Guedes e Tereza Cristina atuam para apagar incêndios com a China

Guedes e Tereza Cristina atuam para apagar incêndios com a China

06/04 - 19:28 - Ao despertar má vontade entre os chineses, o Brasil corre maior risco de ver prejudicadas suas exportações de maior valor agregado

Cristiano Zaia e Lu Aiko Otta

Diante da sequência de críticas ofensivas à China por parte do governo e seu entorno, coube aos ministros Tereza Cristina (Agricultura) e Paulo Guedes (Economia) entrarem em campo com a missão de tentar reverter o mal-estar com Pequim e evitar assim futuras retaliações comerciais, que não são descartadas por fontes do governo.

Nos ministérios da Agricultura e da Economia, declarações contrárias à China, como a feita nas redes sociais do ministro da Educação, Abraham Weintraub, no último sábado (4), e do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) no último dia 19 são classificadas de “desastre”. Além de sustentarem o comércio exterior brasileiro num cenário de queda generalizada, as exportações para o país asiático são vistas como ponta de lança para a recuperação econômica do Brasil.

Esses alertas têm sido feitos por Tereza e Guedes, ao passo que a ministra, geralmente, tem sido mais vocal nesse tema, pelo seu contato com as entidades do setor de agronegócios e com grupos políticos que foram importantes para a eleição do presidente Jair Bolsonaro.

Tereza, por exemplo, chegou a ligar para o embaixador chinês em Brasília, Yang Wanming, após o filho do presidente brasileiro ter insultado o país asiático. Na ocasião, segundo interlocutores, a ministra afirmou que Eduardo não tinha cargo no Executivo e por isso não representava o governo brasileiro.

"Isso é página virada", disse, na ocasião, Tereza ao embaixador chinês, que assumiu posto no início deste ano e tem se irritado com as declarações contra seu país.

Relação azedou

Apesar de o episódio já ter completado duas semanas, fontes do governo relatam que, desde então, a relação com a China "não é mais a mesma" e "azedou". Por isso o alerta ligado do governo e a atenção redobrada dos dois ministros, num momento em que empresários do setor exportador acreditavam que a poeira havia baixado na tensão com a China.

Não é mais incomum ouvir de fontes do Ministério da Agricultura ou da bancada ruralista, um dos núcleos de apoio político a Bolsonaro, sinais de cansaço pelas seguidas declarações comprometedoras de seu governo para os negócios brasileiros com os chineses.

Ainda assim, técnicos estimam ser possível que, no primeiro quadrimestre do ano, as exportações brasileiras para a China ultrapassem o dobro da soma das vendas para os Estados Unidos e para a Argentina. O gigante asiático já é o principal destino das commodities agrícolas brasileiras, por exemplo.

Os dados até o terceiro trimestre estão próximos disso. De janeiro a março, as vendas acumuladas para a China somam US$ 14,2 bilhões, enquanto as para os Estados Unidos chegaram a US$ 5,2 bilhões e para a Argentina, US$ 2,2 bilhões. Ou seja: somados, os dois destinos ocidentais chegam a US$ 7,4 bilhões.

As variações do comércio mostram crescimento da importância da China como destino para exportações. No primeiro trimestre, as vendas para lá aumentaram 7,36%, enquanto para os Estados Unidos houve queda de 19,31% e para a Argentina, recuo de 6,89%. No total, as exportações brasileiras estão em US$ 49,5 bilhões, queda de 3,22%.

Apenas no mês de março, quando medidas restritivas à atividade econômica se generalizaram, as vendas para a China avançaram 12,55%, ante recuo de 7,59% dos Estados Unidos e queda de 3,15% para a Argentina.

Ainda não há dados separados por país para o mês de abril. Mas a venda de alimentos segue forte. A média diária de exportação de produtos agropecuários cresceu 67,1% na comparação com a média de abril de 2019. Também considerando a média por dia, as vendas de soja, principal produto importado pela China, aumentaram 80,2%.

As exportações de alimentos não só dão sustentação à balança comercial brasileira, como também despontam como o passaporte para a recuperação da economia quando o pior da crise passar. Essa é a leitura que vem sendo feita internamente no governo.

Segundo a visão dos técnicos, o comércio mundial está em queda, mas não de forma homogênea. E as vendas de alimentos, como soja e carne, têm mostrado resiliência diante da crise, até porque são produtos que não podem deixar de ser consumidos.

A China, por haver entrado no “túnel” do coronavírus antes, já começa a retomar suas atividades. Uma retomada rápida elevará ainda mais a demanda e favorecerá países produtores de alimentos, como o Brasil.

Ao despertar má vontade entre os chineses, o Brasil corre maior risco de ver prejudicadas suas exportações de maior valor agregado. Quanto mais específico é o produto, maior a discricionariedade do importador em escolher seus fornecedores.

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