Indústria tenta frear acordo com Coreia do Sul

Indústria tenta frear acordo com Coreia do Sul

Empresários demonstram preocupação com negociações do Mercosul

A indústria brasileira acendeu o sinal de alerta com a possibilidade cada vez mais real de um acordo de livre-comércio entre Mercosul e Coreia do Sul. Associações do setor levaram ao governo a preocupação com o histórico de práticas desleais das empresas coreanas e apontaram o risco de que o país sirva como plataforma para a triangulação de produtos vindos de outros fornecedores asiáticos.

Negociadores dos dois lados estão reunidos nesta semana, em Montevidéu, para a quinta rodada de discussões. Ainda que haja chances muito remotas de um acordó imediato, o avanço das tratativas aflige boa parte da iniciativa privada, que reclama da falta de informações detalhadas.

“Há setores preocupados e setores interessados. No geral, o sentimento é por não fazer um acordo amplo”, diz o diretor de desenvolvimento industrial da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Carlos Abijaodi.

Causa receio o fato de que a Coreia do Sul é o segundo maior alvo global de ações antidumping e direitos compensatórios por subsídios com impacto nas exportações. Dados da Organização Mundial do Comércio (OMC) indicam que, entre 2008 e 2019, houve 148 medidas direcionadas contra os sul-coreanos por práticas consideradas desleais. Só a China foi objeto de mais reclamações.

Depois da conclusão de tratados com a União Europeia e com o EFTA (grupo de quatro países europeus fora da UE), Abijaodi afirma que não se trata de protecionismo e garante apoiar a abertura, mas enfatiza o cuidado especial com a Coreia do Sul porque seria o primeiro acordo de livre-comércio com um parceiro da Ásia.

 

“Os países asiáticos são extremamente competitivos e têm capacidade muito forte de penetrar em outros mercados. O Brasil está em fase inicial de um processo de internacionalização e precisaria dar respaldo aos mecanismos de defesa comercial para lidar com esse risco”, avalia Abijaodi.

O presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), José Velloso, diz que uma consulta feita pelo governo Michel Temer ao setor produtivo teve resposta majoritariamente contrária da indústria à possibilidade de um acordo. Mesmo assim, a Câmara de Comércio Exterior (Camex)

aprovou a abertura de negociações. “O Ministério da Economia formulou uma oferta, mas não disponibilizou essa proposta para nossa análise. A CEB [Coalizão Empresarial Brasileira] já fez várias solicitações formais, assim como a Abimaq, mas os pedidos ficaram sem resposta.”

Velloso teme a possibilidade de triangulação com os demais asiáticos. “Ou seja, fazemos um acordo com a Coreia e importamos bens de outras origens que somente circulariam naquele país.”

O Valor apurou que há grande preocupação também nos setores automotivo e de autopeças - nos quais a competitividade dos produtos sul-coreanos é bastante elevada. Em um estudo contratado pela CNI, que simulou os impactos da eliminação total das tarifas cobradas atualmente em dez anos, a estimativa para o PIB setorial foi de queda para equipamentos elétricos (-1,46%), eletrônicos (-1,11%), veículos (-1,08%), aço e ferro (-0,58%), borracha e plásticos (-0,45%). Há ganhos para setores como químicos, equipamentos de transporte e para parte relevante do agronegócio.

A Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee) manifestou receio com o aumento das importações da Coreia e destacou que os estudos indicam um acordo como “altamente prejudicial” à maioria dos subsetores industriais avaliados.

Para o presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), Fernando Pimentel, há sensibilidades específicas que precisam ser consideradas nas negociações. A Coreia do Sul é especialmente competitiva, segundo ele, na área de fibras e filamentos sintéticos. O Mercosul cobra tarifa de 2% a 18% sobre esse tipo de produto importado.

“Não temos uma visão hostil, mas cautelosa de negociar muito bem item a ítem para evitar que haja algum dano com o acordo”, afirma Pimentel, ressaltando a necessidade de avanço na agenda de competitividade doméstica, em paralelo à liberalização comercial.

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