Irritado, Bolsonaro pede a ministros que desistam de convencê-lo a se vacinar

Irritado, Bolsonaro pede a ministros que desistam de convencê-lo a se vacinar

Presidente está apto para a vacinação desde o dia 3 de abril

O presidente Jair Bolsonaro ficou irritado com a divulgação em tempo real de uma reunião em que o ministro da Economia, Paulo Guedes, critica a China e o ministro da Casa Civil, Luiz Eduardo Ramos, afirma que se vacinou “escondido” por orientação.

O episódio teve desdobramentos negativos para o governo tanto na CPI da pandemia quanto na relação com Pequim, provocando mais uma manifestação no Twitter do embaixador Yang Wanming.

O “vazamento” dos diálogos ocorreu anteontem, durante uma reunião do Conselho de Saúde Suplementar. O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, ordenou que uma equipe de sua pasta transmitisse o evento pelo Facebook. Mas se esqueceu de avisar os colegas.

Segundo interlocutores, Bolsonaro apontou um erro triplo em relação ao episódio. O primeiro foi a transmissão inadvertida de um evento que por si só já poderia conter temas sensíveis. A Secretaria Especial de Comunicação Social (Secom) não foi comunicada. Foi esse erro original que tornou público o “sincericídio” de Guedes e Ramos.

No material, Ramos diz que a vida do presidente está em risco por não haver se vacinado contra o coronavírus. Incomodado, Bolsonaro pediu ontem a Ramos e a outros auxiliares que parem de tentar convencê-lo a se vacinar.

Aos 66 anos, Bolsonaro está apto desde o dia 3 de abril a tomar o imunizante, pelo calendário do Distrito Federal. Na época, Ramos, Queiroga, o ministro das Comunicações, Fábio Faria, e o secretário de Assuntos Estratégicos, almirante Flávio Rocha, defendiam ao presidente que ele deveria se vacinar em ato público.

Segundo relatos feitos ao Valor, uma estrutura foi montada no Ministério da Saúde para a vacinação do presidente. O evento seria aberto à imprensa, com a aplicação do imunizante da AstraZeneca/Oxford, aposta do governo, pelo próprio Queiroga. Porém, Bolsonaro resistiu e não se vacinou até hoje.

Ontem, ao conversar com apoiadores no Palácio da Alvorada, o presidente reafirmou que só tomará a vacina após o último brasileiro receber uma dose. “Eu sou chefe de Estado e tenho que dar exemplo. Já que não tem para todo mundo ainda, que tomem na minha frente”, afirmou. “Tem gente apavorada, então toma a vacina na minha frente.

A fala de Ramos pode ter implicações para a CPI da pandemia, aberta para apurar erros do governo federal e o uso de verbas federais por Estados e municípios. Ramos pode ser convocado a depor na CPI por conta do episódio.

Na visão de fontes no Palácio do Planalto, a fala do ministro foi negativa reforça a imagem de “negacionista” de Bolsonaro.

Em nota, Ramos negou anteontem ter sido orientado a não relatar que se vacinaria. Explicou que “apenas não quis fazer desse momento um ato político”.

Mas, a interlocutores, o ministro admitiu ontem ter sido “infeliz” ao dizer que se vacinou “escondido”. Apesar disso, é certo, segundo várias fontes, que Bolsonaro não queria que seus ministros fizessem publicidade do ato da vacinação.

O negacionismo de Bolsonaro afeta as rotinas na Presidência da República. Ao longo desse último ano de pandemia, há diversos relatos de servidores que se sentem constrangidos a usar máscara no Planalto. Bolsonaro, além disso, continua provocando aglomerações e sempre aparece sem a proteção facial em viagens e passeios no entorno de Brasília. Paulo Guedes, por sua vez, disse na transmissão que o chinês “inventou” o coronavírus e “a vacina dele é menos efetiva do que a do americano”.

A fala ocorreu no momento em que o Palácio do Planalto tenta refazer laços com o país asiático, após a gestão do ex-chanceler Ernesto Araújo, marcada por diversos episódios de xenofobia em relação à China.

O episódio obrigou o chanceler Carlos Alberto França a fazer um telefonema para o embaixador chinês. Na véspera, Yang havia lembrado no Twitter que “a China é o principal fornecedor das vacinas e os insumos ao Brasil”

Por Fabio Murakawa e Matheus Schuch

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