Governo Biden descarta acordo comercial com Bolsonaro

Governo Biden descarta acordo comercial com Bolsonaro

Ações ambientais de Bolsonaro são alguns dos entraves destacados por Washington

O desejo do governo de Jair Bolsonaro de fazer um acordo de livre-comércio abrangente com os EUA é muito improvável no atual cenário. O aviso foi dado por um representante do governo de Joe Biden, mencionando o histórico de ações nas áreas ambiental e social de Bolsonaro, em seminário virtual sobre as relações bilaterais ocorrido na sexta-feira.

Entre especialistas, o debate consolidou o sentimento de que a administração Biden “não quer jogo” com o governo Bolsonaro. A avaliação também em setores do governo é de que a Casa Branca não quer que a China se expanda no Brasil, mas tampouco propõe uma agenda positiva na relação econômica.

No seminário organizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Wilson Centro, de Washington, o secretário de Negociações Bilaterais e Regionais nas Américas, embaixador Pedro Miguel da Costa e Silva, declarou que o Brasil era a favor de um acordo comercial “amplo e ambicioso” com os EUA. E que, se isso não fosse viável no curto prazo, uma abordagem de compromissos por etapas (multi-track) seria uma boa alternativa.

O representante brasileiro defendeu que os dois lados têm a ganhar (“win win situation”) construindo uma agenda que seja permanente em novos temas como minerais estratégicos e defesa. Ou seja, que Brasília e Washington sejam capazes de ir além de questões como gestão de contenciosos comerciais, contendas sobre direitos de propriedade intelectual ou Sistema Geral de Preferências.

“Minha expectativa é que sejamos capazes de um dia avançarmos numa agenda que não é sempre sujeita a condicionalidades cruzadas e questões que nada a ver com nossas relações econômicas.”

Depois de ouvir o representante brasileiro, o assistente do USTR (Representação Comercial dos EUA) para o Hemisfério Ocidental Daniel Watson “jogou água fria” sobre a possibilidade de qualquer acordo comercial proximamente com o governo Bolsonaro. Primeiro, ele observou que “o presidente Biden deixou muito claro que pelo momento não vamos fazer novos acordos comerciais e que a primeira prioridade é investimento doméstico”.

Além disso, Watson destacou que qualquer negociação com o Brasil seria complicada por causa de preocupações dos congressistas americanos com as ações do governo sob Bolsonaro. “Continuamos a ouvir essas preocupações muito fortes de alguns membros do Congresso sobre Amazônia, desmatamento, direitos indígenas e os direitos humanos”, disse ele, notando que essas questões inevitavelmente afetarão o engajamento de Washington com o Brasil.

A abertura deixada pelo representante brasileiro não teve eco. O embaixador Costa e Silva, visivelmente já antecipando o que diria seu interlocutor do USTR, tinha mencionado em sua intervenção, pouco antes, que o Brasil tem feito “permanente esforço para se adaptar a interesses e prioridades dos EUA”, acenou com flexibilidade para tratar de questões de floresta, climática e trabalhista e apontou também uma complementaridade entre as duas economias.

No entanto, Watson rechaçou a ideia de “complementaridade”, que considera outra complicação potencial “sempre que houver uma sugestão de tratado de livre-comércio com o Brasil”. Isso porque os dois países competem em algumas áreas, “especialmente na agricultura, e isso levanta questão sobre potencial aumento de concorrência e como vai afetar o mercado doméstico [americano]”.

Ele insistiu que a administração Biden tem “uma nova abordagem sobre comércio”, exemplificando para a prioridade de “elementos de comércio afetando agenda climática”. E avisou que “as questões ambientais, climáticas e trabalhistas continuarão a ser uma parte muito fundamental de nossa discussão [com o Brasil], mesmo que estejamos buscando maneiras adicionais de buscar progressos na agenda regulatória”.

Essa postura não foi surpresa no governo brasileiro, porque Watson esteve há duas semanas em Brasília e não tinha muito a falar sobre comércio. Sua ênfase foi sobre inclusão social e pequenas empresas para gerar empregos para a classe média, por exemplo - bem distante do que o governo Bolsonaro estava acostumado a ouvir sobre comércio com Donald Trump até o ano passado.

A mensagem da Casa Branca é assim de que mantém as fichas num protocolo para promoção de comércio assinado no ano passado, ainda no governo Trump, defendido pelo setor privado americano. Inclui facilitação de comércio e medidas anti-corrupção, por exemplo.

Ao mesmo tempo, o governo brasileiro já propôs aos EUA incluir a questão de cadeias regionais e globais de valor, na Cúpula das Américas no ano que vem, na expectativa de Washington mostrar o que tem a propor para a região no pós-pandemia.

O secretário de Comércio Exterior, Lucas Ferraz, que também participou do debate, destacou que o comércio bilateral, que caiu pandemia, está se recuperando. Entre janeiro e agosto, as trocas somaram US$ 42 bilhões, 32,2% mais que em igual período de 2020.

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