Governo Biden vê 'realidade' sobre Brasil, e relações vão 'extremamente bem', diz Ernesto Araújo

Governo Biden vê 'realidade' sobre Brasil, e relações vão 'extremamente bem', diz Ernesto Araújo

02/03 Ministro condenou relatório de acadêmicos e ativistas com críticas à política ambiental brasileira e evento em Harvard que discutiu riscos à democracia no Brasil

Passada a saia-justa com o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, causada pelo forte apoio do governo Jair Bolsonaro à reeleição do seu antecessor, o republicano Donald Trump, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, afirmou que a relação com o novo governo democrata começou "extremamente bem".

De acordo com Araújo, o governo Biden vê a "realidade", e não o que chamou de "narrativa distorcida". Bolsonaro manteve por semanas após a eleição o apoio às acusações infundadas de Trump de que a vitória de Biden foi fraudulenta, e foi um dos últimos líderes de expressão mundial a cumprimentar o novo presidente, 38 dias depois que a vitória do democrata foi projetada pela imprensa.

— Nosso diálogo com a administração Biden começou extremamente bem — disse o ministro, durante entrevista coletiva em Brasília. — Fico feliz quando vejo que o novo governo americano está olhando a realidade, e não a narrativa distorcida daqueles que têm interesses concretos que não haja uma aproximação Brasil-Estados Unidos, que são aqueles partidários do atraso.

Araújo criticou especificamente um relatório entregue ao governo americano por acadêmicos e ativistas com críticas à política ambiental brasileira, e também a Brazil Conference, evento realizado anualmente na Universidade Harvard, onde, segundo o ministro, foram discutidos riscos à democracia no Brasil. O relatório com mais de cem assinaturas pede para que o governo Biden suspenda a importação de madeira, soja e carne que estejam ligadas ao desmatamento no país.

— O que nós temos é, infelizmente, uma espécie de um esforço de algumas correntes políticas no Brasil de criar uma má imagem do Brasil no exterior — disse o ministro.

O governo Biden tem dado indicações de que, ao menos por ora, não aplicará sanções ao Brasil por questões ambientais ou de direitos humanos, e de que buscará uma relação pragmática com o governo Bolsonaro. Por outro lado, o presidente brasileiro é um dos raros líderes do G-20, o grupos das 20 maiores economias do mundo, com quem Biden não falou até agora por telefone.

Araújo admitiu que o meio ambiente era visto como um possível "terreno de discórdia" com Biden, mas disse que o início foi positivo, com uma reunião virtual dele e do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, com o enviado especial para o clima do governo americano, John Kerry.

— Já estamos conversando em um terreno que se achava que seria um terreno de discórdia, que é o terreno do clima e do meio ambiente. Tivemos uma excelente reunião virtual, o ministro Salles e eu, com o secretário John Kerry, a partir da qual já se inaugurou um processo técnico para falar de clima.

O chanceler disse que o governo brasileiro já foi convidado a participar do fórum sobre o meio ambiente convocado pelo presidente dos EUA para o dia 22 de abril. Araújo evitou confirmar se Bolsonaro irá participar do encontro, mas disse que ele pretende "fazer parte desse esforço" e que o Brasil quer dar a sua contribuição.

— O secretário John Kerry disse que tem muita expectativa de que o Brasil possa estar representado pelo presidente Bolsonaro, não só representado, mas dar a sua contribuição. Nós estamos nos preparando para isso. O presidente certamente pretende fazer parte desse esforço.

Invasão do Capitólio
No mês passado, o presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado americano, o senador democrata Bob Menendez, enviou uma carta ao governo brasileiro dizendo que Araújo estava "desconectado" da realidade dos Estados Unidos ao sugerir, em uma rede social, que havia "infiltrados" na invasão do Capitólio por apoiadores de Trump, em 6 de janeiro.

Araújo minimizou o episódio e disse acreditar que ele e o senador têm os mesmos "valores" em relação à democracia e se disponbilizou a conversar com o parlamentar.

— Tenho certeza que os valores de base da percepção, no caso do senador Robert Menendez, são idênticos aos nossos em termos de democracia, em termos de primado do Estado de Direito — afirmou. — Depois da carta, a relação continua. Tivemos esses diálogos que eu mencionei.

Na carta, Menendez cobrou uma posição firme do governo brasileiro de condenação da invasão, cujo objetivo era impedir que o Congresso homologasse a vitória de Biden. O ministro afirmou que condenou o episódio, mas disse que ele não poderia servir como justificativa para "demonizar" manifestações populares.

— Acho que condenei claramente a invasão do Capitólio naquele dia. A minha preocupação, que permanece, continuando achando que foi importante essa manifestação, no sentido de que não houvesse uma contaminação, surgisse uma narrativa que procurava demonizar qualquer tipo de manifestação popular a partir daquele fato.

Atritos com embaixada chinesa
Araújo também negou atritos com a China. Ele reconheceu que houve problemas com a embaixada do país no Brasil em duas oportunidades, quando o embaixador Yang Wanming criticou publicamente postagens contra a China feitas pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) em redes sociais, mas disse que a reclamação "foi entendida" pelo país asiático.

— Isso é completamente fora da prática diplomática. Nós chamamos atenção para isso. Acho que isso foi entendido pela embaixada da China. Depois desse episódio não voltou a haver esse tipo de atitude — disse, reforçando depois: — Isso não gerou absolutamente nenhum problema com a China. Isso gerou uma chamada de atenção, em duas ocasiões, em relação à embaixada da China. Acho que tiveram bom resultado no sentido de uma atuação mais correta por parte da Embaixada da China.

De acordo com o ministro, não houve prejuízo ao comércio entre os dois países. Ele afirmou, contudo, acreditar que as manifestações prejudicaram a imagem da China no Brasil:

— Se você olha a imagem da China na opinião publica brasileira hoje e antes dessas manifestações da embaixada chinesa, acho que infelizmente há um decréscimo, uma imagem hoje que é pior em relação a China que foi criada, acho, exclusivamente por esse tipo de atuação que eu acho que tá superado.

Questionado se pediu a substituição de Yang Wanming, o chanceler evitou responder e disse apenas que o problema está "superado".

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