Jovens não conheceram a ditadura militar ou o modelo neoliberal

Jovens não conheceram a ditadura militar ou o modelo neoliberal

Ex-presidente da Bolívia afirma que perdeu apoio de parte da nova classe média que ajudou a formar mas que tem novas demandas; diz acreditar, porém, que, após ter sofrido um golpe, seu partido ganhará as próximas eleições

`Moníca, bom dia. Uma consulta: poderíamos fazer a entrevista no seuhotel? Não temos disponível o endereço que eu te dei`, escreveu por WhatsApp o ex-chanceler da Bolívia Diego Pary Rodríguez horas antes da entrevista de Evo Morales à Folha, marcada para as íih de quinta-feira (28).

 Uma sala foi improvisada às pressas no hotel íbis. Pouco depois, Evo chegou acompanhado por três seguranças.

Asilado no país há quase 10 dias, ele estava saindo de um campo militar onde foi abri gado pelo governo e buscava uma casa para morar. Terá que viver por conta própria.

O ex-presidente, que agora faz o próprio café da manhã e reaprendeu a arrumar a cama, ainda não decidiu se ficará no México ou se mudará para a Argentina, onde também tem garantido asilo político.

Diz que pre tende volt ar à Bolívia, ainda que não seja candidato a presidente. `Não sou nenhum delinqüente` afirma.

Na entrevista, Evo respon deu às críticas, feitas até por aliados, de que errou ao tentar um quarto mandato presidencial consecutivo. Falou sobre a participação dos mi litaresno que definiu inicialmente como um `golpe cívico, político e policial` e reconheceu que parte da `nova classe média` da Bolívia, que emergiu em seu governo, acabou não se identificando com ele.

 O ex-presidente revelouainda como se embrenhou na selva depois de renunciar e saiu da Bolívia quase sem roupa e sem documentos.

 

O senhor  conversou com Lula por telefone há alguns dias. Sobre o que falaram?

 Eu conheci o Lula em encontros como o Foro de São Paulo e de Porto Alegre. Eu era dirigente, camponês índio, e ele, operário. Depois, ele se tornou presidente [em 2003]. Quan do eu era candidato à Presidência [da Bolívia, em 2005], tivemos bonitas conversas.

 Ele me expressou toda a sua solidariedade e me convidou para visitá-lo em sua casa no Brasil. Eu o vi muito forte, como sempre. Conversamos sobre a Bolivia. Estou sendo acusado desediçáo, de terrorismo e se supõe que sou discriminado r e racista agora? Como alguém pode agüentar essa injustiça?

Ele foi solidário e humano. Sempre respeito o irmão Lula.

 

Ele já disse que o senhor errou ao tentar o quarto manda to [a Constituição da Bolivia permite doismandatos. Evo, em 2016, perdeu o referendo que propunha que a regra fosse modificada. Ainda assim, autorizado pelajustiça, concorreu às eleições].

Na minha atividade social, sindical, eleitoral e política, nuncame conduzo com cúpulas, mas sempre escutando o povo.

 A Central Obrera Boliviana e o utro s setores sociais disseram queo único candidato [a presidente em 2019] era Evo Morales. Se cometi algum erro, foi ter aceitado [a vontade] do povo. Não sei se foi um erro no final. Houve uma eleição. Ganhamos no primeiro turno.

 Mas a Constituição, feita sob seu governo, prevê dois mandatos presidenciais. O senhor perdeu o referendo e insistiu na candidatura. Não passou do limite do respeito às regras?

Lamentavelmente foi o referendo da mentira. Foi uma campanha suja contra mim. Há advogadosque estão na prisão e outros que fugiram do país porque montaram uma mentira, Por que tanto medo de Evo? Por que usartanta mentira para ganhar o referendo?

Houve acusações de uso de fabenews na votação do brexit, na Inglaterra, e na eleição presidencial do Brasil. Mas os derrotados reconheceram os resultados. O senhor, não.

Poderíamos derrubar legalmente o referendo, devido às fraudes. Mas isso não ocorreu, e a Constituição não foi modificada.

O que fizeram, frente a isso, os movimentos sociais? Buscaram outro caminho, legal,baseadoemjurisprudê ncia inte rnacional, em tratados de direitos humanos [a corte ooiisti tucional da Bolívia foi acionada e considerou que a limitação de mandatos feria direitos humanos e políticos de Evo].

