Fúria contra líderes na América Latina acabará em lágrimas; leia artigo

Fúria contra líderes na América Latina acabará em lágrimas; leia artigo

Do Chile à Colômbia, eleitores latino-americanos buscam mudanças, independentemente de quem as promoverá

Todas as vezes que um país latino-americano realiza eleições, alguns analistas sugerem que a região se inclinou para a direita ou para a esquerda, dependendo de quem vence. Um exame mais profundo dos resultados de eleições recentes, especialmente as que se verificaram desde o início da pandemia, nos contam uma história muita mais simples: as pessoas estão votando consistentemente contra os atuais mandatários.

Mais do que uma virada à esquerda, os eleitores latino-americanos votam para trazer o Estado de volta. Com um setor público já enorme e, como ficou exposto ainda mais pela pandemia, totalmente ineficiente e corrupto, as escolhas que os eleitores têm feito, provavelmente, irão desapontá-los. Os novos eleitos enfrentarão os mesmos obstáculos, alimentando mais descontentamento com a democracia e frustração com seus governos.

Com várias eleições previstas na região, incluindo para presidente no Chile e em Honduras, e eleições de meio de mandato na Argentina, o estado de ânimo do eleitor deve preocupar, especialmente no caso da coalizão de direita no Chile e do governo de esquerda na Argentina. E, embora ainda tenham tempo para se recuperar (as eleições presidenciais estão previstas para maio e outubro de 2022), o presidente colombiano, Iván Duque, que não poderá se candidatar a uma reeleição, e o presidente Jair Bolsonaro, do Brasil, devem também estar inquietos com o sentimento crescente contra os atuais dirigentes na região.

Antes da eleição presidencial no Chile, em novembro, o candidato à presidência, de direita, Sebastián Sichel, vem tendo um bom desempenho nas pesquisas. Ele venceu surpreendentemente as primárias da coalizão de direita derrotando um homem que liderou a corrida por mais de dois anos: Joaquín Lavín, ex-prefeito e duas vezes candidato à presidência – um sinal de que, entre os eleitores de direita, o sentimento que predomina também favorece rostos novos e uma mensagem nova.

Mas Sichel terá dificuldade para se dissociar do impopular presidente hoje no cargo, Sebastián Piñera. Ele serviu no gabinete do atual presidente e sua ligação com o governo será devidamente explorada por seus rivais, de direita e de esquerda, durante a campanha eleitoral. Do mesmo modo que os partidos de direita enfrentarão uma árdua batalha para reter os 40% de assentos no Congresso, Sichel precisará lutar para se distanciar de Piñera para se tornar um candidato viável.

Na Argentina, as eleições de meio de mandato, em novembro, devem renovar 127 das 257 cadeiras, na Câmara dos Deputados, e apenas 24 dos 72 assentos no Senado. A coalizão de governo peronista, provavelmente, manterá o controle do Congresso, mas os eleitores certamente enviarão um sinal claro de descontentamento que forçará o governo de Alberto Fernández a uma reavaliação da sua administração.

Como a líder de fato dos peronistas é a vice-presidente, Cristina Fernández de Kirchner, um revés pode levar a uma demanda para se indicar um outro candidato presidencial, e não Alberto, em 2023, ou, se a derrota for avassaladora, a um pedido para Cristina se afastar.

Mais do que uma mudança para a esquerda (no caso de Bolívia, Peru, Chile) ou para a direita (Equador), o descontentamento com as respostas dos governos à pandemia e a preocupação com a desaceleração econômica vêm levando os latino-americanos a votarem contra seus dirigentes atuais.

Em alguns países, como Equador e Bolívia, os presidentes de saída não apoiaram nenhum candidato para não prejudicar suas chances. E também os novos postulantes procuram se distanciar dos atuais dirigentes para não perderem apoio popular. Em outros lugares, partidos que formam a coalizão de governo têm se saído muito mal nas pesquisas.

