Insatisfação com novo comando ameaça capitalização do BID

Insatisfação com novo comando ameaça capitalização do BID

Americano indicado por Trump seria muito inábil e desagrada países como Brasil

Um plano de aumento do capital do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) que pode chegar a US$ 80 bilhões, também para contrapor-se à presença crescente da China na América Latina, corre o risco de demorar a decolar. Isso por causa da insatisfação do Brasil e de vários outros países com o atual presidente da instituição, o americano de origem cubana Mauricio Claver-Carone, conforme o Valor apurou.

Carone assumiu a presidência da instituição em outubro do ano passado, depois que o então governo de Donald Trump (2017-2021) atropelou uma regra não escrita que assegura a países latino-americanos o comando da instituição. Carone, ex-diretor para América Latina do Conselho de Segurança Nacional de Trump, foi eleito com o apoio do governo de Jair Bolsonaro, que retirou o candidato brasileiro da disputa.

Historicamente, o Brasil sempre teve uma vice-presidência do BID. E o governo Bolsonaro tinha expectativa de que, com Carone, o país ficaria com o cargo de número dois. Mas o americano andou distribuindo promessas pela região e, depois que assumiu o comando do organismo, deixou o Brasil sem nada. Recentemente, o ministro da Economia, Paulo Guedes, em um evento em São Paulo, manifestou frustração por ter sido passado para trás na disputa do BID.

Carone defende que, com o aumento de capital, o banco poderá ampliar sua capacidade de fornecer crédito de US$ 12 bilhões para cerca de US$ 20 bilhões por ano.

Em março, na primeira grande assembleia do BID sob sua direção, o executivo conseguiu aprovar uma resolução autorizando um trabalho de análise para “considerar um potencial aumento de capital” - mas não passou disso, justamente pela falta de consenso entre os países.

A relação com grandes países da região desde então não melhorou. Segundo fontes latinoamericanas, Carone tem sido “muito inábil” em lidar com os maiores países da região e
também teria apresentado um documento de estratégia “muito ruim” para os próximos anos.

Os maiores insatisfeitos, segundo as fontes, são o Brasil, a Argentina, o México, o Chile, o Peru e a Bolívia, que, juntos, têm 39% de poder de voto no BID.

No entanto, é precipitado concluir que o aumento de capital não sairá porque alguns países não gostam do presidente do BID. Primeiro, porque há precedentes. Na esteira da crise financeira global de 2008, o banco conseguiu um aumento de US$ 70 bilhões no seu capital, sendo US$ 1,7 bilhão efetivamente pago e o resto na forma de “callable shares” (garantias). E a crise sanitária atual atingiu muito mais duramente a região.

Segundo, a secretária do Tesouro dos EUA, Janet Yellen, não sinalizou ainda o que vai fazer. Os EUA, com 30% do poder de voto, têm um veto de fato e atuam como um “multiplicador de força” para qualquer iniciativa dentro da instituição. O Congresso americano é normalmente o que mais resiste a colocar dinheiro em instituições multilaterais. Mas nesse caso tem uma posição ligeiramente diferente. É que Carone continua a surfar na rivalidade geopolítica entre os EUA e a China, e conseguiu convencer senadores a incluir no Plano de Infraestrutura de Joe Biden uma autorização para os EUA votarem a favor do aumento de capital do BID em US$ 80 bilhões.

A lei aprovada no Senado, no começo de junho, e que agora está na Câmara diz que “práticas econômicas predatórias” da China têm tido influência negativa sobre interesses dos EUA no hemisfério Ocidental. E o governo Biden precisa apoiar o aumento de capital do BID e promover “engajamento diplomático para construir apoio entre os membros do banco” nessa direção.

O governo Biden foi autorizado a votar a favor de aumento de capital de US$ 80 bilhões, dos quais o Tesouro dos EUA se compromete com US$ 24 bilhões. Porém, o pagamento mesmo por Washington será de apenas US$ 600 milhões. Os outros US$ 23,4 bilhões vem na forma de “callable shares”. Nesse cenário, o Brasil, com 11,3% do total de votos, teria de se comprometer com cerca de US$ 9 bilhões, mas pagaria de fato menos de US$ 200 milhões.

Procurado para comentar sobre o tema, o BID não respondeu até a conclusão desta edição. O Congressional Research Service (CRS), serviço de análise do Congresso americano, recentemente publicou um estudo sobre o engajamento chinês na América Latina, no qual parece confortar a conclusão do “Interim National Security Strategic Guidance” do governo Biden que descreve a China como competidor estratégico.

Observa que o objetivo econômico chinês na América Latina é de assegurar o acesso a matérias-primas (como petróleo, minério de ferro e produtos agrícolas) e estabelecer novos mercados para produtos chineses, incluindo bens de alto valor agregado. E o comércio China América Latina passou de US$ 18 bilhões em 2002 para US$ 315 bilhões em 2020. A China tornou-se o principal parceiro comercial de Brasil, Chile, Peru e Uruguai e o segundo maior para vários outros países. Os chineses têm acordos de livre-comércio com o Chile, a Costa Rica e o Peru.

Os investimentos chineses na região somaram US$ 136 bilhões entre 2005-2020, com o Brasil representando US$ 61 bilhões, e o Peru, US$ 27 bilhões. Bancos chineses de desenvolvimento emprestaram US$ 137 bilhões no período, com Venezuela (US$ 62,2 bilhões), Brasil (US$ 29,7 bilhões), Equador (US$ 18,4 bilhões) e Argentina (US$ 17,1 bilhões) como principais recipientes.

A China já atraiu pelo menos 19 países da região a participarem do “Belt and Road Initiative”, focado em projetos de infraestrutura em torno do mundo, e visto como um instrumento de crescente influência chinesa.

O U.S. Southern Command (Southcom) manifestou preocupação sobre expansão de atividades chinesas na América Latina em áreas como cibernética, espaço, indústrias extrativas e de energia, estradas, telecomunicações, pesca, agricultura e treinamento militar.

Para o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS, na sigla em inglês), think tank em Washington, o BID teria agora também uma chance de ampliar seu número de sócios. Cita Austrália, India e Qatar como potenciais candidatos. Já um aumento de participação da China parece fora de consideração. Os chineses têm participação simbólica de 0,004% no BID atualmente

www.prensa.cancilleria.gob.ar es un sitio web oficial del Gobierno Argentino