Os movimentos disseram: `Vamos lá, tudo pelo processo de mudança. Foi demonstrado que a Bolívia tem muito futuro e isso não pode parar`.

 Sabe, nosso inovíme nto político sebaseianosmovimentos sociais. Nós quebramos a doutrina norte- americ ana, de pluralismo ideológico e independência sindicalouseja, sin dicato não pode fazer política.

Os movimentos campesino e indígena disseram: `Não. Temos o direito de fazer política`. A nossa geração resolveu passar d a luta sindical â luta eleitoral Edecidiram; Evo candidato.

Nós mostramos que a Bolívia tem esperança. Antes, nos faziam cantar o `Lamento Boliviano`. Em 1985,no neolib eralismo, diziam: `A Bolívia está morrendo`. E para que ela não morra [é preciso| privatização, privatização.

 Por que agora esse golpe? Eles não perdoam porque nacíanalizamos. Mudamos amatriz econômica eaBolívia cresceu.

Uma vez eu tive umproblema com Lula [dá risada]. Quer que te conte? Quandonacíonalízamos [o gás, que era explorado pela Petrobras], Lula se irritou.

É que o senhor nem sequer o avisou.

 

Quando fui eleito [ pai a o prime íro mandato, em 2005 ], Lula me disse: `Evo, vamos trabalhar juntos, comunique-se comigo. Se eu não puder falar, ligue para o professorMarcoAurélio [Garcia, então assessor de assuntos internacionais do governo].

Eu liguei para o Marco Aurélio [em 2006, quando decidiu nacionalizar o gás]. Ele não atendeu. Chegou o dia i° de maio, nacionalizamos.

Lula não ficoubravo por isso, mas porque entrei na Petrobras com as Forças Armadas. Isso deixou ele zangado.

Depois expliquei a ele: a Petrobras pode ser sócia, mas não vai ser a dona dos meus recursos naturais. [Lula disse] `Sim, Evo, eu já sei, já sei`. E o assunto ficou resolvido.

Há uma análise de que, pelos méritos de seu governo na área econômica, o senhor po deria ter saído do cargo pe Ia porta da frente. Não fez isso por tentar ficar no poderá qualquer custo.

Eu aceito e estou acostumado a receber críticas. Mas o importante é fazer história.

Fui o presidente damelhor história danossa amada Bolívia. Ninguém pode negar isso. Não fizeram emi8o anos o que fizemos em quase 14 anos. Foram recordes de redução da pobreza, de crescimento, de diminuição da desigualdade. Os dados estão aí. As futuras gerações vão julgar.

O senhor em 2005 ganhou com 53% dos votos, chegou a 64% em 2009 e a 61% em 2014. Neste ano, teve 47%. Porquea queda?

Estamos vivendo esse momento, é parte da política.Mas voltaremos a atingir 0S3 milhões de votos daqui a pouco. Te juro [ergue o braço com a mào fechada].

 Mas por que perdeu tanto?

As novas gerações não conheceram como viviam as pessoas na ditadura militar ou nas ditaduras do modelo neoliberal. Tem crianças, jovens, que acham que se vivia em boas condições, com telefonia celular, crescimento, universalização dos benefícios sociais. Eles nasceram e viveram isso e, imagino, querem outras conquistas. Nós fizemos essa nova classe média e ela tem outras demandas.

E partedela não se identifica com o senhor?

 Foi crescendo a mentalidade de luxo, lucro.

E ela tem preconceitos. O papel das redes sociais nisso também ficou claro. Me dói ter que enfrentar grupos violentos. Não entendo como, depois de tantos anos, nasce o fascismo e o golpismo.

 

Não seise, depois [daeleição do presidente Donald] Trump nos EUA, essa onda nãocomeçoua crescer.Fortaleceram-se grupos fascistas no mundo e agora isso chegou à Bolívia.

O senhor definiu a sua saída do cargo como um golpe cívico, político e policial. Só depois incluiu nele os militares. Qual foi a participação deles?

 O golpe de Estado começou em 21 de outubro, no dia seg uinte à eleição, quando Carlos Mesa [candidatoadversário] não reconheceu os resultados. Nesta tarde, centros eleitorais foram incendiados, e a polícia suspeitosamente se afastou.

A suspensão da divulgação dos resultados não ajudou a criar essa atmosfera de desconfiança?