No Chile, a coalizão de direita de Piñera, Chile Vamos, conseguiu eleger menos de 25% dos parlamentares escolhidos na convenção constitucional, em maio, e conquistou somente 1 dos 16 governos regionais. No México, a coalizão de governo sofreu um revés nas eleições de meio de mandato realizadas em julho.

Mais recentemente, o referendo proposto pelo presidente, Andrés Manuel López Obrador, sobre uma iniciativa para levar à Justiça presidentes anteriores fracassou miseravelmente, quando apenas 7% dos cidadãos com direito de votar foram às urnas. Embora a maioria tenha se manifestado a favor da consulta do governo, o comparecimento foi abaixo do limite de 40% de participação exigidos para o governo agir com base nesse mandato.

Embora variáveis idiossincráticas também tenham um papel na explicação da derrota de cada governo, o fato de que nenhum governo eleito conseguiu vencer uma eleição presidencial ou um referendo nacional, desde o início de 2020, e muitos titulares atuais já vinham perdendo eleições dois anos antes de irromper a pandemia, diz muito sobre o sentimento do eleitor médio na América Latina. As pessoas querem punir seus governantes e desejam novos líderes que lhes propiciem novas esperanças.

A mensagem dominante entre os que venceram eleições recentes na região combina o conceito de novos rostos, uma plataforma anticorrupção e a promessa de uma rede de proteção social mais ampla (com um setor de saúde pública mais forte e mais eficiente).

Embora a recuperação pós-pandemia traga ventos favoráveis, que ajudarão a consolidar o apoio aos novos governantes, as altas despesas fiscais feitas durante a pandemia serão um grande desafio para esses novos governos.

A necessidade de um retorno à disciplina fiscal e juros mais altos limitará sua capacidade de criar os sistemas de proteção social que prometeram durante a campanha. Um esforço de décadas para promover uma boa governança mostrou que a corrupção não será facilmente erradicada da região.

Além disso, depois que os efeitos da recuperação econômica desaparecerem, os problemas estruturais impedindo um crescimento econômico sustentado e inclusivo continuarão em muitos países. A frustração da sociedade com seus mandatários levará os eleitores a apoiarem seus concorrentes. Mas, no caso do Peru, onde recentemente Pedro Castillo foi vitorioso com a promessa de resolver os novos problemas com velhas receitas que fracassaram repetidas vezes, os seus rivais podem estar bem posicionados agora para representarem esse descontentamento popular, mas muitos não têm um programa viável para colocar o país de volta nos trilhos.

O mercado eleitoral na América Latina hoje favorece os candidatos adversários. Mas, quando eles se tornarem governantes, os problemas estruturais enfrentados por seus países e as grandes expectativas dos seus eleitores serão um enorme desafio para seus governos. Como não será fácil atender às expectativas, o sentimento contra os atuais titulares que prevalece hoje na região continuará a ser dominante, mesmo depois de a pandemia ser controlada.

Felizmente, existe uma alternativa simples e comprovada. Quando os países latino-americanos tiveram governos que combinaram políticas voltadas para o mercado com a adoção responsável de políticas sociais para reduzir a desigualdade e promover a inclusão social, com vistas a uma melhora do capital humano, os resultados sempre foram um sucesso.

Apesar de políticas com base na nostalgia não funcionarem, aquelas baseadas em medidas que comprovadamente resolvem problemas, respondem às inquietações legítimas das populações que sofrem e tornam os países mais atrativos para o investimento estrangeiro, explorando suas vantagens comparativas, sempre deram bom resultado. A má notícia é que esses desafios são imensos e o descontentamento popular está em ascensão. A boa notícia é que os vencedores das eleições têm uma receita já comprovada para colocar seus países de volta no caminho certo. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

* É PROFESSOR DE ESTUDOS LIBERAIS NA UNIVERSIDADE DE NOVA YORK E DE CIÊNCIAS POLÍTICAS NA UNIVERSIDADE DIEGO PORTALES, NO CHILE

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