o investidor terá de procurar ativos de maior risco para ter alguma rentabilidade no portfólio. O Brasil está se tornando um país mais normal. Na Europa, a carteira de um fundo de previdência tem entre 50% e 60% de ações. No Brasil, 80% das carteiras têm renda fixa tradicional.
Quem sai ganhando com uma taxa de juros tão baixa?
A resposta correta é: o País inteiro. O País está ficando mais normal. O juro é como uma febre: se tem juro estrutural mais baixo, tem menos febre, tem menos problema. A covid- 19 é uma situação anormal, em que o juro no mundo inteiro está mais estimulativo. Isso atenua a dor desse processo de queda tão grande da atividade econômica. No Brasil, entre 85% e 90% das empresas tomam empréstimos atrelados à Selic. Quando ela cai, é redução de custos financeiros na veia. A dívida pública federal, metade dela é atrelada à taxa básica. Quando ela cai, o alívio é imediato.
Quem comprar títulos prefixados ou atrelados à inflação corre risco de ter perdas com a elevação dos juros. 0 sr. diria que esses investidores devem preferir papéis com vencimentos mais curtos, para reduzir o risco?
A trajetória de queda da Selic só vai começar a se inverter na metade do ano que vem. A curva de juros no Brasil ainda carrega um prêmio de risco muito alto. Então, quem ficar nesses papéis mais longos vai ter um ganho de capital bastante razoável. Claro que, um ou dois meses atrás, esse prêmio de risco era muito maior, pois a incerteza era maior. Mas o prêmio de médio e longo prazos ainda é bastante relevante.

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