Fragmentação da internet ameaça ampliar desigualdade na economia global, alerta Unctad

Fragmentação da internet ameaça ampliar desigualdade na economia global, alerta Unctad

Países em desenvolvimento estão se tornando simples fornecedores de dados para as plataformas digitais e, ao mesmo tempo, pagam para ter acesso à inteligência digital obtida a partir de seus próprios dados

O risco de fragmentação crescente da internet, em meio à intensa rivalidade tecnológica entre os EUA e a China, ameaça ampliar as desigualdades na economia mundial e deixar ainda mais para trás os países em desenvolvimento, alerta a Agência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad).

“Os dois gigantes da economia digital são EUA e a China. E depois tem o resto do mundo”, resume Shamika Sirimanne, principal autora do Relatório Sobre Economia Digital 2021, divulgado nesta quarta-feira (29), no qual a Unctad defende que as Nações Unidas assumam um papel central na governança dos dados digitais.

Os dados estão se tornando cada vez mais importantes como recurso econômico e também estratégico. E o relatório alerta contra a emergência de uma fratura ligada aos dados, na medida em que avança a economia digital baseada nos dados.

A gigantesca expansão internacional de fluxos de dados na internet é concentrada em duas rotas: entre a América do Norte e a Europa e entre a América do Norte e a Ásia, especialmente China. Metade da população ainda continua offline e nos países mais pobres somente uma entre cinco pessoas usa a web.

Numerosos países em desenvolvimento estão se tornando simples fornecedores de dados brutos para as plataformas digitais mundiais como Facebook, Apple, Google e Amazon. Ao mesmo tempo, devem pagar para ter acesso à inteligência digital obtida a partir de seus próprios dados.

Os EUA e a China são os pioneiros da exploração de dados. Os dois possuem 50% dos centros ‘’HyperScale’’ de dados do mundo, têm as taxas mais elevadas de adaptação da 5G, concentram 70% dos melhores pesquisadores em inteligência artificial (IA) e fornecem 94% dos financiamentos de startups em matéria de IA.

Além disso, os EUA e a China representam 90% da capitalização na bolsa das maiores plataformas digitais, e seus lucros deram um salto considerável durante a pandemia de covid19. Apple, Microsoft, Amazon, Alphabet (Google), Facebook, Tencent e Alibaba – investem mais e mais em toda a cadeia de valor mundial de dados.

Ou seja, investem na coleta de dados através de plataformas de serviços por satélites, na transmissão de dados por cabos submarinos e por satélites, na estocagem (centros de dados) e na análise, tratamento e utilização de dados graças à IA. Com acesso privilegiado aos dados, essas companhias têm um poder financeiro, comercial tecnológico colossal, diz a Unctad, controlando uma quantidade infinita de dados sobre seus utilizadores.

Somente Amazon investiu cerca de US$ 10 bilhões em transmissão por satélite. Amazon, Apple, Facebook, Google e Microsoft foram os principais compradores de startups em IA entre 2016-2020. No último trimestre de 2020, quatro plataformas – Alibaba, Amazon, Google e Microsoft – detinham juntas 67% do faturamento global em serviços de infraestrutura de “cloud”.

O contexto mundial atual se caracteriza por três abordagens diferentes de governança de dados, da parte dos três principais atores – EUA, China e União Europeia (UE). O modelo dos EUA é baseado no controle de dados pelo setor privado, o modelo chinês põe ênfase no controle dados pelo governo, enquanto a UE privilegia o controle de dados pelos próprios indivíduos.

Nesse cenário, a Unctad defende a criação de um novo órgão das Nações Unidas dedicado à governança dos dados. A ideia é garantir uma circulação entre os países “tão facilmente quanto necessário e tão livre quanto possível, permitindo maximizar os ganhos do desenvolvimento, garantir uma repartição equitativa desses ganhos e reduzir ao mínimo os riscos e os perigos”.

O relatório procura demonstrar que esse novo sistema mundial deveria igualmente “contribuir para evitar uma fragmentação ainda maior da internet, a superar os desafios políticos vindas de posições dominantes das plataformas digitais e a reduzir as desigualdades existentes”.

A economia digital baseada em dados está em plena expansão. Menciona estimativas de que o tráfego mundial de Protocolo Internet (IP), um indicador dos fluxos de dados, vai mais que triplicar entre 2017 e 2022. Uma parte crescente dos fluxos de dados é ligada às redes moveis.

Com o aumento de aparelhos moveis e conectados à internet, o tráfego de dados vai representar um terço do volume total de dados em 2026, de acordo com o relatório.

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