Governo Bolsonaro recebe primeira visita de chanceler argentino sem disposição de ceder

Governo Bolsonaro recebe primeira visita de chanceler argentino sem disposição de ceder

Felipe Solá se encontra com Ernesto Araújo nesta quarta, em nova tentativa de aproximação da Casa Rosada com Planalto.

Depois das declarações explosivas durante a campanha presidencial e no dia em que foi confirmada sua eleição como presidente da Argentina, em 27 de outubro passado, o peronista Alberto Fernández tentou de diversas maneiras aproximar-se do governo de Jair Bolsonaro. Houve tentativas fracassadas de encontro com o vice-presidente Hamilton Mourão, enviado pelo Planalto à posse, em dezembro passado; e pedidos de contatos com o ministro da Economia, Paulo Guedes.

Em todos os casos, o governo brasileiro deixou claro que a Argentina de Fernández e sua vice, Cristina Kirchner, não está no radar das prioridades brasileiras. Com este pano de fundo, chega esta noite a Brasília o chanceler argentino, Felipe Solá, que na quarta-feira será recebido por seu colega de pasta, Ernesto Araújo.
Em palavras de uma pessoa próxima à equipe de Guedes, "o governo brasileiro vem, há algum tempo, discutindo como lidar com o governo peronista de Fernández".

A proximidade com a Argentina não favorece o Brasil neste momento. Não favorece, por exemplo, a intenção de entrar para a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), uma meta importantíssima para a equipe econômica, porque é uma espécie de selo de qualidade institucional para o mundo — comentou a fonte, que pediu para não ser identificada.

Solá será recebido por Araújo. O secretário de Assuntos Estratégicos da Casa Rosada, Gustavo Béliz, terá audiência com Augusto Heleno, ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência da República.

A estratégia do Brasil, por enquanto, é manter uma relação em estado mínimo. Uma fonte próxima ao presidente Jair Bolsonaro comentou que, pelo menos até agora, não há clima para um encontro de amigos. A não ser que Solá apresente respostas ainda desconhecidas para o governo brasileiro, como a disposição de a Argentina se unir ao Brasil no processo de abertura comercial, o acordo entre Mercosul e União Europeia e quais os pontos de vista de Fernández sobre temas como religiosidade e direitos humanos.

Muito por influência de Guedes, o governo brasileiro vê a Argentina governada por peronistas e kirchneristas como uma carga para o Brasil, empenhado em abrir novos mercados, fechar acordos comerciais ambiciosos e, para isso, reestruturar o Mercosul.
 

Essa reestruturação implicaria, na prática, dar alguns passos para atrás. Deixar de ser uma união alfandegária imperfeita (pelas diversas exceções que existem dentro do bloco) e se transformar numa zona de livre comércio que também excluiria setores sensíveis (por exemplo, automóveis). Assim, o Brasil teria o caminho livre para negociar acordos de livre comércio bilaterais com países como Estados Unidos e até mesmo China. Os EUA já acenaram com essa possibilidade.Este recuo do Mercosul continua com o respaldo do Uruguai e do Paraguai, que também têm interesse em fechar entendimentos comerciais bilaterais. O grande obstáculo é a Argentina. Por isso, do lado brasileiro já existiria a decisão de avançar com ou sem a Casa Rosada.

A relação entre os dois países sempre foi estratégica para ambos os governos. Embaixadores veteranos consideram "uma loucura" levar o relacionamento à beira da ruptura, mas economistas próximos da equipe de Guedes lembram que o mercado argentino já não é o que era e destacam que, em janeiro passado, as exportações brasileiras para o país vizinho despencaram.

— A Argentina está em recessão e precisa renegociar sua divídia. O governo de Fernández voltou a aplicar medidas protecionistas, e o Brasil está em outra sintonia, na sintonia da abertura ao mundo. Acho muito difícil que encontremos pontos de coincidência — disse a fonte.

E ainda:'É consenso que não pode existir fome na Argentina', diz ministro do Desenvolvimento Social. Do lado dos argentinos, a visão é bem diferente. Na Chanceleria comandada por Solá existe a firme intenção de encontrar uma maneira de conviver pacificamente com o Brasil de Bolsonaro, e até mesmo de trabalhar juntos para fazer algumas modificações no Mercosul. Mas algumas questões delicadas não são negociáveis, disse uma fonte do governo Fernández.

A posição com a Venezuela de Maduro foi endurecida, mas não vamos assinar os comunicados do Grupo de Lima (formado por mais de dez países do continente e que não reconhecem Nicolás Maduro como presidente do país). Tampouco deixamos de dizer que Evo Morales foi vítima de um golpe de Estado.

A Casa Rosada quer abrir canais de diálogo, mas já deixou claro, por exemplo na longa conversa telefônica que Solá e Araújo tiveram no começo de janeiro que suas posições sobre a política regional e especialmente sobre países como Venezuela e Bolívia serão mantidas.— É complicado, porque o governo Bolsonaro diz defender o liberalismo político e econômico e vai contra qualquer tipo de governo que não esteja 100% alinhado com sua postura — admitiu uma fonte argentina.

Mas Fernández e seus ministros têm tentado intensificar a comunicação. O novo embaixador da Argentina em Brasília, Daniel Scioli, já teve um encontro com Mourão no Palácio do Planalto e está trabalhando freneticamente para "desestressar o vínculo", segundo antecipou em entrevista ao GLOBO em dezembro passado. Já foi a São Paulo conversar com empresários e está tentando armar viagens de vários ministros argentinos a Brasília. Por enquanto, nenhuma está confirmada.

Mais recentemente, o clima piorou nas relações bilaterais. A Argentina foi um dos países que pediram ajuda ao governo brasileiro para retirar seus cidadãos da cidade chinesa de Wuhan. Recebeu um não do Brasil, que alegou não ter disponibilidade de vagas no avião da Força Aérea Brasileira (FAB).
— Levaram quatro poloneses — resumiu uma fonte argentina.

 

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