Itamaraty veta honraria a desafeto dos EUA

Itamaraty veta honraria a desafeto dos EUA

Formandos da carreira de diplomacia convidaram José Maurício Bustani como paraninfo; Itamaraty nega ingerência

O comando do Itamaraty, chefiado pelo ministro Ernesto Araújo, interferiu na formatura dos alunos do Instituto Rio Branco deste ano evetouuma homenagem que os fonnandos planejavam fazer ao embaixador aposentado José Maurício Bustani.

Os alunos da escola de formação de diplomatas do Itamaraty formalizaram em fevereiro o convite para que Bustani fosse paraninfo da turma, em reconhecimento ao período em que ele chefiou a Opaq (Organização para a Proibição de Armas Químicas), uma agê nc ia da ONU.

Mas a indicação foi barrada pela cúpula do Itamaraty, segundo relataramdiplomatas à Folha. Bustani con firmou a informação.

De acordo com esses diplomatas, quepedíram anonimato por temerem represálias na carreira, a seleção de Bustani como paraninfo criaria uma saia justa para Araújo e para o presidente Jair Bolsonaro, uma vez que é tradição que o mandatário compareça à cerimônia de formatura.

Isso porque embaixador ap osentad o pro (agonizou u in conflito no passado comjohn Bolton, hoje conselheiro de Segurança Nacional da Casa Branca e um dos principais interlocutores entre os governos Bolsonaro e Trump.

Em nota, o Itamaraty negou a ingerência e disse que nem Araújo nem a alta chefia da pasta tomaram conhecimento do convite feito a Bustani.

Diplomata de extensa carreira, Bustani foi forçado a deixar a direção-geral da Opaq em 2002 por pressão direta de Bolton, então subsecretário para controle de armas e segurança internacional do governo George W. Bush.

Bustani argumentava que o Iraque de Saddam Hussein não possuía um arsenal químico. A existência dessas armas foi o principal argumento dos EUA para invadir o Iraque en 2003. Posteriormente, ficou provado que o ditador náo tínha esses armamentos.

Questionado pela Folha, Bustani disse que de fato foi procurado em fevereiro por alunos do Rio Branco, que lhe fizeram o convite para ser paraninfo. A justificativa dada pelos alunos para a escolha, relatou Bustani, foi seu desempenho à frente da Opaq.

O embaixador aposentado disse aos alunos que aceitaria a homenagem, mas pediu que eles primeiro consultassem as `instâncias superiores` do ministério.

`Eu disse para que eles pri meiro verificassem dentro da casa [Itamaraty] quala repercussão, se seria uma coisa viável ou não. Ponjue eu não qu eria criar nenhum problema para a turma, náo queria que ela ficasse marcada por um confronto ou qualquer coisa do tipo`, afirmou Bustani.

`Algumas semanas depois eu recebi a comunicação de que realmente o meu nome não tinha sidoaprovado. Ponto. Não disseram nem onde nem porquê`, concluiu.

A assessoria de imprensa do Itamaraty informou que a turma escolheu a embaixadora Eugenia Barthelmess como paraninfa.

Passados mais de 16 anos desde a saída de Bustani da Opaq, Bolton é hoje um dos principais auxiliares de Trump nas áreas de relações exteriores e de defesa.

Antes da posse, em i°de janeiro, Bolton viajou ao Rio de Janeiro e se encontrou com Bolsonaro, então presidente eleito. Ele é um interlocutor de Araújo, com quem se encontrou quando o chanceler viajou a Washington, em fe vereiro, para preparar a visita presidencial aos EUA.

Bolton é um dos represen tantes da ala mais linha-dura do governo americano. Ele já classificou, por exemplo, os regimes de Venezuela, Nicarágua e Cuba como `troica da tirania` no continente.

As turmas do Rio Branco sãoformadas por diplomatas em início de carreira, que passam por um período de formação no instituto antes de trabalharem no ministério.

Os diplomatas que se graduam neste ano estiveram dois semestres na escola, que entre outras áreas dá aulas de planejame nto diploma tico e história da política externa brasileira.

Apóso início de sua gestão, Araújo estendeupara três semestres a duração do curso.

Todos os anos, os formandos escolhem um paraninfo, que é um diplomata sênior admirado pela turma, e um patrono, que também vira o nome da turma.

Em 2018, ainda no governo do ex-presidente Michel Temer, os diplomatas escolheram como patrona Marielle Franco, vereadora no Rio de Janeiro e militante dos direitos humanos assassinada em março daquele ano.

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