Governo argentino pode se afastar do PT porque prioridade é vínculo com Bolsonaro, dizem altas fontes

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Governo argentino pode se afastar do PT porque prioridade é vínculo com Bolsonaro, dizem altas fontes

Segundo fontes do governo Fernández, o chanceler argentino Felipe Solá deixará claro ao seu colega Ernesto Araújo, nesta quarta-feira, que a relação com o governo Bolsonaro é prioridade.

Os ministros das Relações Exteriores do Brasil, Ernesto Araújo, e da Argentina, Felipe Solá, terão cerca de duas horas de reunião nesta quarta-feira (12) e não se descarta que o chanceler argentino seja recebido pelo presidente Jair Bolsonaro. Fontes do governo Fernández disseram que o objetivo desta aproximação é deixar claro que a relação com o Brasil é uma prioridade e que não pretende se meter mais nas questões da política interna brasileira.

​“Temos uma realidade, que é a relação com o Brasil. E nossos amigos (o ex-presidente Lula e integrantes do PT) vão entender”, disse uma fonte do primeiro escalão do governo argentino sob condição do anonimato. “Achamos que existe uma questão interna brasileira (na qual não querem se meter)”, afirmou.

O chanceler argentino pretende “limpar as nuvens” que estão dificultando a relação bilateral e que podem prejudicar a relação econômica entre os dois países.

A relação entre a Argentina e o Brasil ficou tensa ainda na campanha presidencial argentina, no ano passado, quando o presidente Bolsonaro defendeu a reeleição de Mauricio Macri e criticou a, então, possibilidade de retorno do kirchnerismo ao poder.

A defesa feita por Alberto Fernández pedindo a liberdade de Lula, que estava preso em Curitiba, no Paraná, no dia da sua eleição, em outubro, colocou combustível numa relação azedada, concordaram fontes brasileiras.

Fernández convidou o ex-presidente brasileiro para a posse, mas Lula declinou do convite. Depois disso, Fernández e seus ministros, segundo fontes da administração central argentina, ficaram “surpresos” com os tuítes do presidente brasileiro criticando o governo argentino. Na administração Fernández recordam que desde os anos 1980 não se vivia uma relação tão distante entre os dois países.

Na conversa de Felipe Solá com Ernesto Araújo, o chanceler argentino deverá enfatizar a importância do Brasil para o país – “que é muita”, dizem. O Brasil é o principal parceiro comercial da Argentina. Na mão inversa, Solá também pretende saber qual a importância da Argentina para o Brasil do governo Bolsonaro, segundo fontes argentinas. O chanceler Solá levará uma série de propostas para a atuação conjunta dos dois países, como na área de 5G, de prevenção ao terrorismo e de produção estratégica do shale gás (gás de xisto) e do pré-sal brasileiro.

O encontro entre Solá e Aráujo, porém, deverá ter um tom mais político do que econômico. Será a primeira reunião entre autoridades dos dois países depois que o vice-presidente Hamilton Mourão participou da posse de Fernández, há dois meses, em dezembro passado.

A intenção de Solá é “baixar a tensão” da relação bilateral. Mas no governo de Buenos Aires ainda estão engasgados com a decisão do Brasil de optar por importar trigo dos Estados Unidos, sem taxas. O que ocorreu ainda na gestão anterior, a de Mauricio Macri. A Argentina poderia até revisar as recentes licenças não-automáticas – aumento de burocracia para entrada de produtos externos – para tentar melhorar a relação com o Brasil, desde que não gere prejuízos para empresários locais, disseram as fontes.

Nesta segunda-feira, num discurso para cerca de 30 parlamentares do Parlasul, no Ministério das Relações Exteriores, em Buenos Aires, Solá disse que a ideologia não pode ser uma “mochila”, “um empecilho” para o diálogo. “Na teleconferência que tive com o chanceler Araújo, contei que nas reuniões do Mercosul (nos anos 1990) tínhamos discussões fortes, entre brasileiros e argentinos, mas depois saíamos para jantar. Éramos amigos. E tínhamos a sensação de que estávamos construindo algo”, disse. Solá confirmou que espera ser recebido também pelo presidente Bolsonaro, para uma saudação, na visita que fará a Araújo.

Solá disse que espera que o acordo do Mercosul com a União Europeia não seja motivo de diferenças entre os dois países. Ele acha que esse é um acordo “que vai demorar pelo menos dois anos” e esse acordo não pode afetar a relação entre a Argentina e o Brasil. “Meu olfato é que não será rápido na Europa. Se não vai ser rápido na Europa, por que deve ser rápido aqui (no Mercosul?)”, disse Solá diante de parlamentares do Parlasul e de jornalistas brasileiros convidados por ele para assistir ao encontro.

Solá disse que vai conversar com Araújo sobre a necessidade da Argentina de negociar um novo entendimento com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Ele sugeriu que pedirá apoio do Brasil, além do Uruguai e do Paraguai para pressionar o organismo internacional a atender os apelos argentinos. A Argentina contraiu empréstimo bilionário com o Fundo em 2018, durante a gestão de Macri, e ainda não sabe como vai fazer para pagar.

Outro tema que pretende conversar com Araújo é a questão da Amazônia, que foi abordada por autoridades europeias durante o giro que fez com Fernández pela Alemanha, França, Espanha e Itália. “O meio ambiente é uma questão que temos que discutir com o Brasil”, disse. Segundo ele, autoridades europeias citaram a Amazônia (os incêndios) e a importação de produtos do Mercosul. Uma correlação que não ficou totalmente clara nas palavras do chanceler. No mesmo discurso para parlamentares, entre eles argentinos, brasileiros, venezuelanos, uruguaios e paraguaios, Solá disse: “A relação bilateral não pode entrar em decadência porque temos que gerar empregos”.

O deputado brasileiro Celso Russomanno, do Republicanos, pediu a palavra assim que Solá terminou de falar. Disse que Solá será recebido “de braços abertos” no Brasil, que a relação bilateral é fundamental e que o Mercosul é respeitado por ser um bloco. “Sou vice-líder do governo na Câmara. Depois de ouvi-lo, vou falar com o presidente Bolsonaro para recebê-lo”, disse Russomanno.

 

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