Importação puxa renovação de maquínário na indústria

Importação puxa renovação de maquínário na indústria

Conjuntura: Consumo aparente de bens de capital cresce 3,1% em 2019

As empresas voltam aos poucos a atualizar o parque produtivo, fazendo crescer o mercado interno de bens de capital acima da média de outros produtos da indústria de transformação. Mesmo com o câmbio mais depreciado, as importações estão suprindo boa parte desse crescimento.

Em 2019, enquanto a produção de bens de capital caiu 0,4%, segundo o IBGE, as importações subiram 18,2%, pelos dados do Icomex, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV). O número já desconta o efeito contábil das compras de plataformas de petróleo. Em média, os preços desses itens importados caíram 4,9% no ano.

Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostram que o consumo aparente de bens de capital aumentou 3,1% no ano passado, taxa acima da de 0,6% na indústria de transformação. Essa medida leva em consideração a produção mais as importações, excluindo as exportações da conta.

Juros baixos, a extensão da validade de uma série de ex-tarifários até dezembro de 2021, a necessidade de incorporar novas tecnologias e a queda dos preços dos produtos são alguns dos motivos citados por especialistas para o aumento das importações.

Eles ponderam que esse movimento ainda não reflete avanço de capacidade instalada, já que a ociosidade da indústria brasileira segue muito alta. Economistas ainda lembram que o descolamento entre produção e importação de bens de capital costuma se acentuar em períodos de aceleração da atividade, numa tendência considerada estrutural.

Para José Augusto de Castro, presidente da Associação dos Exportadores do Brasil (AEli), há dois fatores que podem explicar o aumento da importação. O primeiro foi a prorrogação da validade do regime que reduz a alíquota do Imposto de Importação para uma série de bens. `O governo prorrogou uma leva gigantesca de ex-tarifários para o fim de 2021`, diz. O regime reduz o imposto quando não há equivalente nacional.

Outro fator é a competição acirrada por mercados no mundo, que fez cair os preços. `Estamos numa situação em que poucos querem comprar e muitos querem vender, o mercado estava oferecendo desconto`, afirmou. Em 2020 ele prevê que as importações elevem continuar a crescer por esses mesmos fatores e também devido ao crescimento do PIB maior que em 2019.

Professor da Unicamp e coordenador do Núcleo de Economia Industria! e da Tecnologia da universidade, Antônio Carlos Diegues observa que o crescimento mais forte da importação nessa categoria é tendência de longa data. `Há uma reação estrutural em que a indústria brasileira se integra de maneira importadora às cadeias globais de valor, ou seja: o dinamismo doméstico não é suficiente para ativar a produção quando olhamos para as cadeias vinculadas a bens de capital.

Investimentos têm sido desengavetados, após anos seguidos de crise e baixo crescimento. `Chega uma hora em que você precisa resgatar projetos, ainda mais com o aumento da concorrência lá fora`, afirma Rafael Cagnin, economista do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (ledi).

Há uma nova onda tecnológica no mundo e as empresas exportadoras estão mais pressionadas pela concorrência internacional. Internamente, o ambiente é de crescimento não tão forte, mas tem sinais positivos, diz.

Cagnin cita outro aspecto importante: a desalavancagem das empresas. Desde meados do ano passado, houve certa recomposição das margens da indústria, apesar de os indicadores financeiros ainda não terem voltado ao patamar pré-crise. Empresas mais organizadas também conseguem acesso a financiamento internacional, a juros mais baixos que aqui. `As condições melhores para financiar esse investimento podem ter contribuído para o aumento de importação de capital.`

Cagnin ainda observa que, enquanto a produção de bens de capital emgeral caiu, a produção voltada especificamente para a indústria aumentou. Houve queda forte para bens voltados à agricultura, como reflexo da escassez de recursos com juros atraentes nas linhas oficiais de crédito à disposição dos produtores. `Para a indústria não está tão ruim`, diz.

No caso de máquinas e equipamentos, houve au mento de 15% no consumo aparente, de acordo com a Abimaq, que reúne as indústrias do setor. As importações cresceram 18%, enquanto a exportação caiu 7,2%, em dólares. Parte do crescimento do mercado interno foi suprida por importação, parte por aumento de produção do segmento, segundo a entidade.

O descolamento entre produção e importação se acentua em momentos de aceleração econômica, que analisou os limites da contribuição da indústria ao desenvolvimento em estudo publicado este ano, diz Diegues. Uma das conclusões é que, tanto no período de relativa pujança dos governos Lula {2003 a 2010) quanto no período Dilma (2011 a 2015), marcado por desaceleração seguida de recessão, o setor industrial ficou mais dependente de importações. Essa dependência é maior conforme a complexidade tecnológica do setor produtivo, que é elevada na categoria de bens de capital.

`Esse descompasso parece ser estrutural, como forma de reação da indústria brasileira às formas de organização globais em redes. O setor se integrou importando.`

Dos anos 2000 para cã, com a consolidação da China como potência industrial e a formação das cadeias globais de valor, a lógica de produzir a maior parte dos insumos e produtos cm território nacional se inverteu e, no Brasil, esse processo ocorreu com maior intensidade, disse Diegues. Ao se tornar `mais leve` e integrada a essas redes, a indústria brasileira passou a depender menos das oscilações da economia doméstica, mas, em contrapartida, quando há reação da atividade por aqui, também sente menos a retomada.

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