Inflação no Brasil destoa entre latinos e outros emergentes

Inflação no Brasil destoa entre latinos e outros emergentes

Entre 48 países, alta de preços é menor somente do que a da Argetina, Cazaquistão e Turquia

Numa tentativa de relativizar a alta dos preços no Brasil, o ministro da Economia, Paulo Guedes, declarou recentemente que “a inflação está subindo no mundo inteiro” e que uma taxa de 7% ou 8% deixa o país “dentro do jogo”. Mas o quadro é pior do que o apresentado por Guedes. A inflação brasileira segue bem mais pressionada do que a de seus pares e por diferentes bases de comparação.

Considerando dados de 48 países, a inflação ao produtor - isto é, preços cobrados no atacado
durante o processo produtivo, não ao consumidor final - em 12 meses até julho no Brasil
(43,9%) só perde para Argentina (66%), Cazaquistão (46,4%) e Turquia (44,9%), aponta
levantamento da CEIC para a Armor Capital. Essas, porém, são nações mais “desarrumadas”
do que o Brasil, observa a economista-chefe da gestora, Andrea Damico.

“Continuamos com uma inflação no atacado bastante pressionada. Alguns países chegaram a
nível parecido ao do Brasil, mas, se considerarmos um grupo de emergentes pares, estamos
piores”, diz ela. A inflação ao produtor no Brasil supera Rússia (28,5%), Chile (27,2%),
Colômbia (18,1%), Uruguai (14,1%), Índia (11,2%), Paraguai (9,2%) e México (5,2%).

Os preços no atacado em diversos locais estão acima de 10% porque o Brasil e o mundo
compartilharam os choques de commodities e bens industriais desencadeados na pandemia. A
expectativa era que esses preços pudessem se acomodar em 2021, mas houve persistência.
“Mesmo que a gente veja alguma acomodação na margem em certas commodities, para o ano
a variação ainda é extremamente positiva”, diz Andrea.

Bens industriais, por sua vez, ajudam a pressionar medidas de núcleo de inflação - aquelas
que tentam suavizar o efeito de itens mais voláteis, como alimentação. Nessa base de
comparação, pelo acumulado em 12 meses até julho, o Brasil (5,4%) aparece em quinto entre
53 países, atrás de Argentina (55,4%), Turquia (18,4%), Nigéria (14,5%) e Índia (5,9%), mas
acima de boa parte dos latino-americanos, como México (4,7%), Paraguai (4,5%), Chile (3,6%),
Colômbia (2,5%) e Peru (2,3%).
“A nossa moeda depreciou mais que a média dos emergentes. Neste ano, até está um
pouquinho mais equilibrada, mas, no ano passado, ficou muito aquém. Então, se você
comparar em 12 ou 18 meses, ainda vai estar pior”, diz Andrea ao comentar particularidades
do Brasil que ajudam a explicar os índices de preços mais pressionados.
Ela cita também a dinâmica no setor de serviços. “Temos vários mecanismos de inércia, tanto
que uma das bandeiras de Guedes era desindexar a economia, o que não conseguiu ainda.
Todos os mecanismos, que foram criados lá atrás para ‘proteger’ as pessoas da inflação, no
fim, estão nos atrapalhando neste momento, porque precisamos desinflar a economia e não
conseguimos fazer isso rapidamente”, afirma Andrea.

Soma-se às especificidades brasileiras a crise hídrica, acrescenta a economista, que impõe
pesadas cobranças adicionais à conta de energia. Na inflação ao consumidor, o Brasil (9% em
12 meses até julho) é o nono entre 88 países, mas na sua frente estão governos em situação
econômica e geopolítica muito mais adversa, como Irã, Zâmbia, Ucrânia e Belarus.

A mediana da inflação ao consumidor acumulada até junho/julho no G-20 é de 3%, observa
Roberto Ellery, professor da Universidade de Brasília (UnB), a partir de dados do Trading
Economics. Mesmo considerando a média - que é pressionada pela Argentina - de 6%, o Brasil
destoa. Limitando a análise a países das Américas (exceto Venezuela), o Brasil continua acima
da média (7,4%) e da mediana (3,9%). “Você olha para Colômbia e Chile, que também sentem
com commodities, e percebe que o Brasil está mal”, diz Ellery.

Com a pandemia, observa o professor, quase todos os governos promoveram políticas fiscais e
monetárias que estimularam a demanda e reduziram juros, fatores altistas para a inflação. Isso
aconteceu nos EUA, diz Ellery. Lá, a inflação ao produtor acumula 7,7% em 12 meses até
julho, segundo a CEIC/Armor. Já a inflação ao consumidor está em 5,3%. Na União Europeia,
a taxa está em 2,5%.
“A diferença é que, no ano passado, o banco central americano flexibilizou sua meta, ou seja,
comunicou que ia aceitar uma inflação um pouco maior. Nós não fizemos isso, e o Banco
Central do Brasil, na minha opinião, subestimou os riscos”, diz Ellery.
Além disso, a situação fiscal pré-covid no Brasil já era ruim, lembra o professor, e a pressão
voltou “com muita força” recentemente. “A percepção de algumas pessoas é que o governo
pode não ter mais compromisso com o lado fiscal”, afirma ele, acrescentando que a pressão
por gastos tende a subir com o cenário eleitoral. Isso se reflete no câmbio e bate nos preços.
“A inflação aumentou globalmente em resposta a rupturas na cadeia de suprimentos e aos
preços mais altos das commodities, mas os bancos centrais das economias desenvolvidas, até
agora, têm uma visão otimista de que os choques de preços são transitórios. Em contraste, os
bancos centrais dos países emergentes, principalmente da América Latina, tendem a patinar
em gelo mais fino”, diz Robert Wood, economista-chefe para América Latina e Caribe da
Economist Intelligence Unit (EIU). Para ele, nessas economias fatores estruturais tornam a
inflação mais difícil de ser controlada.

As principais economias da região começaram a elevar juros, como México e Chile, mas “o
Brasil tem sido, de longe, o mais agressivo, com o objetivo de evitar que as expectativas de
inflação se materializem após a alta recente”, diz Wood. Em setembro, a EIU projetava inflação
de 7,2% para o Brasil em 2021, 4,7% em 2022 e 3,3% em 2023. A meta de inflação para este
ano no Brasil é de 3,75%, com tolerância de 1,5 ponto percentual, o que deixa o teto em
5,25%

Com o IPCA, em 12 meses até julho, em 8,99%, o país está 3,74 pontos acima do limite. Entre 30 países que também trabalham com sistema de metas, só estouram seus tetos mais do que o Brasil em 2021 Turquia (11,95 pontos percentuais acima), Nigéria (8,4 p.p.) e Ucrânia (4,2 p.p.) A expectativa do último boletim Focus é que o Brasil encerre 2021 com o IPCA em 7,58% - a previsão anterior era de 7,27%.

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