Insatisfação com governo argentino e questões culturais movem 'mendoexit'

Insatisfação com governo argentino e questões culturais movem 'mendoexit'

Apoio a movimento separatista vira tática para discutir distribuição de verbas a províncias no país

O vinho de Mendoza, um dos objetos mais buscados por turistas que visitam a Argentina, pode passar a figurar na estante dos importados nos supermercados de Buenos Aires.
Para esquiar na estação de Las Leñas, popular programa de férias de inverno das abastadas famílias argentinas, pode ser necessário levar o passaporte.
Tudo isso se de fato ocorrer o projeto do chamado “mendoexit”, uma adaptação do famigerado brexit (a saída do Reino Unido da União Europeia, consumada em janeiro).
A ideia não é nova, e há vários grupos, especialmente ligados à indústria do turismo, que até já têm um roteiro a ser seguido caso a província de fato se separe da Argentina.
Localizada na Cordilheira dos Andes, Mendoza tem uma identidade cultural muito particular. Seus habitantes têm um sotaque parecido ao dos chilenos devido à proximidade da fronteira.
Também são famosos pelo temperamento mais calmo e silencioso que o dos ruidosos portenhos, habitantes de Buenos Aires, e por uma tradição política diferente da do resto do país, em que se preza o respeito à Constituição regional, de 1916.
É conhecida, também, como a terra dos políticos menos corruptos do país e de um Judiciário ágil e competente.
O "mendoexit" voltou a ser tema na Argentina depois de o ex-governador Alfredo Cornejo, 58, defender a ideia em declarações à imprensa local.
Além de deputado federal, Cornejo é figura de relevo nacional, uma vez que preside a União Cívica Radical, um dos partidos históricos da Argentina, fundado em 1891 e que teve como principal membro recente Raúl Alfonsín, primeiro presidente pós-ditadura.
"Fazer parte da Argentina coloca freios à economia local e nos afasta dos investidores internacionais. Além disso, temos características culturais e políticas muito específicas", diz Cornejo à Folha.
Entre elas, destaca justamente o apego à lei. Em Mendoza, está proibida a reeleição, assim como não se podem postular a cargos públicos parentes de ex-governadores e prefeitos.
"Além disso, temos petróleo, produzimos a mesma quantidade de energia que consumimos e temos uma potente indústria do turismo, que responde por 11% do PIB local [se contabilizados os setores de gastronomia e hotelaria]."
Cornejo, porém, sabe que tal mudança é inconstitucional e que, para conseguí-la, seria necessária uma alteração na Constituição muito difícil de acontecer.
A União Cívica Radical integra hoje a coalizão opositora Juntos por el Cambio, capitaneada pelo PRO, partido do ex-presidente Mauricio Macri, e que não tem maioria no Congresso.
Por isso, Cornejo vê na agitação em torno do "mendoexit" a chance de discutir uma questão urgente e concreta: a distribuição dos fundos nacionais.
Neste ponto, Mendoza não é a única descontente. Córdoba e Santa Fé, as mais ricas do país, apontam para a discrepância entre os recursos dispensados para a província de Buenos Aires e para a Cidade Autônoma de Buenos Aires, onde vivem 40% do eleitorado argentino, e para as demais províncias.
Se considerados os números da Receita Federal argentina de 2018, Mendoza gerou ao país 62 bilhões de pesos (R$ 4,4 bilhões), mas recebeu apenas 42 bilhões de pesos (R$ 3 bilhões) de volta.
Outro fator de tensão entre Mendoza e o governo nacional é a interrupção, por parte da gestão do presidente Alberto Fernández, da construção da hidrelétrica Portezuelo del Viento.
Prometida e iniciada durante a gestão de Macri, a obra provocou protestos das províncias vizinhas, que alegavam perigo a fontes de água locais. O atual governo ouviu as reclamações e freou a iniciativa.
Um dos grupos que defendem a independência da província é o Foro Transforma Mendoza, que em 2016 lançou a campanha que popularizou a hashtag #MendoExit.
"Nós conversamos muito sobre o tema e temos ideias. Há um mal estar em sermos parte do país, e esse sentimento aflora de tempos em tempos, como em períodos eleitorais, ou como agora, na pandemia", diz o diretor do grupo, o empresário Hugo Laricchia.
O turismo local vem sofrendo muito com os mais de quatro meses de quarentena. Com as fronteiras fechadas devido à crise sanitária, a chegada de turistas, atraídos por vinícolas, restaurantes locais —como o do chef Francis Mallman— e passeios à Cordilheira, despencou.
Recentemente, os memes da "República de Mendoza" viralizaram e divertiram as redes sociais. Eles incluíam possíveis desenhos para o passaporte e a bandeira do novo país, com um condor destacado, e até as escalações de uma seleção nacional de futebol, formada pelas estrelas nascidas na província.
O governo de Fernández respondeu às últimas manifestações do "mendoexit" por meio de um comunicado do Ministério do Interior, no qual afirma que "não há nenhuma discriminação em relação à província". Também não deixou de destacar uma ajuda extra enviada a Mendoza devido à pandemia de coronavírus.

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