Itamaraty vai trocar até 40 embaixadores

Itamaraty vai trocar até 40 embaixadores

Mudança afeta postos como UE e Pequim; África do Sul silencia sobre indicação de Crivella

O Itamaraty terá sua primeira dança das cadeiras sob comando do chanceler Carlos França. Nas próximas semanas, a chefia de importantes representações diplomáticas no exterior passará por mudanças, que precisarão ser confirmadas pelo Senado - com sabatina e votação em plenário.

O Valor apurou que haverá a troca de até 40 embaixadores. Um constrangimento nos bastidores, entretanto, permeia esse ziguezague: o ex-prefeito do Rio Marcelo Crivella (Republicanos), escolhido em junho pelo presidente Jair Bolsonaro para ocupar a embaixada do Brasil na África do Sul, até hoje não recebeu aval de Pretória. O silêncio do governo sulafricano é interpretado, por diplomatas experientes, como sinal de insatisfação com o nome.

Nas mudanças que vêm por aí, o embaixador Pedro Miguel Costa e Silva assumirá a missão do Brasil junto à União Europeia, em Bruxelas. Atual secretário de Américas do Itamaraty, ele foi o principal negociador brasileiro do acordo de livre-comércio UE-Mercosul. No novo posto, terá papel-chave para sua efetiva assinatura e ratificação, com a dura tarefa de convencer autoridades e eurodeputados a aprovar o tratado, que recebe críticas de ONGs e de governos como o da França.

Marcos Galvão, representante junto à UE desde o início da gestão Bolsonaro, será deslocado para outro posto considerado estratégico: a embaixada do Brasil em Pequim. Maior destino hoje das exportações brasileiras, com mais de três vezes o valor comprado pelos Estados Unidos, a China tem recebido tratamento dúbio.

O atual chanceler fez diversos acenos para melhorar a relação bilateral, mas ex-ministros - como Abraham Weintraub e Ernesto Araújo - atacavam o país com frequência. Além disso, o consulado chinês no Rio sofreu um atentado em setembro e a embaixada em Brasília está cercada de grades, para impedir novamente a colocação de faixas com insultos de apoiadores de Bolsonaro, como ocorreu no passado recente.

Paulo Estivallet, hoje embaixador em Pequim, deverá migrar para uma das principais representações do Brasil na América do Sul - o destino exato ainda é guardado em segredo. A secretária de Ásia, Pacífico e Rússia do Itamaraty, Márcia Donner Abreu, irá para Seul em um
momento desafiador na área econômica: o Mercosul está na reta final das negociações de um acordo de livre-comércio com a Coreia do Sul, que ainda enfrenta resistência da indústria brasileira.

Outra mudança já acertada envolve Madri. Orlando Leite Ribeiro, secretário de Comércio e Relações Internacionais do Ministério da Agricultura, será indicado para o posto. No entanto, ele deverá permanecer no cargo até abril de 2022, quando a ministra Tereza Cristina se desincompatibiliza para disputar as eleições - provavelmente uma vaga ao Senado por Mato Grosso do Sul. Está decidido que Pompeu Andreucci, chefe do cerimonial de Michel Temer no Palácio do Planalto e que agora ocupa a embaixada na Espanha, vai seguir para Quito (Equador).

Alguns nomes de peso no Itamaraty de Bolsonaro - como Nestor Forster (Washington) e Luiz Fernando Serra (Paris) - por enquanto ficam onde estão. Uma nova rodada de alterações ainda deverá acontecer na segunda metade de 2022, como é comum no Itamaraty em períodos finais de um mandato presidencial.

O grande suspense é o futuro da representação brasileira em Pretória. O atual embaixador, Sergio Danese, já teve indicação para Lima (Peru) enviada ao Senado. A análise ainda aguarda designação de um relator na Comissão de Relações Exteriores.

Crivella, que teve sua escolha anunciada em junho, não recebeu o “agrément” da África do Sul.
Trata-se de um consentimento do país anfitrião para que representantes estrangeiros ocupem a chefia de uma embaixada em seu território. A rapidez com que uma capital dá ou não o “agrément” depende, frequentemente, da proximidade política. No caso de embaixadores do Brasil em Buenos Aires e da Argentina em Brasília, por exemplo, a resposta costuma sair no mesmo dia da consulta.

Não é incomum que esses pedidos, conforme o país, demorem algumas semanas para ser deliberados. A praxe, no entanto, é não recusar o nome - o que só ocorre em situações absolutamente excepcionais. Como de resto em toda a diplomacia, há uma leitura de gestos. O normal, quando um governo tem restrições à indicação, é ficar em silêncio. Assim, diante da demonstração de incômodo, força-se uma mudança na designação. A demora na concessão do “agrément” é considerada sinal de que o nome não foi bem acolhido pelas autoridades do país anfitrião.

Integrantes dos governos de Angola e de Moçambique já teriam feito chegar ao Itamaraty, segundo fontes, desconforto com a presença de Crivella na região. A preocupação é que a embaixada acabe se transformando em uma espécie de “base avançada” da Igreja Universal do Reino de Deus, da qual o ex-prefeito é bispo. Crivella já morou em Durban, na África do Sul, como missionário da Universal. A igreja fundada por Edir Macedo, tio dele, enfrenta problemas em Angola.

Em 2019, religiosos no país divulgaram manifesto em que acusavam a gestão brasileira de lavagem de dinheiro, sonegação de impostos e racismo. Houve ataque a templos e o governo angolano determinou a deportação de 34 missionários brasileiros. Em julho, ao participar da cúpula da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), o vice-presidente Hamilton Mourão encontrou-se com o presidente de Angola, João Lourenço, e levantou esse assunto.

Em entrevista à agência Lusa, de Portugal, Mourão explicou: “A questão da Igreja Universal afeta o governo e a sociedade brasileira pela penetração que essa igreja tem e pela participação política que ela possui [no Brasil] com um partido, o Republicanos”

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