Governo argentino recorre a pacote de bondades pré-eleitoral

Governo argentino recorre a pacote de bondades pré-eleitoral

Analistas observam que as medidas em estudo não serão suficientes para mudar a sorte do governo nas urnas e a expansão dos gastos ameaça desencadear uma nova crise no país, ao elevar o déficit, acelerar a inflação e a demanda por dólar

A derrota nas prévias partidárias legislativas do dia 12 abalou o governo de Alberto Fernández na Argentina. Com a quase certeza de que terá de governar sem maioria na Câmara e no Senado e sob ataques do grupo de sua vice, Cristina Kirchner, Fernández trocou ministros e anunciou medidas para tentar um resultado menos pífio nas eleições legislativas.

O governo prepara um pacote que aumenta o salário mínimo em 48% até o fim do ano, reduz impostos para algumas categorias específicas, oferece créditos a taxa zero para cidadãos de baixa renda, concede bônus para aposentados e amplia o valor da Renda Universal por Filho - semelhante ao bolsa-família. Apesar disso, analistas alertam que a derrota eleitoral dificilmente será evitada.

“Essas medidas não são suficientes para mudar a tendência eleitoral”, diz o analista Sergio Berensztein, fundador da empresa de consultoria Berensztein.com e ex-diretor da Universidade Torcuato Di Tella. “Eventualmente, o governo poderia eventualmente ganhar uma ou duas cadeiras no Senado - mas dificilmente o pacote alcançará os grandes centros urbanos a tempo para fazer diferença.”

“São algumas semanas até as eleições e não é tão simples meter um monte de dinheiro no bolso do eleitor - até por questões legais, administrativas, práticas”, diz Berensztein. “Em alguma medida, as ações de Fernández poderão amenizar a derrota, mas não evitá-la.”

Além de não serem suficientes para mudar a sorte do governo nas urnas, as medidas de expansão dos gastos ameaçam desencadear uma nova crise no país, ao elevar o déficit, acelerar a inflação e a demanda por dólar. Como consequência, os títulos da dívida argentina sofreram ontem a maior perda desde setembro de 2020.

Em mais uma evidência do mau humor dos investidores, o dólar do mercado paralelo (“blue”) subiu ontem pelo terceiro dia consecutivo, chegando a 187 pesos, igualando a máxima do ano, registrada pouco antes das prévias. Já o “dólar contado com liquidação livre”, que não é afetado pelas intervenções do Banco Central, chegou no início desta semana à cotação recorde de 194,50 pesos por unidade.

Essa deterioração dos ativos argentinos reflete o desconforto dos investidores com aceleração na expansão monetária para cobrir os crescentes gastos. Em setembro, os repasses do Banco Central para o Tesouro somam 250 bilhões de pesos, o maior volume emitido em um mês desde o início do ano.

A economia argentina se ressente do descontrole nas contas públicas. A inflação já ronda os 50% e a expectativa é de aceleração se o dólar continuar subindo. A economia deve crescer 8% neste ano, percentual insuficiente para reverter a contração de 9,9% de 2020.

“Era altamente provável que o governo considerasse acabar com as limitações da pandemia e promover o aumento do gasto como instrumentos eleitorais”, disse Agustín Garreto, analista do semanário “Perfil”. “E em vez de usar as limitadas receitas para pagar dívidas vencidas, como pretendia o ministro da Economia Martín Guzmán, utilizar mais dinheiro para apoiar as novas medidas econômicas, como quer Cristina Kirchner.”

Analistas temem ainda que o pacote eleitoral atrapalhe a negociação da dívida do país com o Fundo Monetário Internacional (FMI). “É necessário um acordo com o FMI para reescalonar a dívida e restaurar o acesso aos mercados internacionais”, observou ontem o britânico “Financial Times” em texto editorial.

No campo político, Fernández promoveu uma limitada reforma ministerial em meio à pressão política da ala kirchnerista, que tinha como alvos três membros do Gabinete: Guzmán; o ministro da Produtividade Industrial, Matías Kulfas; e o chefe da secretaria de Governo, Santiago Cafiero. Os dois primeiros, principais interlocutores do governo com o setor privado e considerados por Cristina os responsáveis pela derrota eleitoral, foram mantidos nos cargos.

Além das medidas em estudo, o governo também vem apelando à boa vontade das empresas para tentar conter os preços ao consumidor. Desde junho, a secretária de Comércio Interno, Paula Español, tem mantido encontros com representantes de supermercados e empresas de consumo de massa para evitar que “a recomposição da renda” se traduza em aumento de preços de bens e serviços.

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