 A pergunta deveria ser feita ao Tribunal Eleitoral [que tomoua decisão], Mas suspenderam a contagem rápida [dos votos], e não a oficial. Um relatório preliminar dizia que eu ganhava com sete pontos percentuais a mais de votos [eram necessários dez de diferença em relação ao segundo colocado para que a eleição fosse decidida em primeiro turno]. E eu dizia: esperemos os votos da região rural. Em uma comunidade indígena, ganhamos com 97%.

Começaram a queimar tribunais, mas o objetivo era queimar as atasde escrutínio que chegavam das áreas rurais.

Mas o senhor ainda estava decidido a seguir na Presidência?

 Nós exigimos que se respeitassem os resultados. O golpe foi também de caráter internacional: a OEA [Organização dos Estados Americanos] se soma a ele na madrugada do domingo {10) [ao divulgar um infonne preliminar apontando irregularidades].

 Meu erro foi ter confiado no LuisAlmagro [secretário-gera] da OEA].Ele veio à Bolívia em inaío e disse: `Evo está habilitado [a ser candidato]`. Sobrevoou uma concentração de helicóptero, [disse] `impressionante como Evo con voca isso`, `Evo é histórico`.

Quando a direita começa a falar de fraude, o que fizemos? [Pedimos] umaauditoria eleitoral [comandada pela OEA]

 Os técnicos diziam que ela seria divulgada no dia 13. Mas, na madrugada do dia 10, já havia um informe preliminar [apontando irregularidades].

Eu disse aeles [OEA]: `Vocês vão incendiara Bolívia. Haverá mortos por culpa de vocês`.

 Mas o senhor confiava na OEA e concordou com a auditoria. Porque não aceitar o resultado?

O que disse a OEA? `Evo ganhou, mas pode ser que não [tenha vencido] no primeiro turno`. Então por que não disseram `vamos ao segundo turno?` Por que sugerem novas eleições? Isso é golpe.

O senhor mesmo convocou novas eleições neste dia.

Novas eleições, com novos atores.Tudo pela paz. Se não querem Evo candidato, nenhum problema. Mas, como era um golpe de Estado, [passaram a exigir que] Evo não termine seu mandato, Quenão saia pela porta, mas sim pela janela. Foi um plano para criminalizar o movimento indígena, em especial Evo Morales.

Quando a OEA respaldou sua candidatura, o senhor con fiava em Almagro. E agora não confia. Não é uma con tradição?

 Eles é que estão demonstrando a sua contradição. Estou convencido: são imposições dos Estados Uni dos Almagro não responde aos movimentos sociais humildes que lutam po r sua libertação. Responde a um sistema.

 E até agora, depois de 15 dias [do informe preliminar], não há um informe final. Estamos organizando uma comissão da verdade. Já temos dois infonne s [pegaumpapelelê]: de Walter Mebane, da Universidade de Michigan, e do Centro de Investigação Econômica e Política de Washington [que divergem da OEA]. Em uma investigação profunda, [com checagem] voto por voto, mesa por mesa, sei que ganharíamos com mais votos.

Em que momento, depois de anunciar novas eleições, decidiu também renunciar?

Do racismopassaramao fascismo. Começaram a perseguir militantes e autorid ades do nosso governo. Queimaram suas casas e ameaçaram queimar suas famílias para que renunciassem. Na sexta (8), a polícia se amotina e se soma ao golpe.

Queimam a casa da minha irmã. Saqueiam a minha casa. Nãohápolícia. Queimam a c asa do presidente da Câmara, que renuncia. Os companheiros se mobilizam para, na segunda {11), recuperar a praça Murilio [110 centro de La Paz] e a Casa Grande dei Pueblo [sede do governo]. A polícia, amotinada, ia meterbala, massacraria meus companheiros. Renunciamos [no dia 10] para que não houvesse massacre.

A decisão foi tomada antes de os militares sugerirem a sua renúncia, no mesmo dia 10?

Estávamos em debate. Agora, claro, se eu não poderia usar as Forças Armadas para enfrentar [a polícia], o massacre ocorreria. Feliz mente evitamos isso. Depois da minha renúncia, houve33 mortos a bala em dez dias. Na minha gestão, não houve uma pessoa morta a bala.

Depois de decidir pela renúncia, o que o senhor  fez?

 Um dia antes da renúncia, um oficial da equipe de segurança do Exército me disse: `Quero mostrar essas mensagens e chamadas telefônicas`. Elas diziam: `Entreguem Evo. Nós nos responsabilizamos pela parte operativa. Temos 50 palos grandes`, ou US$ 50 mil, em troca de me entregarem.

