Investidores estrangeiros aumentam cautela com Brasil

Investidores estrangeiros aumentam cautela com Brasil

Investidores internacionais não veem risco de ruptura, mas estão atentos a eventual agravamento de cenário

Os investidores internacionais buscam manter uma postura pragmática em relação ao Brasil e
filtrar os ruídos políticos recentes, ainda que os eventos desde 7 de setembro tenham
aumentado a cautela em relação ao país. Gestores ouvidos pelo Valor afastam risco de ruptura
democrática iminente, mas reconhecem que o quadro político tem piorado.

Segundo a gestora para o Brasil da asset holandesa Robeco, Daniela da Costa-Bulthuis, o
sentimento do investidor europeu em relação ao Brasil “é de cautela, especialmente após os
últimos acontecimentos”. Conforme a profissional, “a visão geral é de que os comícios em que
o presidente Jair Bolsonaro participa visam manter seus apoiadores engajados até as eleições,
não sinalizando um risco iminente de ruptura”.

Na Robeco, a postura mais cautelosa com o Brasil vem desde o segundo trimestre de 2020,
diz Costa -Bulthuis, em meio ao crescimento dos riscos associados à pandemia da covid-19 e
à deterioração do cenário político. “Os eventos da semana dificultam as perspectivas
macroeconômicas para o Brasil. O aumento das tensões políticas pode comprometer as
reformas, impactar o ritmo de crescimento do país e causar um atraso ou até cancelamento de
investimentos.”

Apesar do aumento dos ruídos, a Ashmore, gestora britânica focada em economias
emergentes, diz que o cenário base não mudou e que, com o risco de ruptura institucional
aparentemente sob controle, a forte recuperação global cíclica apenas torna o Brasil mais
atrativo, dados os preços atuais.

“O Brasil vem mostrando que tem instituições fortes”, diz Gustavo Medeiros, diretor de
pesquisas da casa. “O investidor local às vezes subestima isso”, acrescenta. “Obviamente que
assusta, machuca, mas tendo a ver ‘copo meio cheio’ com o Brasil. Acredito que dificilmente o
país vai seguir o caminho da Argentina ou da Venezuela.”

Para Medeiros, “se o cenário global permanecer construtivo para 2022 - e temos visto sinais
nesse sentido -, é muito difícil ficar vendido em Brasil, porque existem ativos muito bons e as
melhores oportunidades aparecem geralmente em conjunturas como a atual.”

Embora reconheça o aumento das tensões após o 7 de setembro, o diretor da Ashmore se diz
um pouco surpreso com o grau da reação do mercado local. “Me parece que os investidores
locais - que hoje têm peso maior na direção do mercado que os estrangeiros - começam a
trabalhar com cenário em que o mercado se mantém numa espécie de limbo até a eleição”,
comenta. “No entanto, o panorama fiscal está melhor mesmo se colocarmos na conta um
Bolsa Família maior, o Judiciário funciona e o Legislativo tem conseguido avançar a agenda.

Os preços das commodities devem se manter em alta, as transações correntes do Brasil têm
déficit quase zero. Na bolsa, existe processo de crescimento dos lucros que tende a continuar.”
Para Medeiros, o cenário atual começa a lembrar o de 2001 e 2002. Naquele momento,
explica, o mundo saía de um período de cinco anos de crise em emergentes e o Brasil ainda
enfrentou o calote da Argentina e as eleições de 2002. Antes da forte melhora observada no
primeiro governo Lula (2003-2006), o pessimismo no mercado também era grande.

“Estamos passando por um período que vem desde 2012 que é uma depreciação dos
mercados emergentes, essencialmente um ‘bear market’. Tivemos também depreciação
cambial forte, mas sem crise do balanço de pagamentos. Agora, estamos vendo novamente a
preocupação política sendo precificada de forma agressiva”, diz. “Obviamente, ainda existe uma eleição em 2022. Mas, se o cenário permanecer favorável aos emergentes,
continuaremos a aumentar nossa exposição e buscar histórias em que o investidor local tem
precificado risco exagerado, mas com chance de melhora rápida. E o Brasil é uma dessas
histórias.”

O sócio e gestor de portfólio de renda variável da Galapagos, Scott Hodgson, porém, tem uma
visão mais crítica sobre o momento atual. “Nem sei como precificar tanto ruído político, acho
que 2022 vai ser um ano muito longo até as eleições”, afirma.

Hodgson, que foi gestor do fundo de pensão de funcionários públicos do Texas até o ano
passado, relata que o portfólio de ações gerido por ele não tem mais exposição ao Brasil.
“Depois de lutar nos últimos três meses [para manter exposição ao Brasil], zerei o meu voto na
semana passada e decidi só andar com exposição nos EUA.”

Para o gestor, “não dá para dizer que não tem oportunidades aqui, mas quando o investidor
olha a volatilidade e as notícias que não param de surgir, como, por exemplo, a história que o
governo estuda formas de burlar regras fiscais, então não é possível investir”.

Segundo Hodgson, um exemplo de como a crise política tem afetado o Brasil é que os
mercados locais deveriam ter passado por um rali nas últimas semanas. “A China se recuperou
recentemente, mas o Brasil continuou caindo. Isso mostra como a pressão fiscal e política está
atrapalhando. Deveria ter tido um rali de curto prazo, mas não deu em nada.”

Um economista de um fundo hedge americano que olha o Brasil, entre outros emergentes,
comentou que o paralelo entre a radicalização dos governos Bolsonaro e Trump esbarra em
uma diferença marcante. “Trump quase não fez esforços para conter a franja mais radical de
seus apoiadores. Bolsonaro o fez, e acredito que esse fato é quase encorajador quando se
compara ambos os casos”, diz.

Por outro lado, ele nota que a eleição de 2022 já é pauta obrigatória em qualquer discussão
sobre o Brasil. Nesse sentido, a cautela só aumenta, bem como o interesse em saber o que o
ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva pensa. “Todos querem saber se será a figura
pragmática do primeiro mandato ou o político que foi recentemente, ou mesmo no início dos
anos 90”

Por Por Marcelo Osakabe e Sérgio Tauhatae e Sérgio Tauhata

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