Frente Ampla uruguaia se adapta a Bolsonaro

Frente Ampla uruguaia se adapta a Bolsonaro

Tabaré Vázquez é o último líder do Mercosul a ligar para felicitar presidente eleito, mas observadores locais apontam que críticas ao brasileiro já foram moderadas e dizem esperar que coalizão de esquerda no poder aja pragmaticamente

Ele foi o último presidente de um país do Mercosul a se comunicar telefonicamente com o presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL), talvez pelo desafio que representa para sua aliança de governo conviver com o futuro chefe de Estado do Brasil e pelas críticas públicas que membros dessa aliança fizeram a ele na campanha. Mas, ontem, finalmente Tabaré Vázquez, na reta final de seu segundo mandato como presidente do Uruguai (as próximas presidenciais serão em 2019), conversou com Bolsonaro e, em Montevidéu, dirigentes políticos e analistas esperam que a esquerdista Frente Ampla, no poder desde 2005, opte pelo pragmatismo.

Fontes uruguaias revelaram à mídia local que, na conversa, Vázquez disse a Bolsonaro esperar `o fortalecimento do vínculo bilateral nos planos cultural, educativo, diplomático, comercial e em todos os aspectos`.

CRÍTICAS PRÉ-ELEITORAIS

Tudo parece indicar, portanto, que a saída foi, de fato, o pragmatismo. Decisão compreensível quando se observa que o Uruguai exporta em torno de US $ 800 milhões por ano para o mercado brasileiro, pouco mais de 10% do total de suas exportações, num montante significativo para um país de 3,4 milhões de habitantes.

Na campanha eleitoral, alguns setores da Frente Ampla, que congrega vários grupos de esquerda, não pouparam críticas a Bolsonaro. Mas agora, com o fato consumado, a história é outra. Trata-se de buscar maneiras de conviver com o presidente eleito, e Vázquez já confirmou presença na posse.

A moderação das críticas e a rápida adaptação da Frente Ampla não surpreenderam estudiosos da aliança de governo uruguaia e dos seus integrantes que, na teoria, teriam as maiores resistências na hora de lidar com Bolsonaro: os ex-tupamaros. Segundo explicou ao GLOBO Adolfo Garcé, professor e pesquisador da Universidade da República e autor de livros sobre os tupamaros, a Frente Ampla e os `ex-tupas` são, essencialmente, pragmáticos. O

-s tupas negociaram com os militares e, uma vez na política, não tiveram, jamais, uma atitude de revanchismo. Eles atuaram como soldados que perderam uma guerra. Perderam e partiram para outra afirmou Garcé. Quando saíram da prisão, em 1985, os tupamaros se uniram à Frente Ampla e hoje representam um setor importante da aliança de governo, liderado por figuras como o ex-presidente José Mujica e sua mulher, a atual vice-presidente Lúcia Topolansky.

-Trata-se de um movimento flexível, eles são como camaleões. Inclusive, tiveram disputas internas com alas ainda mais radicais que pediam mais medidas contra os militares comentou o professor.

-Eles podem ter rejeição ideológica a Bolsonaro, mas não discordarão do pragmatismo de Vázquez. São capazes de digerir tal vínculo em nome dos interesses uruguaios.

MERCOSUL PREOCUPA

Sua visão foi confirmada pelo deputado Sebastián Sabini, da Frente Ampla, atual vice-presidente da Câmara. Ele integra o movimento comandado por Mujica e assegurou que, `apesar de não compartilhar o discurso de Bolsonaro, as relações bilaterais estão acima disso`.

-Ele é o presidente eleito do Brasil, e vamos manter nosso vínculo. O Uruguai também se relaciona comercialmente e em outros aspectos com governos como Venezuela, Estados Unidos, Irã, Palestina e Israel. Temos de saber diferenciar as coisas e ser responsáveis. O que, sim, o preocupa, como a muitos uruguaios, é que o Mercosul deixe de ser prioridade para o Brasil, segundo afirmou Paulo Guedes, futuro ministro da Fazenda. As declarações também foram recebidas com receio pela oposição. Segundo o senador Álvaro Delgado, do Partido Blanco, `para o Uruguai é crucial ter uma boa relação com o Brasil`.

-O mercado brasileiro é o segundo de nossas exportações, os turistas brasileiros são o segundo grupo que mais nos visita... Esperamos que a Frente Ampla não fique presa a sua ideologia, e ganhe o pragmatismo concluiu.

 

www.prensa.cancilleria.gob.ar es un sitio web oficial del Gobierno Argentino