Ford estreia sua nova visão de Mercosul

Ford estreia sua nova visão de Mercosul

Mais do que um lançamento, Transit é um passo importante da nova estratégia da montadora na região

Desde que anunciou o fim da produção de veículos no país a direção da Ford deixou clara a intenção de passar a vender só modelos importados no mercado brasileiro. Desde então, entretanto, a empresa começou a montar uma nova estratégia para a América do Sul. Excluiu a manufatura no Brasil, mas preservou a fábrica da Argentina. Agora, a companhia se prepara para lançar a Transit, uma van que será produzida no Uruguai pela Nordex, uma empresa local. Embora isolado, o movimento da Ford começa a revelar um novo retrato do setor automotivo no Mercosul.

O acordo com a empresa uruguaia foi fechado há um ano, antes de a Ford anunciar o fim da produção de veículos no Brasil. Criada há quase 60 anos, a Nordex sempre esteve associada a alguma multinacional do setor. Hoje, faz a montagem de veículos das marcas Kia, Citroën e Peugeot, vendidos no Brasil.

Brasil fica com engenharia, Argentina com a fábrica e Uruguai tem parceiro ideal para terceirizar nova linha

O acordo com a Ford fará a companhia uruguaia crescer em tamanho e volumes de produção - não revelados. O contrato envolveu investimento, compartilhado entre as empresas, de US$ 50 milhões, e a construção de um novo galpão na unidade uruguaia. Segundo divulgado pelas empresas quando da assinatura do acordo, cerca de 200 empregos serão criados na empresa onde já trabalham mais de 300.

Pelo acordo de livre comércio do Mercosul, veículos produzidos nos países do bloco podem ser vendidos aos vizinhos livres de Imposto de Importação. Mas o maior atrativo do Uruguai é o índice de conteúdo local exigido: 30%, bem inferior ao do Brasil e Argentina (60%)

A Ford não revela com qual índice de peças locais a Transit será produzida. Mas sua estratégia adiciona novas questões a pontos de discórdia já levantados pelos governantes em torno do Mercosul. A polêmica envolve, sobretudo os acordos comerciais com outras regiões. Enquanto Argentina e Paraguai sustentam a necessidade de manter a união do bloco nos acordos com outras regiões, os governos do Brasil e do Uruguai querem deixar a negociação a critério de cada país.

Durante uma apresentação à imprensa sobre novos negócios da marca no segmento de veículos comerciais, ontem, o vice-presidente da Ford na América do Sul, Rogelio Golfarb, disse que o Mercosul “tem sido fundamental para a indústria automobilística por permitir um processo de complementação histórica”. Para ele, no entanto, a flexibilização para o livre comércio, prevista no acordo, “vai depender das condições de cada país”.

Para Golfarb, o avanço tecnológico dos carros, principalmente a conectividade, tornará as fontes de fornecimento de componentes cada vez mais abrangentes e pulverizadas. Isso, diz, levará à necessidade de repensar os critérios de exigências de conteúdo local nos veículos.

Segundo o executivo, as fábricas que a companhia tinha no Brasil eram grandes demais para as características do novo produto, que será feito em pequenos volumes. “A Nordex entregou boas condições em termos de competitividade, qualidade e custos”, destaca.

Embora tenha se desfeito de imponentes estruturas industriais em São Bernardo do Campo (SP), Taubaté (SP) e Camaçari (BA) e uma menor em Horizonte (CE), a Ford preservou uma importante equipe de engenharia, que fica na Bahia, além de um campo de provas em Tatu (SP). Tanto os engenheiros como os técnicos da pista de teste trabalham em conjunto com as equipes na matriz da companhia, em Dearborn, nos Estados Unidos.

Na estrutura comercial do Brasil, 100 concessionárias da marca foram preservadas e têm recebido treinamento técnico para mudar o foco dos automóveis compactos para os veículos comerciais e luxuosos. Na reestruturação das operações na região, a companhia também manteve e modernizou a fábrica da Argentina, onde é produzida a picape Ranger.

A Transit permite a adaptação da carroceria para variadas versões, como transporte de passageiros, entrega de mercadorias, transporte de pessoas com mobilidade reduzida ou ambulância. A primeira versão, a ser lançada ainda este ano no Brasil, será um micro-ônibus. Em seguida, chegará uma versão furgão, para entregas. Os preços dos veículos ainda não foram revelados.

A visão de negócios da Ford no Mercosul, hoje, é muito diferente da que guiou seus negócios na região quando o tratado de livre comércio no bloco foi lançado, em 1991. Naquela época, a Ford e outros fabricantes de veículos montaram um mapa de manufatura, que dividia as linhas de produção entre Brasil e Argentina, principalmente, e que permitia um intercâmbio equilibrado entre os dois países.

No caso da Ford, os carros grandes eram produzidos na fábrica argentina enquanto as linhas brasileiras se encarregavam dos compactos, um segmento que continuou em ascensão nos anos que se seguiram ao tratado.

A indústria automotiva tem passado por grandes transformações em todo o mundo. No Brasil, o fechamento das fábricas da Ford provocou traumas e frustrações. Ao mesmo tempo, o rumo que essa mesma empresa começou a seguir na região serve não apenas de uma mostra do que pode vir pela frente como também de provocação para o país refletir sobre instrumentos que pode usar para preservar a atividade industrial automotiva.

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