 No domingo (10), decidimos ir para [a região de] Chimoré, lu 11 lugar mais seguro para anunciar a nossa renúncia.

Eu estava em El Alto [cidade vizinha a La Paz]. Quando ia levantar voo, o coronel Guzmán, comandante do grupo presidencial, não quis me levar a Chimoré. `O que acontece, Guzmán? Que argumentos você tem?` Tive que ligar para o comandante da Forca Aérea boliviana, que deu a ordem. E assim levantamos voo.

Na chegada, em vez de ir para o terminal civil, me levaram para o terminal militar. Vejo então na pista carros de dirigentes sindicais e de prefeitos, em alta velocidade.

 Saí do aeroporto com eles. Estou convencido hoje de que, senão fossemmeus irmãos dirigentes, eu teria sido preso.

O senhor teve medo de morrer ou de ser detido?

 Eu sou muito sereno. É pátria ou morte. Há dois caminhos para um político anti-imperialista: ser mártir ouherói. Não há outro. Estou convencido.

O que aconteceu depois?

 Entramos numa trilha pelaselva, para ter mais segurança.

Estava apenas com a roupa do corpo?

 Como viajo bastante, sempre tenho unia maleta de roupa. E isso era tudo. Estava sem documentos. Porque a gente [chefes de estado] nunca leva isso. Alguém leva.

 No dia seguinte, o Paraguai nos ofereceu asilo. Mas não havia logística. O México também ofereceu. O avião do México ia chegar. Meus companheiros suspeitaram de movimentos de militares. Em umahora, mais de 10 mil pessoas se concentraram na porta do aeroporto de Chimoré.

Às 11 h, me avisaram que a aeronave não pousaria, pois não eram permitidos aviões militares [naregião],Mechamaram dos EUA para dizer que pode riam emprestar um avião para me levar aonde eu quisesse. A mim me causou risos. `Vão me levar para [a prisão de] Guantánamo.` Porfim, às-2iÍi´.i5,cliegouo avião. Entramos, emocionados.

Alberto Fernández [presi dente eleito da Argentina] chamava, [Nicolás] Maduro chamava. Miútos pelo mundo estavam preocupados. O México salvou as noss as vidas.

Como é a sua vida no México?

 É acordar cedo, tomar banho e só comer, dormir e me comunicar. Só isso.

Em duas noites eu já aprendi a arrumar a minha cama, fazer o café da manhã. Graças à solidariedade, temos um pequeno apartamento para poder viver. Uma casa normal.

Seu partido, o MAS (Movimento ao Socialismo), participará das próximas eleições mesmo que o senhor não possa voltar à Bolívia?

O Departamento de Estado dos EUA reconheceuumaautoproclamada presídentedefato [JeaníneAííez, que hoje comanda a Bolívia]. Isso já é prova de que parti ciparam do golpe de Estado.

O que diz o Departamento de Estado? [Que sejam fei tas] eleiçõeslivres, transparentes e limpas. Então não pode haverperseguidos políticos nem exilados. Que classe de eleições seriam essas? Que classe de democracia?

 Evo não será candidato, já es tádecidida Éumadecisãopolítica, pronto, acabou. Esseé o sacrifício que eu faço para pacificar aBolívia. `[Mas] Evo não pode voltar à Bolívia` O que é isso? Isso não é eleição limpa, nem transparente, nem livre.

 O senhor não teme voltar à Bolívia? Confia nas instituições?

 Não sou corrupto, não sou nenhum delin quente. Tenho o direito de voltar. Há um governo de fato, com 33 mortos em dez días.

Como podemos confiar? É sua obrigação nos dar as garantias correspondentes.

Ainda que não volte. O MAS vai participar?

Claro, vai participar; Vamos ganhar as eleições, não sei se em primeiro turno.

Quem será o candidato?

Ain da não está definido. Estamos em contato com sindicatos, movimentos sociais, comunidades, escutando [ para definir] como organizamos.

 O senhor não vai participar dessas eleições. Mas e no futuro, pode participar de novo?

Isso veremos.

Não é uma decisão para toda a vida?

Não,não,não.Poragora estamos falando da próxima eleição. Evo não é candidato. E queremos, assim como os EUA e a direita dizem, eleições livrese transparentes.

Quero dizer que, com Evo ou sem Evo, nosso processo de mudança vai continuar na Bolívia. Muito obrigado.

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